domingo, 4 de abril de 2010

JESUS: Tentação e Filosofia

Jesus: tentação e filosofia

1.
Judas apareceu no local em meio a um grupo de soldados e autoridades. Chegou e beijou Jesus. Era o sinal combinado para que os que vieram com ele soubessem quem ali, em meio à multidão, era Jesus. Identificado, Jesus foi preso pelas autoridades. Mas não sem resistência e confusão. Um dos discípulos arrancou a espada e cortou a orelha de um guarda. Jesus o repreendeu. A partir daí a briga se instaurou em geral e os soldados botaram todos para correr. Houve até um dos que seguiam Jesus, costumeiramente vestido apenas de um lençol, que se desvencilhou das vestes ao ser agarrado e fugiu correndo pelado. Há quem diga que o jovem que correu pelado para não ser preso era Lucas, um dos quatro que, depois, foram os autores do ocorrido, os que escreveram o Novo Testamento.

Creio que os que apostaram que Lucas era o jovem que abandonou os lençóis e fugiu pelado, quando da prisão de Jesus, tinham boas razões para assim conjecturar. A situação é engraçada e, quando assim acontece, principalmente em um lance em que não deveria caber o humor, o autor só pode estar dando uma pista de um fato particular, que ele quer que fique registrado. Em uma situação trágica, um bom autor só se permite ridicularizar a si mesmo. Lucas ousou colocar o fato destoante não só para, talvez, amenizar a tensão do leitor naquela parte da narrativa, mas para informar que se houve alguém mais covarde ali no momento isso não ficou registrado e, então, o (de)mérito teria de caber só a ele próprio, o autor.

Alias, fico imaginando que foi esse episódio que decidiu a sorte de Lucas. Ao chegar à sua casa esbaforido, com medo e pelado, ele viu que havia se metido realmente em uma confusão grande. Seguir Jesus não era para qualquer um! Mas, caso Jesus não fosse nada além de um simples falastrão, ainda assim escrever sobre ele valeria a pena, uma vez que as coisas tomaram aquele rumo, o da sua prisão. No mínimo daria um bom relato jornalístico – uma boa história. É assim que imagino Lucas em sua casa, escondido, morrendo de medo dos soldados o terem seguido, mas ao mesmo tempo ciente de que tinha nas mãos tudo para começar sua carreira de escritor moral e imortal. Acertou em cheio: é até hoje, junto com Mateus, João e Marcos, um dos autores do livro mais vendido no mundo todo em todas as épocas. Nos tempos modernos, Gutemberg começou a imprensa com a Bíblia, e daí em diante qualquer editor sabe que, quando está passando dificuldades, se imprimir a Bíblia os Céus ajudam-no rapidamente a sair do buraco.

Os textos bíblicos do Novo Testamento precisam ser lidos levando em consideração o conjunto dos quatro autores. Um autor complementa o outro. Há passagens de Jesus contadas por um dos autores e que não são mencionadas pelos outros. São historietas que podem ser lidas segundo o gosto de cada um. Interpreto-as de um modo bem pessoal, mas seguindo um determinado rigor de abordagem que nunca deve ser desconsiderado: a Bíblia é um livro moral, nós o lemos para tirar um ensinamento para a conduta da vida, não para qualquer outra coisa. É um livro de sabedoria, não de conhecimento. Trata-se de um manual popular de ética, não um compêndio de história científica ou ciência. Um manual apropriado para nós, os do Ocidente, com passagens curiosas que nenhum jovem deveria deixar de ouvir e que nenhum adulto não pode não ter escutado.
2.
Em termos gerais, o Novo Testamento é bem simples. Trata-se da história de Jesus. O que fez Jesus?
Jesus nasceu em Belém, nas terras de Israel, ou seja, era judeu. Filho de uma jovem chamada Maria e de um homem um pouco mais velho, um carpinteiro de boa índole chamado José. Ele propôs novos ensinamentos religiosos. Segundo ele próprio, os seus ensinamentos não iriam contrariar a lei religiosa já existente. Todavia, quando olhamos de perto o que ele falou e o que era a religião oficial dos judeus, não há como não dizer que ele realmente pregou algo distinto do que até então era a moral religiosa comum.

No decorrer da sua pregação, irritou bem os homens do poder e do dinheiro, principalmente as autoridades eclesiásticas tradicionais, que viram nele uma ameaça ao status quo que possuíam. Conseguiu atingir tais autoridades muito mais do que aos romanos, que mantinham o controle político-militar da região. Suas palavras foram tomadas como blasfêmias pelos sacerdotes locais e, enfim, Jesus foi preso, julgado e condenado a morrer amarrado em uma cruz, como era o costume romano da época. Assim ocorreu. Sua morte colocou em marcha, por meio de discípulos que o conheceram diretamente ou não, a divulgação de suas idéias, o “cristianismo”. Basicamente, sua doutrina poderia ser colocada sob uma rubrica do seguinte tipo: “o amor é a única lei” – Era realmente allgo bem diferente da lei ético-religiosa popular, mais ou menos vigente até então em quase todo o mundo antigo, a do “olho por olho, dente por dente”.
3.
Jesus não deixou nada escrito. O que se sabe dele veio por relatos de todo tipo, principalmente os textos dos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João. São textos nem sempre com informações precisas e, em alguns pontos, errados quanto a determinados detalhes da época. Mas, como disse nos parágrafos anteriores, isso pouco importa. Durante seu tempo de pregação, Jesus viveu na Palestina, uma faixa de terra de não mais de 85 km de largura e 240 de comprimento, delineada entre o Mediterrâneo e o rio Jordão. Era uma terra de agricultores, criadores de rebanhos, pescadores, comerciantes, artesãos e muitos, mas muito mesmo, religiosos e profetas de todo tipo.

A palestina do tempo de Jesus entrava na geografia do Império Romano por meio de duas colônias, a Judéia e a Samaria. Roma indicava um procurador para governar o local e este concedia certa autonomia para a colônia, uma vez que, por sua vez, nomeava o sumo sacerdote, retirado de um grupo social local. O sumo sacerdote detinha o conhecimento das tradições religiosas e, assim, possuía não só poder religioso, mas poder político e criminal que, enfim, se tornava concreto e eficaz a partir de sua atuação em conjunto com as práticas do Sinédrio.
O sumo sacerdote governava a partir do Templo de Jerusalém e era ajudado pelo Sinédrio de 71 membros. Essas pessoas eram sacerdotes, escribas ou simplesmente anciãos. Reportando-se ao Templo, existiam nas pequenas cidades os conselhos locais, em geral compostos por anciãos.

Os grupos da sociedade da Judéia e Samaria se formaram a partir de recortes étnicos, profissionais, econômicos e, é claro, religiosos. Os saduceus eram os grandes proprietários de terras. De suas famílias vinham os sacerdotes mais influentes. Eles tinham o controle do estado, da administração pública e, certamente, do próprio Sinédrio. Trabalhavam em estreita colaboração com os conquistadores romanos. Rejeitavam uma série de elementos que faziam parte da religião renovada, que aparecia pela boca dos intelectuais, como a crença nos anjos e demônios, o messianismo e a ressurreição.
Os intelectuais da época formavam um grupo à parte, eram os escribas ou “doutores da Lei”. Tinham penetração no Sinédrio, mas predominavam mesmo nos pequenos templos locais chamados de sinagogas. Tinham amplo controle da educação popular uma vez que, na maioria dos casos, eles eram os mestre-escolas. Aliás, não raro as escolas se organizavam a partir das sinagoras. Os “doutores da Lei” eram principalmente administradores, juristas, pedagogos – todos ligados ao saber que, no caso, era o saber de interpretar as Escrituras, pouco revelado ao povo ou mesmo aos mais abastados, os saduceus. De certo modo, tinham o monopólio da interpretação das Escrituras.

Os fariseus formavam o clero pobre, que militava nas sinagogas, criando certa resistência ao que se fazia no Templo. O Templo cultivava uma religião mais sacrificial enquanto que as sinagogas eram os lugares da reintepretação das Escrituras, um espaço em que qualquer judeu poderia ler o Evangelho e expor sua visão sobre o assunto. O grupo dos fariseus não era distante do grupo dos “doutores da Lei”, mas diferiam em status. Todavia, ambos tentavam se manter distintos do povo. A doutrina dos fariseus acreditava na vinda do Messias, cuja função seria a de libertar Israel. Esse Messias viria da descendência de Davi. Sua aparição dependeria da força da oração e do jejum dos fiéis. Só assim ele cumpriria sua predestinação.
Os zelotes vieram do grupo dos fariseus. Eram pequenos comerciantes, artesãos, agricultores humildes ou pastores. Eram os que pagavam a maior parte dos impostos. O estado judeu se punha como um excelente cobrador de impostos. Ou melhor: era um cobrador abusivo. E isso tornava os zelotes cada vez mais nacionalistas. Esse nacionalismo se casava bem com uma religião rigorosa e com o desejo de expulsar dali os romanos, vistos como exploradores ligados a uma religião pagã. Os zelotes acreditavam no que os fariseus acreditavam, mas a resistência ao invasor era mais radical. Em geral, por defenderem a luta armada contra as autoridades, eram tomados como terroristas – uma prática de revolta que tradicional do local.

Além desses, existiam os essênios, que eram adeptos do ideal monástico. Por isso mesmo se opunham às atividades urbanas, principalmente o comércio. Defendiam rituais de purificação e também esperavam o Messias, que deveria vir para exterminar os ímpios e estabelecer o “reino dos judeus”. Também naquelas terras viviam os samaritanos. Não eram judeus. Não freqüentavam o Templo de Jerusalém, nem davam atenção para sinagogas ou para a vinda de qualquer Messias da casa de Davi. Tinham para si mesmo que o Messias seria descendente de Moisés. Eram vistos pelos judeus como um povo impuro.
É claro que existia, também, um grupo menor cujos membros cumpriam o papel de funcionários da corte, no caso, a administração de Herodes. Eram os que mais prestavam atenção nos zelotes, para ver suas atividades e, se fosse o caso, os prender.
4.
Nos dias em torno da data de nascimento de Jesus, surgiram em Jerusalém três forasteiros perguntando pelo lugar em que poderia estar o menino. Eles se diziam homens do Oriente e, sem muita cerimônia, questionavam pessoas na rua sobre o local em que teria nascido aquele que seria “o rei dos Judeus”. Diziam que haviam chegado até ali por causa de um aviso no céu, algo como uma estrela que os havia guiado até Jerusalém. A missão dos homens, como contada por eles mesmos, era a de presentear o recém nascido e “adorá-lo”.

Os homens que estavam procurando pelo Jesus recém nascido eram magos – três magos, Belchior, Baltazar e Gaspar. Eram sacerdotes persas, da religião do profeta Zoroastro ou Zaratustra. Eles acreditavam em um deus único e na vinda de um messias, isto é, uma pessoa “consagrada”, capaz de reconstruir dinastias perdidas. Seguindo a estrela ou o fenômeno luminoso no Céu, eles se deslocaram de muito longe para ali a fim de prestar uma homenagem não só à criança que, num futuro não muito distante iria mudar o calendário do mundo, mas muito provavelmente venerar o que era o cumprimento de uma profecia de sua própria religião.

O desconhecimento deles a respeito da cultura local era visível. Não faziam idéia de quem governava a região e de que modo o fazia. Pois, caso tivessem alguma pista sobre isso, não teriam ziguezagueado pela cidade perguntando sobre Jesus, muito menos usando a expressão “o rei dos Judeus”. Como disse, a terra dos judeus estava sob domínio romano. Ora, como em todas as colônias, os romanos eram zelosos quanto ao aparecimento de líderes vindos dos povos dominados. Líderes só eram bem vindos quando aceitavam as diretrizes de Roma, mas, se eram aclamados já no nascimento, como saber no que iriam se tornar ao ficarem adultos?  Líderes assim não deveriam ficar adultos. O governante daquela época, ali na província, não era romano, e sim judeu, mas não pensava diferente dos romanos. Era até bem mais rigoroso nesse sentido. Seu nome era Herodes.
Estava no trono pela força do exército romano. Era despótico e cruel. Herodes era uma pessoa insegura, que fazia questão de se cercar de auxiliares menos cultos que ele, para que não viesse a ser ameaçado em seu cargo. Como não era muito inteligente, essa sua regra acabou por imprimir ao seu staff a marca da mediocridade. Foi essa incompetência que salvou Jesus no seu nascimento.

A conversa dos magos na cidade chegou ao palácio do governo. Mais que depressa, Herodes mandou seu mensageiro de confiança convidar os forasteiros para vir ter com ele no palácio, em um encontro secreto. Ao mesmo tempo, reuniu os sacerdotes locais, perguntando a eles sobre em que lugar nasceria o tal líder, o “rei dos Judeus”. Os sacerdotes apontaram a cidade de Belém, próxima dali. Quando os magos chegaram ao palácio, Herodes os adulou de toda maneira e insistiu em passar a eles uma imagem amável em relação ao recém nascido procurado.  Disse de pés juntos que iria visitar o menino para também “adorá-lo”. Então, pediu aos magos que ao retornarem de Belém, passassem de volta ao palácio para informar não só sobre onde residia a criança, mas também para falar sobre a família.

Qualquer outro rei teria seguido os magos ou, então, visto aquela estrela enorme no céu, vagando e mostrando o caminho para os forasteiros. Todavia, não foi isso que Herodes fez, ele realmente ficou ali, esperando a volta dos três persas. Os magos seguiram caminho e logo viram novamente a estrela que os havia guiado até então. Foi com a sinalização dela que eles chegaram exatamente ao local onde estava Maria e seu filho Jesus. Quando viram a criança nos braços de Maria, eles se abaixaram e, de joelhos admiraram o garoto. Depois de um tempo, eles abriram seus pertences de viagem e então presentearam mãe e filho com mirra, incenso e a resina “áurea”.

Os magos iriam voltar para Jerusalém, todavia, na noite que passaram ali sonharam com uma situação pouco amigável na corte de Herodes e, então, resolveram partir para suas terras por outro caminho. Tão logo eles partiram, José pegou Maria e o menino e foi para o Egito. Ele sabia muito bem que Herodes não era “flor que se cheire”, e não quis se arriscar nem um pouco em Jerusalém ou mesmo ficando por ali.
Passado algum tempo, Herodes se deu conta de que os magos o haviam ludibriado. Com ódio e, também, receoso sobre o futuro do tal “rei dos Judeus”, não hesitou em tomar uma atitude violenta. Mandou que seus soldados matassem todas as crianças até dois anos que encontrassem em Belém e nas circunvizinhanças. Sorte de Jesus, azar de outros meninos. Alegria de Maria e José, dor para outros pais.
Tudo isso determinou que Jesus passasse uma parte de sua infância no Egito, em uma cultura bastante diferente da de seus pais. Talvez isso tenha contribuído para fazer dele um jovem prodígio e uma pessoa um pouco diferente do que José e Maria esperavam de um filho.
5.
Depois de alguns anos, quando José avaliou que o perigo havia passado, resolveu sair do Egito e voltar para as terras de Israel. Todavia, prudentes, José e Maria não foram morar em Jerusalém, eles se estabeleceram na Galiléia.
Algumas vezes visitavam Jerusalém. Na Páscoa, essa visita era obrigatória. Em uma dessas visitas, passaram por um grande e angustiante susto.
Estiveram na cidade como de costume e, então, regressaram junto da caravana de peregrinos. Caminharam por um dia todo e só quando anoiteceu perceberam que Jesus não estava junto na caravana. Foram aos parentes em cada parte da caravana, perguntando pelo garoto e nada encontraram. Preocupados e aflitos, deixaram a caravana seguir e voltaram para Jerusalém. Procuraram na cidade por três dias e não acharam nenhuma pista de Jesus.

O acaso os levou ao Templo e foi justamente lá que encontraram Jesus. Fazia três dias que Jesus estava ali perguntando e discutindo com os sacerdotes. Havia já um público para ele, pois sua argumentação era envolvente e suas respostas eram inteligentes o suficiente para encantar os que ali estavam.
Quando Maria viu Jesus ali no templo correu para ele, abraçando-o firmemente. Mas, como não poderia deixar de ser, ela perguntou ao filho porque ele havia ficado ali e como ele não havia se dado conta de que, agindo assim, deixaria seus pais completamente malucos. O comportamento esquisito de Jesus foi marcante. Sua resposta também foi uma pergunta: “onde eu poderia estar senão na casa de meu pai?”.
6.
Antes de iniciar a sua pregação, por volta de seus trinta anos, Jesus realizou um período de autopreparação. Primeiro, encontrou João Batista, que realizava o batismo das pessoas. Enfiava a cabeça delas no rio e, após o banho, ensinava algumas diretrizes não tão distantes daquilo que, depois, veio a ser o ensinamento de Jesus. Jesus foi ter com João Batista e também foi submetido ao ritual do batismo. Depois, Jesus retirou-se para o deserto para jejuar, refletir e orar.
Solitário no deserto por quarenta dias, Jesus teve tempo suficiente para decidir se iria ou não seguir como missionário, educador popular e renovador moral. Como foi sua preparação? Jesus se viu colocado diante de tudo o que ele abandonaria se escolhesse a vida missionária. Tais coisas lhe apareceram como as “tentações”. Mateus, Marcos, Lucas e João relataram isso como tentações do mal, ou seja, como visões postas por um demiurgo maligno, “o diabo” ou “Satanás” ou coisa parecida.
Mas, enfim, o que eram as tentações?

Tendo o dom da palavra e gozando de perfeita saúde, não seria difícil para Jesus, naquela sociedade ávida por doutrinas, deixar a profissão de carpinteiro, que aprendeu de seu pai, e procurar se aproximar das autoridades para se transformar em uma liderança religiosa. Talvez a origem social de seu pai, um artesão, pudesse lhe dificultar um pouco a ascensão social. Mas, para aquele que, quando criança, foi respeitado por adultos no Templo, não seria tão complicado conseguir um lugar social melhor que o de seu pai. Por isso mesmo, optar por se tornar um reformador social e, então, abandonar esse caminho de êxito em conluio com o poder, não era uma decisão simples.

A um jovem de trinta anos, com o tipo de carisma de Jesus, o mundo realmente poderia aparecer aos seus pés. Foi assim que ele se sentiu no deserto, em vários momentos, como quem estava diante da tentação de agarrar o mundo, fazendo disso o instrumento de uma conquista que, certamente, traria felicidade para qualquer pessoa. Para outros, isso poderia parecer impossível. Mas duvido que Jesus não tivesse clareza de que, para ele, aquilo era muito bem uma possibilidade palpável. Assim, decidir por uma vida difícil de pregador de uma reforma moral merecia quarenta dias de reflexão.
7.
Uma vez no deserto, Jesus se colocou diante de três desafios: o do eu consigo mesmo, o do eu com os outros e o do eu com a natureza. Os que escreveram o Novo Testamento colocaram esses desafios nos termos das tentações de Jesus de ceder ao mal para conseguir o que poderia vir a desejar. E o que poderia vir a desejar? Satisfação de necessidades físicas, exemplificadas por fome e sede, certamente. Satisfação do desejo de poder e riqueza, exemplificado pela visão de Jesus de palácios e reinos grandiosos. Satisfação do desejo de controlar as forças naturais, exemplificado pela idéia de poder desprezar a lei da gravidade.
O desafio do eu consigo mesmo nada é senão a tarefa de notarmos o que somos diante de nossos desejos relativos às sensações. Aderimos ao mal para nos satisfazermos? Ou podemos nos conter e ficar sem a satisfação de nossas mais urgentes necessidades físicas, quando se trata de ter de fazer algum mal a nós mesmos e a outros para que tais necessidades cessem?

O desafio do eu com os outros diz respeito ao nosso convívio social, que inevitavelmente nos coloca no ambiente do poder e do dinheiro. Ninguém é imune ao desejo de ter algum poder sobre outros e de ter algum dinheiro. Todavia, o quanto nós pactuamos ou não com o mal para conseguir dinheiro e poder? Conseguimos abrir mão de todo desejo de dinheiro e poder se, para tal, o único caminho é aderir ao mal, ou seja, o prejuízo e o sofrimento de outros?

O desafio do eu com a natureza diz respeito ao nosso contínuo desejo de controle do mundo que nos cerca. Não raro, nos achamos no direito não só de controlar a natureza, mas de dominá-la a qualquer preço. Sentimo-nos deuses quando, com nossas engenhocas, alteramos a natureza e a fazemos se dobrar não só às necessidades humanas, mas até mesmo aos nossos caprichos idiossincráticos. Sabemos lidar com a natureza sem nos aliar ao mal, isto é, sem prejudicar nosso mundo?

Jesus no deserto viu tais males como uma forma de escravidão. Em um primeiro momento, ali no deserto, pensar no objeto dos desejos poderia parecer como sendo prazeroso, a fuga da permanência no deserto – o deserto da vida pobre. Mas, jejuando e meditando, Jesus se convenceu que a escravidão era exatamente o oposto. Seria escravo dos desejos aquele que não soubesse desprezar coisas desejadas quando, para obtê-las, o único caminho possível era adorar o mal. Jesus saiu fortalecido do deserto, pronto para sua atividade de pregador, quando ganhou a clareza de que poderia abrir mal de desejos se eles estivessem atrelados ao prejuízo de si mesmo, dos outros e do mundo.
Apesar dos fundamentos serem diferentes, em vários momentos é possível ver uma grande proximidade entre essa questão de ser ou não escravo do mundo na doutrina de Jesus e na doutrina dos filósofos estóicos. Aliás, posso ir mais além e lembra que São Paulo, que realmente foi quem organizou o cristianismo posterior, como havia sido soldado romano, tinha muito de estóico – o comportamento de quem busca saber de seus limites exatamente para não se ver subjugado a tudo que limita.

Quando Jesus saiu do deserto convencido de que queria ser um reformador moral, ele estava plenamente consciente de sua decisão. Saiu com o espírito fortalecido. Ele precisava disso. Somente uma pessoa altamente convencida de que o que faz é importante e é o que deve ser feito ensina como ele foi descrito ao falar nas sinagogas. Diziam dele: “ensina com autoridade”. “Ele ensina com autoridade” foi uma frase repetida pelos que escreveram o Novo Testamento, ao relatar o que as pessoas exclamavam quando as pregações de Jesus se iniciaram. Uma autoridade visivelmente maior que a de João Batista.
8.
João Batista era um pregador que vivia de modo muito simples, no campo. Usava como vestes uma pele de camelo, se alimentava de mel silvestre e fazia rituais perto do rio Jordão. Recebia pessoas para confessar pecados e as submetia ao ritual do batismo. O ritual nada era senão o de enfiar a cabeça das pessoas na água do rio, para o simbolismo de purificação e, é claro, de renovação espiritual.
Após o ritual que promovia no Rio Jordão, dizia aos que ali estavam que deviam repartir o que tinham. Aos soldados dizia para não maltratarem ninguém nem fazer falsas acusações e não reclamar de salários. Aos cobradores de impostos dizia para nunca cobrarem além do justo.

Não era por esses ensinamentos que foi preso, embora essa sua doutrina pudesse, realmente, incomodar uma sociedade acostumada a outro tipo de comportamento. João Batista foi preso por Herodes por causa das autoridades eclesiásticas superiores. Elas estavam sempre atentas ao surgimento de lideranças. Além do mais, João Batista falava em “um novo reino”, e os saduceus não gostavam nem um pouco de qualquer tipo de pregação que anunciava algo que lhes soasse como uma nova estrutura social. Isso lhes parecia incitação à revolta social e política. Para piorar as coisas para João Batista, ele também se indispôs com o governador da Galiléia, Herodes, criticando-o por suas maldades contra a população e também por desposar a mulher do irmão.

Apesar dessas querelas, a prisão de João Batista não parecia, ao menos à primeira vista, que deveria render grandes traumas. Mais cedo ou mais tarde ele seria solto, pois as acusações contra ele eram as de blasfêmia, completamente infundadas. Todavia, a mulher de Herodes tomou as críticas de João Bastista de um modo muito particular, e exigiu do marido a cabeça do pregador em uma bandeja. Isso realmente ocorreu.
Quando Jesus ficou sabendo da morte de João Batista, decidiu que havia chegado a hora de iniciar seu trabalho de reformador, que chegaria ao ponto culminante, ao menos para Lucas, no dia do beijo de Judas.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo.
Sunday, April 4, 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

GOETHE - BEETHOVEN


FAQ (Frequently Asked Questions)


Q: Where can I get the sheet music for this piece?
A: The score that's shown in the video is available for free as a PDF here:
And here's a version for a solo melody instrument (like flute or saxophone):
.


“Jamais conheci um artista mais contido, vigoroso e sincero.
Posso compreender muito bem quão singular deve ser sua atitude para com o mundo.”
Goethe sobre Beethoven

“A admiração, o amor e a estima, que já acalentava em minha juventude pelo único e imortal Goethe, ainda persistem. Sentimentos como esses não são expressos facilmente em palavras, particularmente por alguém inculto como eu, pois meu único desejo tem sido dominar a arte da música. Mas um sentimento estranho está me induzindo a dizer tudo isso a você, visto que vivo em seus escritos.” 

 
Beethoven para Goethe
 

“Não toquei meu piano por vários dias”, afirmou Johann Wenzel Tomaschek, depois de assistir a um duelo pianístico entre Joseph Wölffl e Ludwig van Beethoven. E, de fato, o contato com Beethoven é paralisante. Mais uma vez, graças à biografia de Lewis Lockwood, lançada no Brasil pela editora Códex. O que se pode acrescentar, em termos de comentário, à obra do compositor alemão? À obra de possivelmente um dos maiores, senão o maior artista do mundo ocidental, segundo nos deixou sugerido Otto Maria Carpeaux? Beethoven é auto-suficiente e, a não ser que se esteja no mesmo nível para acrescentar algo em termos musicais, como fizeram, por exemplo, Berlioz e Wagner, o melhor mesmo é calar. E estudar seu legado. A atitude, humilde, dos biógrafos de personalidades desse porte tem sido, ultimamente, a mais correta: pesquisar, cruzar dados, montar uma narrativa e não conjecturar nada ou quase nada. Os adendos, proveitosos, estão fora do nosso alcance. Pelo menos, no caso de Beethoven. Diante da constatação dessa impossibilidade, digamos, de se reescrever a História, resta, a nós, passar ao largo de alguns pontos interessantes. E só. Por enquanto.

Provavelmente, a coisa que mais chama a atenção, hoje, tomando-se o universo de Beethoven, é o germanismo – e a certeza de quanto ele perdeu de terreno, tornando-se até pejorativo, obviamente depois de Hitler. Ou antes. O “germanismo” (se é que estamos tomando a acepção mais correta do termo) terminou associado ao nazismo, à suposta superioridade da “raça ariana” e aos delírios de grandeza do Terceiro Reich. E claro: depois da carnificina, da destruição e do evidente absurdo da Primeira e da Segunda Guerras, qualquer consideração sobre o caráter genuinamente alemão, vá lá, passou pelo resultado desses dois conflitos, onde a Alemanha foi um dos atores principais (infelizmente, para o mal), já que – como diz George Steiner – por pouco não tirou a Europa do mapa e não enterrou nossa civilização. Como se falar em germanismo depois desses horrores incorresse na inevitável conclusão: por mais portentosas e esplendorosas que tenham sido as realizações das nações e dos povos germânicos, redundaram em duas guerras mundiais que por pouco não nos soterraram. Ou seja: colocando de uma maneira bastante simples, valeu a pena? De que nos serviu, afinal de contas, o germanismo e a cultura “germânica”? Freud, por exemplo, no período entre guerras, revisou toda a sua teoria e incluiu, em contraponto à pulsão de vida (Eros), uma pulsão de morte (Tânatos) – uma vez que era a única forma de justificar uma barbaridade aparente inexplicável: a guerra mundial.

Ainda assim, o germanismo é um assunto do qual não se escapa quando se pensa em Beethoven. Em música, fala-se em Classicismo a partir de Haydn e Mozart e, em seguida, em Romantismo, a partir de Beethoven. Entre as muitas intenções por trás do termo clássico, deve estar a de aproximar as criações musicais do período à era dourada do “classicismo” grego, depois, romano, por último, renascentista. É o mínimo que se pode afirmar dessa fase, que teve, justamente, seus primórdios relacionados a Haendel e Bach. Coincidência ou são todos autores oriundos do mundo germânico? A tendência, natural, é objetar, evocando os italianos, como Vivaldi e os pais fundadores da ópera, como Monteverdi (tendo-se em conta, ainda, o quanto Beethoven admirava Rossini), mas a presença germânica na consolidação do que foi a música a partir daí não parece ameaçada. Nem com a inclusão dos franceses (Beethoven tinha muito respeito por Cherubini), nem com a inclusão dos espanhóis (Nietzsche, para se contrapor a Wagner, caiu de amores por Bizet), consegue-se fazer frente à trinca Bach, Mozart e Beethoven.

Falar em germanismo, além de tabu, está na base de toda incorreção política durante o século XX. Pois qualquer pessoa sabe da adoração de Hitler por Wagner e da apropriação, pelos ideólogos do nazismo, das filosofias de Nietzsche e Schopenhauer. A ligação, quando se pensa nas qualidades da música a partir de Beethoven, passando seqüencialmente por Wagner, e na força dos filósofos como Schopenhauer, passando pelo discípulo Nietzsche, é feita, inconscientemente ou não, com o que há de mais monstruoso, desumano e abominável no hitlerismo e nas suas conseqüências, físicas e psíquicas, para a humanidade. Mas, assim como na música, é inegável também, no pensamento, a influência da filosofia produzida no seio dos povos germânicos. Desde Kant, que fundou praticamente sozinho a modernidade, até Marx, justamente responsabilizado por outro dos maiores desenganos do século passado: o totalitarismo de esquerda. Como esquecer, além dos referidos Nietzsche e Schopenhauer, Leibniz, Hegel, Husserl, Heidegger e Wittgenstein – eternamente plasmados por seus vizinhos franceses, que, desde Rousseau e Montaigne, provavelmente não surgiram com nada que não tivesse os pés fincados no pensamento de autores de língua alemã?

Saindo da controvérsia política e entrando no reino da arte, é impressionante como Beethoven pode embasbacar eternamente qualquer mortal. Desde as constatações já na adolescência e a infância de que seria um segundo Mozart (mesmo que Haydn achasse que isso “nem em cem anos”) até a vida adulta e a “velhice” (morreu com 57 anos), em que seguiu se reinventando até o final, bebendo nas águas de Haendel e Bach (pré-Clássicas), culminando com o contraponto duplo da Nona – quase indubitavelmente a maior obra de arte jamais concebida pelo espírito humano. Passando, claro, pela Eroica, pela Quinta, pela Sétima (o triunfo da dança, segundo Wagner), e também pela Quarta e pela Sexta – pois, feita a homenagem (depois cancelada) ao imperador, na Bonaparte, Beethoven responderia assim sobre a dúvida lançada a respeito de suas sinfonias de número par: “[Você estranhou?] É porque fiz muito melhor”. Aliás, a propósito de Napoleão, anotaria, do cume da montanha em que se encontrava: “É uma pena eu não compreender a arte da guerra tão bem quanto compreendo a arte da música. Eu o teria vencido”. Ou, então, quando se reconheceu um legislador não-autorizado do mundo (na expressão de Shelley): “Eu atingi tal grau de perfeição que me encontro acima de quaisquer críticas”. Ou, ainda, ciente de que não poderia realizar tudo o que seu desejo demandava: “Oh, seria tão maravilhoso poder viver milhares de vidas!”.

E outra fonte infinita de encantamento e surpresa é o que Lochwood chama de “força interior granítica”, transcendendo as dificuldades impostas pelo corpo e pela mente, mais notadamente as resultantes da sua progressiva surdez, que o fizeram registrar: “Para você, pobre Beethoven, nenhuma felicidade pode vir de fora; você precisa criá-la dentro de si mesmo”. Ou, quem sabe, de acordo com o relato de Haydn, autobiográfico, mas que poderia ter sido escrito por ele, Beethoven: “Eu vivia à parte do mundo, não existia ninguém ao meu lado para me confundir ou me aborrecer pelo caminho, e assim tive que me tornar original”. Fechando com a citação, biográfica, do poeta e escritor Marge Piercy, casando com a observação do próprio Beethoven, de que se sentia um filósofo aos 28 anos, e encerrando de vez a questão entre vida exterior e vida interior, onde sabiamente se exilou o autor da Sonata ao Luar: “Não posso permanecer nesse lugar excitante por muito tempo, mas, quando estou nele, nada mais importa”. O que talvez explique o desligamento crescente da realidade, cujo exemplo mais gritante foi a tentativa de suicídio de Karl Beethoven, na época sob os cuidados de seu tio Ludwig, que não abalou nem um pouco a composição dos últimos e, para variar, impressionantes quartetos de Beethoven.

Ao contrário, porém, do que possa parecer, Beethoven não enfiou a cabeça na terra, como um avestruz, e esperou que o mundo consagrasse seu gênio criador. Foi, mais uma vez no dizer de Lockwood, um administrador incansável de sua produção e negociava diretamente com vários editores, procurando obter os maiores ganhos, a fim de que pudesse se dedicar, com certa folga, a uma das duas coisas que elevava o homem até o patamar dos deuses (junto com a ciência): a arte. Apesar de seu caráter conhecidamente misantropo, Beethoven tinha certeza de que era preciso “cortejar”, “como a um rei”, a sociedade. E foi assim, cioso de seus princípios, que se estabeleceu em Viena ainda jovem, partindo de Bonn, sua terra natal. Foi, como é sabido, aluno de Haydn (um Haydn mais requisitado do que se podia esperar – para prestar atenção no pupilo prodígio), e existe a hipótese de que haveria visto Mozart (“Preste atenção nele. Algum dia o mundo falará sobre ele” – apesar da suspeita, é uma declaração sem base factual), e também de que teria abençoado Schubert (“Realmente ele tem a centelha divina”, outra suspeita sem comprovação), mais um na lista de seus possíveis visitadores, no fim da vida, quando acontecia o que Wagner apropriadamente chamou de “peregrinação a Beethoven”.

Tão impressionante quanto o caráter “germânico” e a incomparável arte (e força) de Beethoven, contudo, foi sua capacidade – não apenas de artista, mas de profeta clarividente – de forjar o futuro e de condenar a música posterior (até hoje) aos moldes por ele lançados. O “futuro”, aqui, no mesmo sentido de Wagner, um dos maiores “teóricos” em cima do espólio de Beethoven, que construiu todo o seu projeto, de compositor, a partir da Nona – a qual, na mistura sem precedentes de canto e música instrumental, numa estrutura sinfônica, apontava o caminho que Beethoven supostamente indicava a seus sucessores. Do mesmo jeito, a música programática é “filha” de Beethoven. Do mesmo modo, o atonalismo. Stravisnki, Schoenberg. E Brahms, chamado de “retrô”, porque quis emular o Primeiro e o Segundo Beethoven(s), mas não o Último. O Primeiro Beethoven, obviamente, clássico (Haydn & Mozart); o Segundo, “beethoveniano”, pré-romântico...; o Terceiro, romântico, pré-...? (de Wagner a Schoenberg, e depois). Se estamos aprisionados no tempo da incompreensão da música contemporânea, pelo menos desde o século anterior, é, de certa maneira, por causa de Beethoven. Se, em termos eruditos, não conseguimos mais encontrar saída que não seja a dissonância, que não sejam as experiências terríveis de Boulez e, mais recentemente, de Stockhausen, é por “culpa” de Beethoven. Beethoven inventou o humano muito mais do Shakespeare, no dizer de Harold Bloom – pelo menos de lá pra cá, e no que diz respeito à “trilha sonora”. Aquele homenzinho “baixo e de aparência comum, com um rosto feio, avermelhado e cheio de marcas, (...) cabelo (...) muito escuro”, caindo desarrumado, “em torno do rosto” – segundo a descrição de uma contemporânea sua – trancafiou nossas esperanças musicais e levou consigo a chave, para a posteridade, para o túmulo. “(...) E se fica esperando sua volta”.

Por isso, apesar do germanismo ser hoje inadmissível (e estar fora de moda), graças à obra incomparável, ao exemplo de vida (e determinação) do futuro (ao menos, na música), continuamos louvando Beethoven. E continuaremos por muitos anos. Arrisco: até o fim dos tempos (embora essa expressão não tenha sentido, como provou Kant). Beethoven, quando não é fonte inesgotável de inspiração, em suas sinfonias, suas sonatas, seus quartetos, etc., é um porto seguro para quem quer desenvolver seus talentos, superando-se sempre. Beethoven, quando não é, digamos, um guia para o trato social e para, vá lá, a convivência em família, é um caso, no mínimo, interessante de sobrevivência a si mesmo, às próprias debilidades, psicológicas, orgânicas, humanas, enfim. E Beethoven, quando não é comparável a “gente como a gente”, graças a seu gênio, revela-se, ao mesmo tempo, extremamente palpável, pelas anotações, pelos cadernos, pelas cartas, pelos autógrafos – de um ser humano sempre cindido entre uma tarefa hercúlea, que se sabia capaz de realizar, e uma época comezinha, como todas, mas que lhe permitiu abrir asas e voar. Por isso, estamos salvos (ou temos onde nos resguardar). Por isso, leia-se Lewis Lockwood e quantos outros bons biógrafos de Beethoven se puder encontrar.

“Há alguns homens misteriosos que só podem ser grandes. E por quê? Nem eles mesmos sabem. Por acaso quem os enviou sabe disso? Têm na pupila uma visão terrível que nunca os abandona. Viram o oceano como Homero, o Cáucaso como Ésquilo, Roma como Juvenal, o inferno como Dante, o paraíso como Milton, o homem como Shakespeare. Ébrios de sonho e intuição em sua marcha quase inconsciente sobre as águas do abismo, atravessaram o raio estranho do ideal, e este os penetrou para sempre... Um pálido sudário de luz cobre-lhes o rosto. A alma lhes sai pelos poros. Que alma? Deus.”
Victor Hugo

Para ir além

   COLUNAS -Beethoven -Julio Daio Borges  

LER PENSAMENTOS



 

 Memória

 Pineal

 

Cientistas conseguem descobrir o que uma pessoa está pensando

Psicólogos e neurocientistas acreditam que em pouco tempo vai haver um leitor de mentes que funcionaria à distância, decodificando o que passa pela cabeça de qualquer pessoa, seja para o bem ou mal.
A estudante primeiro pensou em dançar. E dançou, nos braços do amigo. O cérebro dele deu a ordem abraçar. Foi um abraço bem demorado. Mas o que parece um simples encontro na universidade. É uma tempestade no cérebro dos estudantes.

Para que a tempestade do pensamento aconteça é preciso sangue em nosso cérebro. Esse fluxo de sangue, diferente a cada momento, é o que torna possível algo até então inimaginável: a leitura de pensamentos.

E você? Que pensamentos passam pela sua cabeça nesse momento? Desejos? Algum objeto? Sentimentos? É bom todo mundo ficar atento porque a ciência já tem hoje tecnologia suficiente para fotografar e até filmar o que acontece dentro do nosso cérebro e saber exatamente o que a gente está pensando.

Na Universidade Carnegie Mellon, no estado americano da Pennsylvania, o equipamento de ressonância magnética virou uma impressionante máquina de interpretação de pensamentos. O rapaz que vai passar uma hora e meia deitado ali dentro é voluntário de uma revolução científica.

Os pesquisadores dizem pra ele pensar, do jeito que quiser, nas palavras que aparecem no monitor: adorar, odiar, insultar. O computador divide o cérebro em 20 mil partes iguais, chamadas voxels. Por onde o sangue passa com mais intensidade, ou seja, nas áreas ativadas por aquele pensamento, os voxels ficam azuis. Nas áreas onde a atividade é ainda mais intensa, eles ficam amarelos. E depois vermelhos. A imagem gerada por cada pensamento é comparada com milhares de outras.

É pela semelhança entre a imagem produzida pelo novo pensamento e aquelas que estão catalogadas que o computador é capaz de dizer exatamente o que estamos pensando. Assim, eles constroem uma espécie de dicionário de pensamentos, como explica o pesquisador brasileiro Augusto Buchweitz.

"O computador não consegue fazer nada sozinho, a gente tem que dar os dados para ele, e ele vai procurar coisas que se repetem no cérebro das pessoas, que vai permitir identificar o conteúdo do pensamento de outras pessoas", diz Augusto Buchweitz.

Uma imagem registra dois pensamentos opostos: o que aparece em azul são as áreas ativadas por uma pessoa com muito amor no coração. As partes em vermelho mostram o comportamento da mesma pessoa quando ela tem ódio por dentro.

Um dos autores da pesquisa, o doutor Marcel Just, diz que essa tecnologia poderá ajudar no tratamento de problemas psiquiátricos e neurológicos, identificando o que está errado com o pensamento e orientando a terapia e a prescrição de medicamentos.

Parece ficção científica mas, ainda este ano, os pesquisadores esperam ler os pensamentos de uma pessoa no exato momento em que eles estão acontecendo.

Por enquanto, a leitura de mente é um experimento embrionário que depende de máquinas pesadas e só pode ser feito dentro de um laboratório. Só que os psicólogos e neurocientistas querem muito mais. Eles acreditam que em pouco tempo vai haver um leitor de mentes que funcionaria à distância, decodificando o que passa pela cabeça de qualquer pessoa, seja para o bem ou para o mal.

Imaginem, por exemplo, um terrorista em uma estação de trem em Nova York. Ele monta um equipamento portátil capaz de ler mentes. Quer descobrir o código de acesso ao computador central do serviço de inteligência dos Estados Unidos. A mulher é uma agente do serviço de inteligência. O outro agente chega e revela o segredo, um novo código que garante o acesso a informações ultraconfidenciais.

Mas a tecnologia é tão avançada que não deixa o menor rastro. O espião terrorista usa o laser para escanear o cérebro da agente enquanto ela está lendo os números. Ela não percebe. Tudo o que ela pensa é interpretado pelo computador. E , número por número, o código secreto vai sendo revelado.

É claro que os pesquisadores esperam que a leitura de mente seja usada apenas para fins pacíficos. Mas é um tema tão intrigante que envolve instituições de pesquisa de todo o planeta.

No Japão, eles estão inventando uma máquina capaz de ler até o que nós estamos sonhando.

As experiências realizadas no Instituto de Pesquisas em Telecomunicações Avançadas, em Quioto, seriam chamadas de mágica, milagre ou telepatia há alguns anos. Mas não é nada disso. É ciência, com um objetivo ambicioso.

O cientista Yukiaso Kamitami diz: "A minha meta é gravar os sonhos". Para chegar lá, os pesquisadores começaram a identificar imagens formadas no cérebro. Os primeiros testes foram bem-sucedidos.

Nos testes, os cientistas projetaram dentro do aparelho de ressonância magnética símbolos como um quadrado. Os voluntários que ficavam olhavam fixamente para a figura. O equipamento captou a atividade cerebral e um computador interpretou o que a pessoa estava pensando no momento. O resultado foi uma figura um pouco borrada, mas não resta dúvida de que a máquina conseguiu ler o pensamento.

Do lado esquerdo da imagem, aparecem os símbolos que o voluntário estava vendo. Do lado direito, as imagens que se formavam no cérebro. O resultado não é perfeito, mas chega perto.

Assim como na pesquisa americana, a principal ferramenta dessa tecnologia é um programa de computador capaz de reconstruir imagens que a gente vê a partir das oscilações do fluxo sanguíneo dentro do cérebro. Essas oscilações variam conforme o símbolo apresentado ao voluntário.

Os pesquisadores japoneses dizem que há teorias de que os sonhos são importantes, por exemplo, no processo de fixação do aprendizado. Se isso for verdade, o gravador de sonhos ajudaria o ser humano a aprender melhor.

O professor diz que o domínio dessa tecnologia ainda está longe de acontecer. Mas um dia o que se passa na nossa mente quando dormimos pode deixar de ser apenas um sonho que esquecemos no dia seguinte.

Fonte: TV  GLOBO - FANTÁSTICO - 28/03/2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

Eram os Deuses Astronautas

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Eram os Deuses Astronautas

http://www.portalsaofrancisco.com.br/videos-de-astronomia/eram_os_deuses_astronautas.php

Erich von Däniken

Antigos astronautas e Eram os Deuses Astronautas? 

O termo 'antigos astronautas' designa a idéia especulativa de que alienígenas seriam os responsáveis pelas civilizações mais antigas da Terra. O proponente mais notório dessa idéia é Erich von Däniken, autor de vários livros populares sobre o assunto. Chariots of Gods? [Eram os Deuses Astronautas?], por exemplo, é um ataque arrasador à memória e às habilidades dos povos antigos. Von Däniken afirma que os mitos, a arte, a organização social, etc. das culturas antigas teriam sido introduzidos por astronautas de outro mundo. Questiona não só a capacidade de memória, mas também a própria aptidão dos povos antigos para a cultura e a civilização. Os homens pré-históricos não teriam desenvolvido sua própria arte e tecnologia. Em lugar disso teriam sido treinados em artes e ciências por visitantes vindos do espaço.

Onde estão as provas das afirmações de Däniken? Algumas delas eram fraudulentas. Por exemplo, apresentou fotografias de peças de cerâmica que disse terem sido encontradas numa escavação arqueológica. A cerâmica ilustra discos voadores, e afirmou-se que teria sido datada de épocas Bíblicas. No entanto, investigadores de Nova (o bom programa científico da televisão pública) descobriram o oleiro que tinha feito os vasos supostamente antigos. Confrontaram von Däniken com os indícios da fraude. Sua resposta foi que essa falsificação se justificaria porque algumas pessoas só acreditariam se vissem provas ("O Caso dos Antigos Astronautas," transmitido pela primeira vez em 3 de agosto de 1978, feito em conjunto com Horizon da BBC e Peter Spry-Leverton)!

Porém, a maior parte das provas de von Däniken está na forma de argumentos enganadores e falaciosos. Seus dados consistem principalmente em sítios arqueológicos e mitos antigos. Ele começa assumindo como verdadeira a idéia dos antigos astronautas e então força todos os dados a se encaixarem nela. Por exemplo, em Nazca, no Peru, ele explica desenhos gigantescos de animais no deserto como um antigo aeroporto alienígena. O fato de que as linhas do desenho, por sua estreiteza, seriam inúteis como pista para qualquer avião é convenientemente ignorado por von Däniken. A probabilidade de que esses desenhos tivessem relação com ciência ou com a mitologia dos nativos não é considerada. Ele também recorre freqüentemente a um raciocínio de falso dilema do seguinte tipo: "Ou esses dados são explicados assumindo-se que aqueles primitivos idiotas fizeram isso sozinhos, ou precisamos aceitar a idéia mais plausível de que eles tiveram ajuda de povos extremamente avançados que devem ter vindo de outros planetas onde essas tecnologias, como a dos dispositivos anti-gravidade, tinham sido inventadas." A devoção dele a essa teoria não diminuiu, a despeito de provas em contrário, como fica evidenciado por mais outro livro sobre o assunto, Arrival of the Gods: Revealing the Alien Landing Sites at Nazca [A Chegada dos Deuses: Revelando os Locais de Pouso Alienígenas em Nazca] (1998).

Surgiram muitos críticos das idéias de von Däniken mas Ronald Story se destaca como o mais completo. A maioria dos críticos da teoria de von Däniken argumentam que os povos primitivos não eram selvagens impotentes, incompetentes e desmemoriados como ele descreve (devem ter sido pelo menos inteligentes o bastante para compreender a linguagem e os ensinamentos de seus instrutores celestiais -- nenhum café pequeno!) É verdade que ainda não sabemos como os antigos conseguiram realizar algumas de suas façanhas físicas e tecnológicas mais espantosas. Ainda nos perguntamos como os antigos egípcios levantavam obeliscos gigantes no deserto, e como homens e mulheres da idade da pedra moviam imensas pedras esculpidas e as colocavam no lugar em dolmens e covas de passagem. Ficamos impressionados com as cabeças esculpidas gigantes da Ilha de Páscoa e nos perguntamos por que foram feitas, quem as fez e por que abandonaram o lugar. Um dia talvez tenhamos as respostas às nossas perguntas, mas é mais provável que elas venham da investigação científica, não da especulação pseudocientífica. Por exemplo, a observação dos povos contemporâneos da idade da pedra em Papua, em Nova Guiné, onde ainda são encontradas grandes pedras sobre tumbas, nos ensinou como os antigos poderiam ter realizado a mesma coisa com pouco mais que cordas de material orgânico, alavancas e pás de madeira, um pouco de engenhosidade e uma boa dose de força humana.

Não temos nenhuma razão para crer que a memória de nossos antigos ancestrais fosse tão pior que a nossa, a ponto de que não pudessem se lembrar dessas visitas alienígenas bem o bastante para preservar um relato preciso delas. Há poucos indícios para dar respaldo à idéia de que mitos antigos e histórias religiosas sejam a recordação distorcida e imperfeita de antigos astronautas, registrada por antigos sacerdotes. Os indícios do contrário --de que povos pré-históricos ou 'primitivos' eram (e são) bastante inteligentes e ricos em recursos-- são contundentes.

Naturalmente, é possível que visitantes do espaço tenham mesmo pousado na Terra há alguns milhares de anos e se comunicado com nossos ancestrais. Mas parece mais provável que esses povos pré-históricos tenham sido eles mesmos responsáveis por sua própria arte, tecnologia e cultura. Por que maquinar uma explicação como essa de von Däniken? Pode ser que fazer isso acrescente mistério e romantismo à teoria de alguém, mas também a torna menos razoável, especialmente quando essa teoria parece incoerente com o que já sabemos sobre o mundo. A hipótese do antigo astronauta é desnecessária. A navalha de Occam deveria ser aplicada e a hipótese rejeitada.

Veja verbetes relacionados sobre abduções alienígenas, o rosto de Marte, as linhas de Nazca, Sirius, Zecharia Sitchin, OVNIs e Velikovsky.
Fontes
Vídeo:  
http://www.portalsaofrancisco.com.br/videos-de-astronomia/eram_os_deuses_astronautas.php
:Texto:
http://www.skepdic.com/brazil/antastro.html