sexta-feira, 5 de novembro de 2010

HISTORIA DO CANTO GREGORIANO

HISTÓRIA DO CANTO GREGORIANO
O canto gregoriano é a mais antiga manifestação musical do Ocidente e tem suas raízes nos cantos das antigas sinagogas, desde os tempos de Jesus Cristo. Os primeiros cristãos e discípulos de Cristo foram judeus convertidos que, perseverantes na oração, continuaram a cantar os salmos e cânticos do Antigo Testamento como estavam acostumados, embora com outro sentido. à medida que os não judeus gregos e romanos foram também se tornando cristãos, elementos da música e da cultura greco-franco-romana foram sendo acrescentados às canções judaicas.
O período de formação do canto gregoriano vai dos séculos I ao VI, atingindo o seu auge nos séculos VII e VIII, quando foram feitas as mais lindas composições e, finalmente, nos séculos IX, X e XI, princípio da Idade Média; começa, então, sua decadência. Seu nome é uma homenagem ao papa Gregório Magno (540-604) que fez uma coletânea de peças, publicando-as em dois livros: o Antifonário, conjunto de melodias referentes às Horas Canônicas, e o Gradual Romano, contendo os cantos da Santa Missa. Ele também iniciou a "Schola Cantorum" que deu grande desenvolvimento ao canto gregoriano.

A partir da iniciativa de dom Mocquereau, no final do século XIX, o Mosteiro de São Pedro de Solesmes, na França, passou a ser o grande centro de estudos e prática do canto gregoriano. Seus monges, na época, deram início a um trabalho de paleografia (estudo dos manuscritos antigos) de canto gregoriano e de recuperação dos sinais escritos nos séculos VIII e IX.

Depois, surge a semiologia gregoriana, que é a interpretação dos sinais, com uma volta à fonte, estabelecendo uma interpretação mais autêntica do canto gregoriano; entre outros sobressai nesse trabalho dom Eugène Cardine, OSB.

No começo do século XX, o papa Pio X pede aos monges beneditinos para fazerem uma edição moderna à luz dos manuscritos, surgindo então a Edição Vaticana e em 1985 foi lançada uma outra edição chamada "Graduale Triplex" (Gradual Tríplice) com as três notações do canto gregoriano: a Vaticana, a de Laon (França) e a de Saint Gaal (Suíça).

Após a realização do Concílio Vaticano II (1965), o latim deixou de ser a língua oficial na liturgia da Igreja, e as celebrações litúrgicas passaram a ser realizadas na língua vernácula de cada país e a prática do canto gregoriano ficou restrita aos mosteiros e a grupos de admiradores e aficionados da beleza desta "palavra-cantada". 

As principais características do canto gregoriano, também conhecido como canto chão, são: as melodias são cantadas em uníssono (monódico), sem predominância de vozes, ou seja, rigorosamente homofônico; de ritmo livre, sem compasso, baseado apenas na acentuação e no fraseado; cantado "a capella", isto é, sem acompanhamento de instrumentos musicais e suas letras são em latim, tiradas, em sua grande maioria, dos textos bíblicos, sobretudo os salmos.

Em 1994 houve um "renascimento" do canto gregoriano quando foi lançado pela EMI, em CD, um disco que havia sido gravado há mais de 20 anos pelos monges do Mosteiro de Santo Domingo de Silos, norte da Espanha – o disco alcançou o primeiro lugar em vendas em vários países, atingindo a marca de 5 milhões de cópias vendidas.

O conjunto alemão Enigma que gravou o disco MCMXC A.D. com músicas de rock (Sadness e outras) em estilo gregoriano e fez bastante sucesso em todo o mundo, além de outros grupos que lançaram os CDs: The Ultimate Compilation – Real Sadness & Other Gregorian Mysteries; Gregorian Dance e o Chantmania, gravado pelo The Benzedrine Monks of Santo Domonica.
Recentemente surgiram outros dois ótimos grupos que também lançaram músicas de rock em estilo gregoriano: The sound of silence, Tears in heaven, In the air tonight, Eden (Sarah Brightman), When a man loves a woman e outras. Vale a pena conhecê-los e visitar a página deles: Masters of Chant e Lesiëm
Você pode ouvir o canto gregoriano, inclusive o CD Rorate do Coral Gregoriano de Belo Horizonte, e músicas sacras na Radio Set
 
Partitura do Constitues, do Graduale Triplex
Partitura do Constitues, do Graduale Triplex

Veja nos slideshows abaixo as capas da minha coleção de CDs de canto gregoriano. Clicando em View all images você verá as imagens numa outra página e depois clique em Full para ver as capas em tela cheia.
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Ouça e veja mais de 100 músicas/vídeos de canto gregoriano. Ao clicar na música aparece em cima, à esquerda e abaixo da nota musical, duas setas para baixo, clique numa delas para ver os vídeos.



http://gregoriano.org.br/gregoriano/historiacantogregoriano.htm

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SAUDADES - HAICAI-L

SAUDADES

HAICAI-L   
Finados -2010


Dia de Finados -
Tantas e tantas saudades
Neste amanhecer...

[Pestana]

*
no Dia dos Mortos
garoa molha a manhã -
saudade nos olhos

[kathleen lessa]

*
Jardim da saudade-
Na pequena capela
aquele retrato!

[Suzana Lyra]

*
dia de finados:
hoje é dia de mostrar
a saudade.

[David Rodrigues]

*
Quintal do meu avô.
Só a lembrança dos trinados...
Dia de Finados.

[rafael noris]

*
Dia de Finados -
Saudades brotam ao redor
da lápide vazia...

[Iraí Verdan]

*
Dia de finados -
somente o sorriso dele
na foto da parede.

[Benedita]

*
Dia de Finados -
Lembranças do velho pai
Marejam os olhos

(Silvio Gargano Junior)

*
Dia de Finados
Olho a tampa com foto
Onde está meu pai

(Rodrigo Vieira Ribeiro)

*
dia de finados
estão todos presentes
nesta oração

[roberta silva]*

*

dia de finados -
e junto às de meu irmão
ossadas de indigentes

(jiddu)

*
dia de finados -
gargalhadas de meu pai
explodem da cripta

(jiddu)

*
dia de finados:
hoje é dia de mostrar
a saudade.

David Rodrigues

*
 Jardim da saudade-
Na pequena capela
 aquele retrato!

 (Suzana)

*
"Saudades das gaivotas
nas ilhas perdidas em desertas rotas
saudades marinheiras..."

Sem condições de lembrar o autor,
vai como Anônimo Desconhecido.
Abraços,

Guin  Ga

Descrição

 
A primeira lista de discussão sobre haicai em português. 
Seu objetivo é compartilhar haicais (e congêneres), noticias,
críticas e artigos sobre o assunto. 

Fundada em 28/03/1996 por
Paulo Franchetti e Edson Kenji Iura, 
foi inicialmente alojada num servidor da Unicamp.
Em 13/01/2000, foi transferida para o Yahoo!Grupos.
Seu administrador é Edson Kenji Iura.

haikai-l · Poesia: haicai, haikai, haiku

Informações sobre o grupo

  • Associados: 197
  • Categoria: Poesia
  • Criado em: Set 26, 1999
  • Idioma: Português

O CRISTIANISMO NASCENTE E FILOSOFIA ANTIGA

HISTÓRIA DA FILOSOFIA NA IDADE MÉDIA
Johannes HIRSCHBERGER


Capítulo Primeiro – A FILOSOFIA PATRÍSTICA
 

1 — O CRISTIANISMO NASCENTE 
E A FILOSOFIA ANTIGA

Quando o Cristianismo entrou em cena pretendeu ser ao mesmo tempo verdade teórica e informação prática da vida. "Eu sou o caminho, a verdade e a vida", declara o seu fundador. A verdade é considerada como algo de absoluto e eterno, porque é verdade não somente humana mas também divina revelada. "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão". É também a informação da vida, o "caminho e a vida" é algo de absolutamente certo, conduz seguramente à "salvação".
Com uma tal segurança não estava habituada a filosofia antiga. Não se apresentava ela como a encarnação do Logos e da eterna sabedoria mesmo, mas queria ser apenas amor da sabedoria. A verdade porém ela já queria oferecê-la e também pretendia a direção dos homens; isso o foi ela desde o começo e particularmente na época helenística, quando o antigo mito se desvaneceu e a filosofia tinha que cuidar das almas, para substituí-lo. 
Desta atitude, parte idêntica e parte diversa, deste encontrarem-se na busca do mesmo fim e diferirem na escolha dos meios e do caminho para o fim, resulta a posição do Cristianismo nascente relativamente à filosofia antiga: ele a rejeita para de novo aceitá-la.

a) Paulo


Já com PAULO é assim. Começa rejeitando a "sabedoria deste mundo" para de novo aceitá-la, chegando mesmo a apelar pára o seu testemunho em apoio do seu próprio sentir. 1 Cor. 1, 19 escreve: "Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes. 
Onde está o sábio? onde o doutor da lei’ e onde o esquadrinhador deste século? Porventura não tem Deus convencido de estultícia a sabedoria deste mundo?… Porque tanto os judeus pedem milagres, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos o Cristo crucificado, que é um escândalo de fato para os judeus e uma estultícia para os gentios, Mas para os que têm sido chamados, assim judeus como gregos, pregamos a Cristo, virtude de Deus e sabedoria de Deus". E em Bom. 1, 19: "Porque o que se pode conhecer de Deus lhes é manifesto a eles (aos pagãos) porque Deus lho manifestou. Porque as cousas dele invisíveis se vêem depois, da criação do mundo, consideradas pelas obras que foram feitas."
Com isto de novo se concedem à razão natural os seus direitos. E no seu discurso no Areópago chega Paulo a citar filósofos gregos para provar sua tese cristã (At. 17, 28).

b) Os Padres

a) Posição negativa.
— Esta atitude de novo se manifesta nos primeiros escritores cristãos. JUSTINO o Mártir sente-se insatisfeito com as velhas escolas dos filósofos: os estóicos nada sabem de Deus, os peripatéticos são ávidos por dinheiro, os Pitagóricos são excessivamente teóricos, os platônicos demasiado ousados nas suas afirmações. Só para os cristãos a verdade se realizou, que sabem morrer por ela. Minúcio Félix vê em Sócrates um charlatão e Tertuliano, em Platão, o pai de todas as heresias. Que têm que ver Atenas com Jerusalém, a Academia com a Igreja, os descrentes com os crentes, pergunta ele. 
TERTULIANO sobretudo alargou ao extremo o abismo entre a religião cristã e a filosofia antiga, de modo que para ele fé e ciência se opõem diametralmente. N de carne Christi escreve o seguinte: "O Filho de Deus crucificado: Nós não nos envergonhamos, porque é vergonhoso; o Filho de Deus morreu: é absolutamente crível por ser isso inepto (prorsus credible quia ineptum est); e, sepulto, ressurgia: é certo, porque é impossível". Estas palavras, que TertuliaNo aliás pronunciou quando já não pertencia à Igreja, mas à seita montanista, formam o fundo ideal da conhecida expressão credo quia absurdum est", que, demais, sob esta forma, não é um dito histórico, embora na realidade corresponda ao sentir de TERTULIANO.

β) Posição positiva, — Por outro lado Justino não se chama somente Mártir mas também filósofo (philosophus et martir). É que freqüentou então os filósofos. E isto por querer defender o Cristianismo. Como apologeta tinha ele que falar de um terreno comum, que permanecia acessível e cordial aos homens pagãos, e este era a filosofia.

αα) Os apologetas. — O mesmo se deu também com os outros apologetas: MinUcio Félix, Aristides, Atenágoras, Lactâncio e mesmo Tertuliano. Para remate, chegaram até a assumir o exterior da antiga filosofia, o manto dos filósofos, a pregação errante, a diatribe estóico-cínica e suas formas, a cria e a apotegmática, como também se tirou de bom grado proveito da antiga crítica do politeísmo, já feita pelos estóicos e epicuristas.

ββ) Escola catequeta de Alexandria. — Um segundo passo para a filosofia foi dado pela escola dos catequetas de Alexandria. Esta metrópole do helenismo cosmopolita já rompera, pelo seu (genius loci, todas as barreiras apertadas e estimulou todas as formas de síntese. Mas especialmente aí também atuava a tradição filoniana com a sua tentativa de conciliar a religiosidade do Antigo Testamento com a filosofia grega. 
Neste espírito se movem os grandes representantes da escola catequética alexandrina, Panteno, Clemente Alexandrino e Orígenes. é do último a seguinte comparação muitas vezes repetida nesta matéria: como os filhos de Israel, _no seu êxodo do Egito, levaram consigo os utensílios de ouro e de prata, do país, assim também devia a Fé tomar posse da sabedoria do mundo e da filosofia. E Clemente se serve da fórmula ainda mais clara para uma possível relação entre a fé e a ciência: a filosofia é um presente da Providência pela qual, os gregos deviam ser preparados para Cristo, de modo semelhante como deviam sê-lo os. judeus pelo Antigo Testamento.

γγ) Os capadócios. — Um terceiro momento, que fazia inclinar-se a balança para uma postura positiva do Cristianismo em relação à filosofia, é, o expresso pela atitude dos três grandes capadócios: Gregório Nazianzeno, Basílio o Grande e Gregório Nisseno, que praticamente manejam o grande instrumento da filosofia grega na sua exposição da doutrina cristã; e Basílio escreveu mesmo um tratado próprio: "Aos jovens, para saberem tirar proveito da filosofia pagã".

δδ) S. Agostinho. — A fórmula definitiva no-la dá S. Agostinho. O que os filósofos disseram de verdadeiro e conforme à fé — assim pensa ele — não só não o devemos repudiar, mas reclamá-lo para o nosso uso próprio como de possuidores injustos, e isto em duplo sentido. Primeiro, porque é bom educar formalmente o espírito para chegarmos a pensar e falar claro e bem. É o ideal do distincte et ornate dicere, que tem em mente, de que Cícero é um exemplo e de quem Agostinho tanto. aprendeu. 
Demais disso, a filosofia deve servir para fecundar os princípios especulativos da fé,. i. é, ajudar a compreender-lhe o sentido, a conexão, a estrutura, a sistemática, os fundamentos e as conseqüências, de modo lógico-racional tanto quanto possível. E então a fé vem a ser verdadeiramente uma fé científica. E agora surge a expressão que, a partir deste momento, serviu de leitmotiv a toda a filosofia medieval: Intellige ut credas, crede ut intelligas. Isto é, lê no íntimo do ser para creres e crê para poderes atingir o íntimo, do ser!

c) Conseqüências e problemas
A evolução das relações entre a religião e a filosofia, decidida finalmente pela posição de Agostinho em favor de. uma síntese positiva, foi de importância capital até hoje para a história do ocidente. Agora podia a fé tornar-se teologia, o ensino das doutrinas sagradas, literatura; o Cristianismo, cultura. Seus representantes já não precisavam, viver num (gueto, mas podiam calcar o solo do fórum, os auditórios das universidades, as sedes das.reuniões dos parlamentos e dos ministérios. 
O Cristianismo tinha já dito sim ao mundo e já não queria convertê-lo, pois o condenava. Mas a tensão interna com isso não desaparecia. A problemática perdurava. Se o pensamento natural e a revelação sobrenatural são realmente algo de "diferente"’, poderá haver entre eles algo de comum? A oposição latente irrompe sempre de novo com particular estridência, entre os antidialéticos e Pedro Damião, em muitos círculos de místicos, bem como entre os seus antípodas, os representantes de uma cultura e política autônomas; e, por último, na teologia dialética, onde a fé de novo surge a modo de paradoxo, como outrora com Tertuliano.
No fundo, toda esta problemática é da espécie da que já encontramos na doutrina de Deus transcendente e que contudo, na qualidade de criador, pode ser conhecido por meio da criação. Ou na doutrina da imaterialidade da alma humana e que todavia é a forma do corpo. Ou na do homem, submetido à causalidade universal, devendo porém permanecer livre na sua vontade. E então aqui se rasga de novo um dualismo e de novo pontes são lançadas. E nesta metódica do espírito, que deve fazer .sem omitir aquilo, está a profunda problemática das cousas. . .

d) Fontes dos Padres
Mas esse sim foi decisivo para a filosofia antiga. Nem todas as dissecações de pensamento podiam se considerar igualmente como fontes para nelas a gente se abeberar.

α) Cépticos e epicuristas. — Quase despidas de valor eram as idéias dos cépticos ,e epicuristas. Só ocasionalmente se lhes podiam aproveitar os argumentos contra o politeísmo e a religião popular pagã.

β) Aristóteles. — Mas também o aristotelismo ficava de fato sem grande importância para a patrística, embora as irradiações dele não fossem tão fracas como antes se pensava. Em face da concepção bíblica de Deus e da moral religiosa da patrística, o conceito aristotélico de Deus era demasiado pálido, e a ética de Aristóteles nimiamente secular. Contudo, podemos rastrear influências dos escritos da mocidade de Aristóteles em Clemente Alexandrino, Basílio, Agostinho, sinésio. 
E conceitos como os de essência, substância, natureza desempenham desde cedo um papel nas controvérsias trinitárias e cristológicas. Mas já no fim da Patrística, João Filopuno e João Damasceno se inspiram ex-professo no patrimônio de pensamentos aristotélicos. O primeiro escreveu comentários e muitos tratados de Aristóteles, que foram traduzidos para o siríaco. E agora os nestorianos sírios e os monofisistas defendiam com conceitos aristotélicos — e não com vantagem para Aristóteles, no pensar dos Padres — a sua tese da coexistência, em Cristo, de duas pessoas e duas naturezas, e pois havendo para uma pessoa só uma natureza.

γ) O Estoicismo.
— De grande importância, pelo contrário, foi para o pensamento do Cristianismo nascente o estoicismo, diretamente par meio de Sêneca e de EpitECto; indiretamente, pelos ecléticos romanos, como Cícero e VarrÃo. Ambrósio copia o tratado da Cícero De officiis, Clemente Alexandrino reproduz passos inteiros de Musônio Rufo, Agostinho houve nos estóicos conceitos muito fundamentais do seu pensamento, como a doutrina da lei eterna, das rationes seminales e da Cidade de Deus. O contacto com o estoicismo foi tão estreito, a ponto de fazer nascer a legenda da correspondência entre Paulo e Sêneca.

δ) Platão. — Como fontes de primeira ordem surgem os platônicos. "Ninguém esta tão perto de nós como estes", diz Agostinho, a -sua ética pura, sua abdicação do mundo, sua predileção pelo supra-sensível, o mundo das Idéias e a metafísica, a sua escatologia, a sua inquietude na busca de Deus deixam bem transparecer o sentimento da afinidade eletiva. Sobretudo a doutrina do além foi do agrado dos Padres. Mas conceberam o εχει do genuíno platonismo no sentido acentuadamente realista da Bíblia. "Esperamos um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça" (2 Petr. 3, 13).
Não é fácil precisar até que ponto influíram nos Padres diretamente as obras de Platão ou os seus pensamentos, hauridos quer em florilégios quer no patrimônio corrente das idéias do tempo, onde havia muito tempo tinham penetrado; de modo que é possível haver uma influência, mesmo quando não se pode pressentir uma determinada obra imediatamente ou citá-la. O método histórico-literárío usual de ir assinalando as citações não basta para se rastrearem as irradiações do platonismo no pensamento e na terminologia metafísica e religiosa do helenismo.
Pois Platão criou a linguagem hierática para todos os tempos subseqüentes e já por ai exerceu indiretamente enorme influência" (Reitzenstein). Contudo, Justino, AtenágoRas, Clemente Alexandrino, Orígenes, Eusébio Cesariense citam determinadamente lugares das várias obras de Platão como a República, o Fédon, o Fedro, o Górgias, a Apologia, o Críton, o Filebo, o Timeu, o Menexemo, o Crátilo, o Teeteto. o Sofista, as Leis, o Epinomis e as Epistolas. Metódio não somente cita, mas imita de muitos modos o Banqueta, e Gregório Nisseno, igualmente, o Fédon. Jerônimo censura os latinos por apenas terem conhecido algo de Platão. Contudo, se não o podiam ler em grego, era-lhes acessível a tradução de Cícero ou de Calcídio. 
Agostinho cita o Fédon, que leu porventura na tradução de Apuleio. Este bem podia ter-lhe fornecido, pelos seus escritos De deo Socratis e De dogmate Platonis o essencial da doutrina de Platão.

ε) Filo. — O que particularmente acomodou o platonismo à patrística foi a obra de Filo Alexandrino. Inspirado na religião bíblica, lançou várias pontes para os estóicos neopitagóricos, sobretudo para o platonismo. "Os gregos dizem a respeito dele que, ou Platão é um Filo ou Filo um Platão, tão grande é a semelhança, entre eles, dos conceitos e das expressões" (Jerônimo). É sobretudo a especulação sobre o Logos a agitada por Filo. Assim, procede de Filo uma grande parte do platonismo de Clemente Alexandrino e de Orígenes. O Último sobretudo foi um ponto de confluência da antiga sabedoria das mais variadas origens, mas principalmente do platonismo. 
Porfírio dele refere: "Platão era o seu companheiro inseparável, as obras de Numênio e de Crônios, de Apólofanes, Longino e Moderato, de Nicômaco e dos homens célebres da escola neopitagórica, ele as manuseava continuamente. Também usou os livros do estóico Quêremon e de Cornuto. "Este platonismo de colorido filonico, estóico e neopitagórico, por sua vez Orígenes o transmitiu a Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório Nisseno, Eusébio Cesariense e outros; e, entre os latinos, a Mário Vitorino, Hilário Pictaniense, Eusébio Vercelense, Rufino e sobretudo Ambrósio, de quem Jerônimo refere que estava cheio de reminiscências de Orígenes.

ξ) Médio platonismo. — Um acesso mais largo ao pensamento cristão abrem à filosofia antiga os homens do chamado médio platonismo: Plutarco de Queronéia, Gaio, Apuleio, Albino, Máximo de Tiro, Numênio.

η) Neoplatonismo. — Dos seus e de outros princípios, desenvolveu-se o neoplatonismo, cujos aderentes proporcionam por sua vez valiosos auxílios à filosofia patrística. Lendo-se as Eneadas de Plotino fica-se admirado da consonância de terminologia, e de todo o conteúdo de idéias, sobretudo da afinidade com as concepções éticas, religiosas e místicas da vida e da íntima conexão com o espírito do Cristianismo. As Eneadas influem sobre Gregório Nazianzeno, Gregório Nisseno, Eusébio, Cirilo Alexandrino, em particular sobre Agostinho, que o leu na tradução de Mário Vitorino. 
Ainda por muitos outros canais o neoplatonismo deflui para o Cristianismo: … por PorFírIo, Jámblico, Teodoreto de Ciro, Nemésio de Emesa, Cláudio Mamerto, SiNésio Cirinense, Simplício, Macrônio, – . Marciano Capela, Calcídio, Boécio e, mais que todos, por Dionísio Pseudo-areopagita, por cuja boca fala Proclo ao Cristianismo. Por fim, João Filopono e João Damasceno, que também agora valorizam Aristóteles.

θ) Neopitagorismo. — As influências neoplatônicas freqüentemente se entrelaçam com correntes neopitagõricas, como é o caso de Apolónio de Tiana, Numênio, Longino, Moderato, Nicômaco, de modo a ser muitas vezes difícil fixar com exatidão as idéias no seu lugar histórico.


e) Sincretismo ?

Vivemos justamente na época do sincretismo, e "em nenhuma parte foi maior a interpenetração do que na história espiritual dos dois primeiros séculos da nossa era" (Bréhier). Exemplo disto oferece a palavra retrocitada de Jerônimo sobre Orígenes, segundo a qual nele tudo converge, que se tratou aqui de distinguir. Todavia o pensamento cristão vai rasgando com. segurança o seu caminho. Pode-se aplicar à inteira dependência histórico-ideal da patrística, em relação a filosofia grega, as palavras de Tomás de Aquino sobre as relações entre Agostinho e as doutrinas neoplatônicas: "Agostinho está cheio de doutrinas platônicas; o que ele acha se, apropria a si, se vê que concorda com a fé; mas se não concorda, adapta, melhorando" (S. Th. I, 84, 5).
Fonte: Ed. Herder
Trad. Alexandre Correia
A FILOSOFIA PATRÍSTICA 
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EROS , A FORÇA DO AMOR NA PANDÉIA DE PLATÃO





Gilda Naécia Maciel de Barros

FEUSP


Na Grécia antiga, o século VI a. C. chegava ao fim e Clístenes estabelecia em Atenas a democracia, uma forma de governo destinada a tornar-se célebre no mundo inteiro, até os nossos dias.

Ameaçada de fora, a liberdade grega passou a ser garantida por Atenas, império marítimo vigoroso, sustentado pelo tesouro de Delos, amealhado em troca da proteção militar contra os persas às cidades confederadas sob sua liderança.

Detendo na política externa a hegemonia marítima e militar, dessa supremacia Atenas soube tirar todas as vantagens, alcançando, no século 5, sob a direção de Péricles, seu grande líder, a mais alta glória.

Enquanto Esparta, na idade arcaica (VII a.C.) a capital da cultura grega, agora se retesava e encolhia, presa do imobilismo e de um militarismo global, Atenas se consolidava como sociedade ágil e aberta, receptiva às mudanças, às novidades, ao estrangeiro. Por ela pareciam cruzar todas as rotas, ao seu porto, o Pireu, chegavam produtos de muitos lugares.

Aos poucos, ela se foi tornando também o celeiro cultural de toda a Grécia.

Essa, a Atenas que Sócrates irá conhecer, desde que nasceu, em 470 a.C., e onde irá viver, até morrer, em 399 a.C. Escola da Grécia, orgulhosa de sua língua livre (parrhesia), um grande viveiro de homens sábios, naturalistas, poetas, retóricos, sofistas, filósofos, artistas de toda espécie.

Em 427 a.C. nasce Platão e Sócrates estava tempo ao meio; quando seus caminhos se cruzam, na juventude daquele, a Grécia vivia os difíceis dias da Guerra do Peloponeso, que opôs as duas maiores potências daquele tempo: Esparta e seus aliados, de um lado, e Atenas e seus aliados, de outro. Quando seus caminhos se separam, em 399 a.C., Platão, um jovem de 28 anos aproximadamente, pelo nascimento e educação destinado a tomar parte no futuro da cidade, estava já desiludido com a política. Daí por diante, por mais de 50 anos Platão caminharia só, sob a inapagável impressão da figura do mestre.

Inconformado com a ordem democrática, que julgava, na verdade, uma grande desordem, impressionado com os desmandos da tirania dos Trinta (404 a.C,), o jovem Platão, profundamente arrasado com a morte do mestre, tomou a decisão de afastar-se da vida pública, sem, com isso, ter se desinteressado dos temas políticos, e, muito menos, de intervir em política. De fato, Platão não apenas iria desenvolver amplas reflexões sobre os grandes problemas do Estado, como também, convencido de que o poder deve estar sempre aliado ao saber, procurar converter à filosofia o tirano de Siracusa, Dioniso.

Em sua trajetória espiritual, a figura de Sócrates o marcará para sempre. Mas se ela foi o grande impacto em sua formação, não foi o único.

Platão importa-se com os destinos políticos de Atenas. Como Aristóteles, considera que a cidade-estado é, preferencialmente, o lugar em que o homem deverá desenvolver e aperfeiçoar a sua natureza e realizar seus últimos fins. Mas supõe que à ordem da vida na polis deve corresponder uma ordem interior, na alma. E não julga o regime democrático de seu tempo apto a favorecer isso. Nem por si próprio, nem pelo papel que nele exerceram e exerciam certos intelectuais que se dizem sábios, produtores de saber, sofistas. Assim, considerando que a decadência moral e política de Atenas muito devia a certo tipo de gente, mercadores de saber, hábeis no uso da palavra (logos), levantar-se-á também contra esses disputares, amantes de chicanas, maus guias da cidade, e corruptores da juventude. E fará de Sócrates, seu mestre, o principal interlocutor de seus diálogos e um inimigo incansável dos sofistas.

Se, ao que parece, a freqüência a Sócrates, levara Platão a ocupar-se atentamente dos temas da ética, não menos instigantes lhe eram as grandes questões levantadas pelos pensadores que, na esteira de Tales, Anaximandro, Anaxímenes, investigavam a physis do universo e queriam saber de que é feito tudo, afinal.

Platão tinha também diante de si toda tradição poética e literária da épica e da lírica, que, de Homero e Hesíodo, passando por Arquíloco, Tirteu, Álcman, Sólon, Theógnis, Semônides, Mimnermo, Safo, Alceu, Simônides, Píndaro formava, ao lado dos autores de comédia e tragédia do nível de Aristófanes, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, um verdadeiro currículo para a educação dos jovens de seu tempo. Ora, parte dessa tradição dava explicações confiantes sobre a origem dos deuses e do mundo, estabelecia pareneticamente normas de convivência, ideais de vida; dela provinham os valores básicos para todo homem grego culto e, sob certos aspectos e em alguns pontos, também para o homem comum.

De fato, dos sábios legisladores e dos poetas, os gregos receberam lições das coisas e do mundo. Sob o peso de toda essa herança e enfrentando os desafios intelectuais de seu tempo, Platão vai tomar suas posições e iniciar uma busca. Toda filosofia de Platão é essa busca, a busca do sistema [1] , incansavelmente criticado e revisto. Dessa busca, por vezes torturante, resultou uma visão do mundo, do lugar do homem no mundo e de seu destino.

Então é preciso ressaltar a importância que têm no pensamento de Platão os avanços e recuos, as formulações sistematicamente refeitas, por vezes restabelecidas ou ampliadas, ou parcialmente modificadas de temas de que tratou. Não raro Platão recolhe a tradição cosmogônica e mitológica e a submete ao seu crivo crítico, para repensá-la conforme os fundamentos de sua filosofia. No caso de Eros não é diferente.

Na tradição mitológica grega, a figura de Eros, deus do Amor, passa por uma evolução que vai da idade arcaica até a época alexandrina e romana. [2] De acordo com as velhas teogonias, Eros nasceu ao mesmo tempo da Terra e diretamente do Caos primitivo. Também nasce do ovo primordial, engendrado pela Noite, que, em duas metades, faz a Terra e o Céu. É uma força vital que garante a continuidade das espécies e a coesão íntima do Cosmos.

Sendo um deus, Eros recebe genealogias diferentes. Ora ele é filho de Ilitia, ou de Iris, ou de Hermes e Artemis ctônica. A tradição preponderante o faz filho de Hermes e de Afrodite.

Mas os mitólogos, que distinguem várias Afrodites, também distinguem vários amores: Eros, filho de Hermes e de Afrodite Urânia, Eros Antéros [Amor Contrário ou Recíproco], filho de Ares e Afrodite, filha de Zeus com Dione, Eros, filho de Hermes e de Ártemis, filha de Zeus e de Perséfone.

Sob a influência dos poetas, Eros muda de fisionomia. É representado como uma criança alada ou sem asas, que se diverte perturbando corações, que queima com suas tochas ou fere com suas setas. Os poetas alexandrinos gostam de mostrá-lo brincando com crianças divinas. Nas cenas infantis, ora é punido, ora posto de castigo pela mãe, ora ferido por espinhos de rosas que colheu etc. As pinturas de Pompéia tornaram esse tipo muito popular. Mas o que é constante é o fato de, sob a aparência de inocente, ser um deus de grande poder, capaz de ferir cruelmente.

Mas, quanto a Platão, que postura assumiu em relação à tradição que recebeu?

Na República, faz Eros interferir no funcionamento da parte apetitiva da alma. Sua atuação é destacada como negativa, pois vem associada à tirania dos sentidos.

No Banquete, de que é o tema central, Eros é objeto de vários elogios, mas o elogio propriamente filosófico vem de Sócrates pela boca da mulher de Mantinéia., a sábia Diotima.

No Fedro há dois discursos sobre o amor, tratado aí como uma forma de delírio. No primeiro discurso, o Amor é um mal, um jogo ímpio, no segundo, um jogo sagrado, uma possessão divina pela qual nos elevamos acima de nós mesmos (265 e et seqs) Nesse diálogo Platão faz a crítica à retórica de seu tempo, que considera mera rotina, e que deseja substituir pela retórica filosófica, isto é, pela dialética (265 b-c). Se a retórica é uma forma de conduzir a alma de quem ouve o discurso, uma psicagogia, o retórico verdadeiro deve ter como objeto a alma, a qual deverá persuadir. Então, deve saber o que ela é e como se compõe. Ora, a alma humana busca a soberana beleza, que contemplara antes da encarnação. Seu bem é atingir esse ideal, é pelo Amor que ela encontra seu caminho. A educação do homem livre é retórica na medida que o ensina a proferir um discurso belo, não porque agrada aos sentidos, mas belo porque verdadeiro e justo.

O paralelismo com o Banquete, como se verá, está nessa idéia de que o amor é um agente educativo, e que a aspiração à verdade e ao ser é impulsionada pelo amor e por ele ativada (cf. Banquete 209 a-e; cf. Fedro 277 b-c)

Se o Bem, o Belo e o Justo são o nosso destino (277e, 278a), o Amor nos inspira um élan eternamente voltado para eles. E o filósofo vive amoroso delírio nessa caça ao Bem, ao Belo e ao Justo. Não é outro o sentido das palavras de Diotima, no Banquete (210 a-d; 211 c)

Vejamos o que se passa com Eros na República. Nesta, a alma humana é dividida em três partes (436 a et sqs): a racional, a irascível e a irracional ou apetitiva. Cada uma deve exercer a atividade que lhe é própria. À parte racional, que é superior, cabe comandar e sua qualidade específica é a sabedoria. À parte irascível compete auxiliar a parte racional, de tal forma que suas ordens sejam sempre obedecidas; a qualidade que a distingue é a coragem. À parte apetitiva cabe obedecer aos comandos da parte racional e a qualidade que lhe cabe é a temperança. Se cada parte exerce sua função, a alma está em harmonia, é justa e saudável. Quando ocorre de alguma parte desviar-se de sua tarefa, a alma adoece: a desordem impera e, com ela, a injustiça.

No livro VIII da República Platão apresenta as etapas de decadência da alma e da cidade. Ora, para compreender como ocorre a desordem na alma, é preciso lembrar que os homens não são iguais: uns têm ouro na alma - estes são os que podem comandar a cidade, pois neles predomina a parte racional; outros têm prata na alma - estes serão os auxiliares dos chefes, pois estão aptos a desenvolver a coragem no mais alto ponto e a defender a cidade, de seus inimigos internos e externos; em sua alma predomina a parte irascível, mas são extremamente úteis e saudáveis quando se aliam ao elemento superior, na cidade, o filósofo, na alma, a razão. Outros, ainda, têm bronze e ferro na alma e a eles cabe obedecer às ordens dos chefes, na cidade, e submetem os apetites à razão.

Não sendo iguais, o efeito da educacão sobre eles não pode ser o mesmo, como também a própria educação deve compor-se com programas em parte diferentes.

O homem é um ser de desejos. Destes, alguns, por natureza, são necessários e úteis; a maioria, não. No caso dos desejos ligados à parte apetitiva, que são os da nutrição e procriação, a saúde da alma exige que se satisfaçam apenas os que garantem a manutenção e continuação da vida. Ora, nem sempre isso acontece. Aliás, quase nunca. O ser humano se entrega à bebida, às comidas extravagantes, cheias de molhos e temperos desnecessários, ao sexo pelo sexo e, não, pela procriação e passam dos limites. Não cuidam do corpo praticando regularmente a ginástica, pelo que se tornam fracos. Nem cuidam da alma, cultivando a música. Faltam-lhes as melhores sentinelas, guardiões da razão, vazios que são de ciência, de hábitos nobres e de princípios verdadeiros (Rep. 560b). A boa educação propiciará um equilíbrio entre os desejos, o império certo dos prazeres certos.

Tratando da superioridade do filósofo, Platão lembra que, à cada uma das três partes da alma corresponde uma espécie de prazer (Rep. 580d et seqs). Aquela pela qual o homem aprende, o da ciência, aquela pela qual ele se irrita, o da honra; aquela pela qual ele deseja comida, bebida, amor e congêneres, o lucro. Dessa correlação derivam três tipos humanos: o filósofo, o ambicioso e o interesseiro. Apenas o homem no qual o comando da alma estiver entregue à parte racional conhecerá de forma adequada todos os prazeres, pois somente a ele é dado conhecer o prazer da ciência, que procede da contemplação do ser. (Rep. 5810d-582d)

A má educação é responsável pela degenerescência da alma (Rep. 558d et sqs), pois os jovens deveriam ter aprendido que prazeres cultivar e honrar, buscando apenas os que procedem de desejos nobres e bons (Rep. 561b-c).

Mas é na descrição do homem tirano que Platão nos dá a conhecer amplamente o desvio da alma e é aí que ele introduz o império nefasto de Eros (Rep. IX571 a et sqs). Vejamos como nasce um tirano. Ou melhor, como se chega a ter a alma de tirano.

Com a hipertrofia da parte concupiscente, pela qual florescem desejos desejos terríveis, selvagens e sem leis, que temos o hábito de reprimir. Eles fazem parte do cortejo de Eros e, soltos, levam a alma à loucura (573a-b; 574d-575a).

O estado de extrema desordem a que chega a alma do tirano pode ser aclarado com a ilustração das três formas da alma, que se encontra no livro IX da República (588 b et sqs). Nesse passo, Sócrates retoma a discussão principal de todo o diálogo e, com ela, a tese, que combate, segundo a qual é útil a injustiça a quem for completamente injusto, desde que passe por justo. Chega-se aqui ao ponto alto de toda a investigação pois a valorização da justiça e do homem justo se desvencilha de uma ética de resultados abrindo caminho para a autonomia e o dever.

Platão imagina uma figura monstruosa e de muitas cabeças para representar a parte irracional da alma; sugere o leão para a parte irascível e a figura de um homem para a parte racional, predominando, na alma do tirano, sobre todas as outras, a concupiscência, figura monstruosa e de muitas faces.

O desvio da alma explica-se, então, pelos desmandos dessas formas selvagens e pela atrofia da parte racional, que representa o homem propriamente dito. O que nos é familiar na alma é o que nos aproxima de nós mesmos, o homem. Ou melhor, o que nos afasta da animalidade e ressalta nossa humanidade, que aos olhos de Platão tem parentesco com os deuses (599c-d).

A vitória do homem superior, na cidade, corresponde à vitória, no homem, da parte superior da alma. Aqueles em quem é fraca a parte racional e, portanto, correm o risco de serem desgovernados pelas outras partes, ensina Platão, devem obedecer ao filósofo e à lei da cidade (590e-591a).

Mas quem pode dizer-se capaz de vencer os seus demônios? Como conhecer o verdadeiro prazer, a que desejos satisfazer, que desejos evitar? Como fugir desses monstros polimórficos e funestos, como fazer do leão um aliado e garantir dentro de nós o império da razão?

Cabe, aqui, uma referência à alegoria da caverna, que bem ilustra, na República, a condição existencial do homem relativamente ao nível de educação em que se encontra.

Somos prisioneiros vivendo em uma caverna, com as costas voltadas para a abertura por onde entra a luz.O que vemos no fundo da caverna são sombras, que correspondem aos objetos que estão por detrás. Ora, por trás de nós há um caminho para a saída da caverna, ascendente. Nesse caminho há um muro por trás do qual uma fogueira ilumina os seres e objetos que se apresentam acima do muro e deles projeta imagens no fundo da caverna. Nós não sabemos disso e pensamos que as sombras são os objetos; terrível engano, os verdadeiros objetos estão acima, atrás de nós e não podemos vê-los.

Se acontecer de algum de nós se libertar e voltar-se para o caminho ascendente em direção à abertura, vai sofrer o impacto da luz, mas aos poucos se acostumará com a sua nova condição e quererá chegar até a saída. Transposta a entrada da caverna, ficará admirado com o que verá lá fora. Iluminado pela luz do sol, que brilha, todo o mundo se lhe revelará e ele perceberá a triste condição de seus companheiros, amarrados, lá dentro, e vivendo uma ilusão. Se voltar, sofrerá o impacto da adaptação à condição anterior, sempre mais comprometida com as sombras e a ausência de luz.

Aplicando essa alegoria para compreender o mundo e nossa forma de conhecê-lo, Platão separará os objetos em dois planos, um, referente às coisas visíveis, que alcançamos pelos órgãos sensórios e sobre o qual chegamos a estabelecer uma crença, fundada sempre em opiniões, que podem ser verdadeiras ou falsas. O outro plano corresponde às coisas inteligíveis, que alcançamos pela razão e pela inteligência. No último grau desse plano podemos chegar ao conhecimento verdadeiro e à realidade na sua forma primeira e imutável.

Ora, cada um desses planos pode ser dividido em dois outros, sendo que, ao primeiro plano do visível se segue um segundo; ao primeiro do inteligível se segue outro. De todos, o plano mais afastado da verdade e do ser é o primeiro das coisas visíveis; o mais próximo, é o último das coisas inteligíveis. Neste, uma forma superior, a do Bem, a tudo ilumina, garantido às essências, às Formas, ser e conhecimento.

Poucos são os que têm uma boa natureza, apta ao exercício de ascensão do visível ao inteligível; poucos são os que conseguem fugir da caverna e ver a luz do sol.

Voltando ao nosso tema e considerando a questão de como o homem pode conhecer o prazer verdadeiro e satisfazer corretamente aos desejos, temos que o prazer verdadeiro, ligado ao espírito, é tanto mais legítimo quanto mais aproxima o homem do Ser; o prazer ligado à carne, que satisfaz aos desejos eróticos e tirânicos, é o que se mostra mais distanciado dele (585e-586b).

Então o problema pedagógico maior de Platão é garantir na alma a monarquia do prazer verdadeiro e, na cidade, a conduta certa, conforme à tábua de valores oferecida pela reta razão. Para tanto, é necessário colocar o homem no rumo certo, em direção ao Bem, ao Belo e ao Verdadeiro. E nutrir nele o Amor do Bem.

Nesse ponto, consideremos o elogio do Amor feito por Diotima e referido por Sócrates no Banquete. Veremos que, aí, relativamente ao significado e o papel de Eros muda de figura.

O que é o amor? O amor, ensina Diotima, nem é belo, nem feio, nem pobre nem rico, nem sábio, nem ignorante, nem mortal, nem imortal, nem homem, nem deus. O amor é um daimon, um gênio que serve de mediador entre os homens e os deuses. Sempre acompanha Afrodite porque foi concebido na festa divina em honra a essa deusa. É filho de Poros (Recurso) e Penia (Pobreza), pelo lado paterno é astuto, sofista, filósofo e caçador; pelo lado da mãe de tudo carece. Longe de ser um deus poderoso é uma "força perpetuamente insatisfeita e inquieta" (Grimal).

Apesar de não ser um deus, o Amor pode ser para nós de grande auxílio.

De fato, o homem é um ser no exílio. Exílio de si próprio, de seu verdadeiro eu, de suas origens. Essa, a lição do Fédon, do Fedro, da República.

Diz o mito no Fedro que de alguma forma estivemos perto do Ser, das Formas, das Realidades, eternas, imutáveis, primordiais. Éramos almas aladas, embora não perfeitas como a alma dos deuses imortais, entre os quais vivíamos. Nosso alimento era a contemplação das essências puras, eternas e imutáveis, do Belo, do Bem, da Verdade. Periodicamente saíamos em evoluções ascendentes rumo à abóbada celeste, almejando alcançar a planície da Verdade e, embora com dificuldade, mirávamos as Formas, mal ou bem. Mas, o homem perdeu-se em razão de sua própria natureza, que se assemelha a um carro, com cocheiro e dois cavalos. Um cavalo branco e bom, outro preto e mau, que podem movimentar-se em direções opostas. A indisciplina do cavalo preto arrastou a alma para a vida terrena; ela perdeu as asas e se esqueceu do Ser que contemplara. Nesse nosso mundo, mergulhada no corpo, ainda aprecia a beleza, mas em suas múltiplas aparências, não se lembrando de que vira a beleza em si, na sua única forma.

Devidamente orientada, ela pode lembrar-se do que antes vira, e aproximar-se de seu estado primordial, desde que não reduza a atração pelo Belo à sua manifestação sensível, mutável e precária. Nessa trajetória, a atração de um homem pela beleza de outro pode e pode transformar-se no caminho amoroso de redenção pelo cultivo do espírito.

Então, a alma que estiver no caminho certo, poderá ganhar novamente as suas asas e alçar vôo para o alto, rumo àquela condição de plenitude original.

Diz Platão nas Leis que o homem é uma planta celeste: participa do mundo sensível pelo corpo e do mundo inteligível pela alma. Mas a sua verdadeira natureza só se satisfaz quando ele se esforça por superar essa condição e realizar plenamente sua essência. Ora, isso supõe, para usar a linguagem da alegoria da caverna, um processo de ascensão das sombras para a luz, o trânsito das imagens do fundo da caverna para a contemplação dos objetos reais no mundo fora da caverna.

Na verdade, Platão pensou o homem como um ser de transcendências e toda nossa vida como uma rota de superações, um exercício de transposição de obstáculos. O difícil caminho que leva cada um do plano das sombras para o plano das realidades parece guardar alguma semelhança com a rota das iniciações, com todos aqueles degraus que levam o profano em direção ao objeto de seu culto e ao deslumbramento.

Nessa transposição de uma condição de servo para a condição de espírito livre, o homem superior é o paradigma, é ele quem transpõe a saída da caverna e vê a luz. E os demais? Vão ficando pelo caminho, cada qual avançando até o limite de sua natureza e de seu esforço.

Platão está firmemente convencido de que todo homem quer o Bem, ainda que por vezes se engane na compreensão do que é o Bem. Nesse movimento para o Bem - porque é isso mesmo o que nos motiva, o Bem - o Amor atua como uma força propulsora, fecunda, que sempre nos estimula a caminhar em direção a nós próprios, à nossa verdadeira natureza, sedenta do belo, do bem e da verdade.

 É o Amor que nos impede de esquecer, porque nos arrastando para a beleza, vivifica nossa alma, alimenta-a do que é adequado à sua natureza divina. Por ele, passamos do culto a um belo corpo ao culto dos corpos belos, daí ao culto aos belos discursos e leis, ao culto das ciências e, finalmente, ao encontro com a Beleza em si.

O Amor platônico, como vemos, está distante de Eros tirano, que nos escraviza às paixões dos sentidos e nos mergulha no abismo da desordem. Não é repressor, não tem que ver com a sublimação de instintos. É o mais precioso auxiliar daquele que quer atingir a perfeição, pois o movimenta em direção a ela. É úmido, nutriz e poderoso; faz-nos procurar o que nos falta e nos diminui. É nele e por ele que geramos o conhecimento e, por este, nos aproximamos de nós mesmos. O Amor platônico é filósofo porque nos faz ver que a verdade de nossa natureza é procurar. Procurar o saber. 

O Eros platônico é libertador.

Essa a lição do Banquete. Nesse diálogo, é muito significativo o que ocorre no último ato. Numa reviravolta teatral, Platão muda o rumo do discurso, que se iniciara e se desenvolvera com o elogio do amor, concluindo-o com o elogio de Sócrates. Como? Por que?

Num dado momento, o bem nascido Alcibíades, aquele jovem ambicioso, de grande talento e rara beleza, aparece em cena de forma repentina. Viera coroar o vitorioso poeta Agatão, mas acabará por falar de Sócrates, um homem feio como os sátiros e silenos, que escondendo dentro de si imagens divinas, falava como os deuses.

A entrada de Alcibíades encaminha o movimento dramático do diálogo em direção a um desfecho surpreendente. Introduz-se, então, com ela, uma aproximação entre a representação filosófica do Amor e a sua encarnação, na figura de Sócrates. E onde está esta afinidade? Pois não é o Amor filho de Poros e Penia? E o próprio Sócrates, que dizia nada saber, não era farto de recursos para tudo procurar, capaz de fazer nascer no espírito de seu interlocutor aquele sentimento de carência, companheiro do espanto, sem o qual não sentimos necessidade de saber e, muitomenos, aprendemos a ver?

No desfecho do Banquete as imagens poderosas de Eros e Sophia encontram-se e se sobrepõem num paradigma, a figura viva e única de Sócrates.

(notas da conferência 
proferida na I Semana de Estudos Clássicos &
Educação da Fac. de Educação 
da Univ. de São Paulo, 25-4-02)
 
Fonte:
FEUSP
http://www.hottopos.com/videtur18/gilda.htm

PLATÃO E A MEDICINA - FIOCRUZ

Platão e a medicina*

Plato and medicine

Rodrigo Siqueira-BatistaI;
Fermin Roland SchrammII


RESUMO
A medicina e a filosofia são saberes que experimentaram influência mútua na Grécia Antiga, a qual foi decisiva para a constituição e o desenvolvimento de ambas. Um dos pontos altos desta interrelação tomou forma no pensamento do filósofo Platão (427-347 a.C.), considerado o maior pensador da tradição ocidental. Discutir o alcance da reflexão platônica sobre os mais diferentes aspectos da medicina de seu tempo é o escopo do presente artigo.
Palavras-chave: medicina, filosofia, Platão.

ABSTRACT
Medicine and philosophy are branches of knowledge that had decisive influence on each other in the time of Ancient Greece, shaping the development of both. A landmark of this interrelationship was the thought of the philosopher Plato (427-347 A.C.), considered the greatest thinker in Western tradition. The text discusses how Platonic reflection reached into the most varied aspects of medicine in the philosopher's days.
Keywords: medicine, philosophy, Plato.


Introdução
As relações entre filosofia e medicina na Grécia Antiga são muito íntimas e fecundas, remontando aos séculos VI ao IV antes de Cristo (Cornford, 1989, pp. 3-16), quando ambos os saberes se influenciaram mutuamente, em uma autêntica via dupla. Nesse contexto, podem ser encontrados vários elementos do pensamento pré-socrático (séculos VI e V a.C.) no repertório das doutrinas médicas hipocráticas, como por exemplo o conceito de natureza 1 dos pensadores originários, cujas implicações foram abrangentes e radicais nas concepções de uma 'natureza do homem' — (Siqueira-Batista, 2003b, pp. 145-6). Por outro lado, a medicina também imprimiu sua marca profunda no pensamento filosófico, ganhando este fato grande amplitude na obra de Platão, cujas reflexões tocaram muitos aspectos do fazer médico grego no período clássico.

Do erudito ateniense provém o testemunho antigo mais famoso sobre o Hipócrates histórico — no diálogo Fedro (Platão, 1950, passo 270c-d) —, em excerto que contém uma explanação sobre o método empregado pelos médicos da Escola de Cós (Frias, 2001, p. 87-110). Ademais, em várias obras platônicas há referências à constituição humana — uma questão que interessava simultaneamente a médicos e filósofos —, como em A República e no Timeu, diálogos nos quais são apresentadas idéias sobre o corpo e a alma do homem, enfatizando seus estados de saúde, doença e a própria morte e seu processo (idem, 2002, p. 84). 

São também dignas de menção as preocupações terapêuticas em relação ao corpo e à alma, como as "belas conversas" citadas no Cármides (Platão, 1988, passo 157a), a educação mencionada como curativa e reparadora no Timeu (Frias, 2002, p. 127) e a crítica aos métodos de tratamento empregados por Heródico de Mégara no Livro III de A República (Siqueira-Batista et al., 2004).
Nesse aspecto, um breve sobrevôo sobre as 'preocupações médicas' da filosofia platônica poderia contribuir para as reflexões sobre os problemas inerentes às relações entre medicina e filosofia. Este caminho é precisamente o escopo do presente artigo.

Platão: vida, obra e questões filosóficas
Platão é, indubitavelmente, um dos filósofos mais importantes da história do Ocidente. Nascido na pólis de Atenas em 427 a.C., Platão era filho de Aristo e Perictona, sendo descendente do grande reformador Sólon por parte de mãe e do rei Codro, fundador da cidade, pelo lado paterno (Chauí, 2002, p. 212). O filósofo foi um escritor prolífico e de grande elegância; sua obra se distribui em diálogos — um 'estilo' de expressão filosófica — nos quais se articula seu pensamento conhecido em textos de grande beleza.2 Sem embargo, em uma de suas obras, a Carta sétima, Platão comenta que seu verdadeiro pensamento — ensinado dentro dos muros da Academia — não se encontrava presente em seus escritos, os quais trariam informações de 'menor' relevância em relação à totalidade de sua obra (idem, ibidem, p. 219).

Desde o fim do século XVIII admite-se que todo o maravilhoso conjunto da obra platônica possui uma intrínseca perspectiva evolutiva de sua filosofia, sobretudo após os trabalhos de Schleiermacher (Jaeger, op. cit., pp. 582-4). A partir de então uma série de estudos foi desenvolvida neste âmbito, como é o caso da estilometria de L. Campbell, na qual características de estilo foram identificadas ao se compararem as Leis com outros diálogos da obra platônica. Foram então reunidos os textos do 'fim da vida' de Platão, constituindo os chamados diálogos da velhice. Assim, pois, que uma das formas para se organizar a obra do ateniense — inspirada na estilometria — distingue os diálogos da juventude — ainda sobre influência de Sócrates — daqueles da maturidade e da velhice, conforme apresentado a seguir (em ordem alfabética dentro de cada categoria):

Juventude: Apologia de Sócrates — defesa de Sócrates (em relação ao seu julgamento no tribunal de Atenas); Críton — elogio à moral socrática; Cármides — sobre a prudência; Crátilo — sobre a lin-guagem; Eutidemo — contra a erística; Eutifron — sobre a piedade; Górgias — sobre a retórica como falácia; Hípias menor — sobre a falsidade; Hípias maior — sobre a beleza; Ion — sobre a Ilíada ou os poetas; Laques — sobre a coragem; Lisis — sobre a amizade; Menexeno — sátira contra a retórica; Mênon — sobre a virtude e o saber (este diálogo é considerado o primeiro a abordar a doutrina da anamnesis, ou seja, da reminiscência); Protágoras — sobre o ensino da virtude.

Maturidade: Banquete — sobre o amor; Fédon — sobre a imortalidade da alma; Fedro — sobre a linguagem e a retórica; A República — sobre a justiça (neste diálogo Platão constrói sua idéia de pólis perfeita); Parmênides — sobre o ser; Teeteto — sobre o conhecimento.

Velhice: Crítias — considerada uma obra inacabada, delineia um estado agrário como ideal (figurado como Atlântida); Filebo — sobre o prazer; Leis — sobre o ideal político; Político — sobre a monarquia; Sofista — contra os sofistas; Timeu — sobre a natureza (física e cosmologia platônicas).

São também consideradas como pertencentes ao corpus platônico três cartas: a Terceira, a Sétima (a mais conhecida) e a Oitava. Diálogos como Alcibíades I e II, Anterestai, Clítofon, Hiparco, O filósofo, Mino e Teages, bem como outras dez cartas que permanecem como obras de autenticidade duvidosa.

A filosofia platônica, em seu cerne, emerge de um esforço do ateniense para compor duas grandes influências por ele experimentadas: a socrática (sobretudo na primeira fase de sua obra; veja-se diálogos como Apologia, Críton, Eutífron, Laques, Cármides, Lísis, Protágoras e Górgias) e a pitagórica, presente desde os 'primórdios' da maturidade (textos como A República, Mênon, O Banquete, Fédon e Fedro. Pode-se dizer que o conceito de alma apresenta um papel central no pensamento de Platão: ela é a causa geral da vida (Platão, 1956, Notice, p. 39) e o centro da moralidade (Cornford, 2001, p. 54), além de nela estar centrada toda a possibilidade de conhecimento (Platão, 1977, passo 30c), tal como o apresentado em vários diálogos (Cornford, 1989, pp. 71-99). Ademais, são as questões relativas à alma humana — e a sua relação com o corpo — que se tornam capitais nos aspectos da filosofia platônica referentes à medicina. Assim ocorre, pois, no Timeu, texto no qual são apresentados aspectos da constituição da alma e do corpo humanos, ou seja, em que é investigada a natureza do homem em sua íntima ligação com a totalidade cósmica. Assim, para H. Bittar (1977, p10):
...o Timeu nos fala da ordem do mundo, mostrando-nos que os princípios dessa ordem regem também o homem. Toda a organização da pólis descrita na República, que vai ser agora colocada em ação, constituindo tal projeto o objeto geral da trilogia, foi fundada na natureza do homem. Mas esta, por sua vez, funda-se na própria natureza do Universo, pelo que se impõe começar pela origem do Universo, investigando-se as causas de sua harmonia e passando, daí, para a origem do homem e a harmonia que deve reger sua alma.
O diálogo se inicia com uma referência ao mito de Atlântida e, em seguida, passa à explanação sobre a origem do cosmo — o qual teria sido fabricado por um demiurgo, por meio da contemplação de Idéias Eternas —, sendo perscrutadas suas leis e sua organicidade.3 À semelhança do homem, o cosmo é vivo — concepção presente também no Filebo (Platão, 1941, passo 29a-30a) — e racional (Platão, 1977, passo 30c), sendo constituído por um corpo e uma alma. Todavia, uma importante distinção a ser feita refere-se à inexorabilidade da ligação do cosmo à sua alma — ambos se mantêm unidos de forma perene —, em contraposição ao humano, no qual a coalizão corpo-alma é efêmera, ocorrendo sua dissolução quando sobrevém a morte.

A alma humana foi construída com as 'sobras' utilizadas na preparação da alma do mundo, sendo composta por duas porções: uma imortal e outra mortal. A primeira é a sede da vida, sendo aquilo que anima e mantém o corpo — assim como a alma do mundo é a mantenedora do cosmo —, localizando-se na cabeça (Frias, 2002, p. 103). A alma mortal é repleta de paixões terríveis e fatais (Platão, 1956, passo 69c-d), sendo subdivida em "irascível" — situada no tórax, relacionada à coragem mas também à cólera — e 'concupiscente' — alocada na região umbilical, sendo relativa aos apetites, desejos, prazeres e dor. A alma humana é assim tripartida: racional (imortal), irascível e apetitiva (as duas últimas mortais).

À alma imortal pertence à possibilidade de conhecer, de acordo com o que é discutido no Mênon. Aquilo que é o real — as Formas ou Idéias — é o verdadeiro objeto do conhecimento, apreensível pela alma imortal, conforme explicitado em A República.4 As Formas eternas — ingênitas, indestrutíveis, intangíveis e paradigmáticas — compõem o mundo genuinamente real e transcendente que, se contemplado por uma alma capaz, pode proporcionar um conhecimento verdadeiro e duradouro. É com essa articulação que Platão funda uma genuína cognoscibilidade. A alma imortal conhece o real pela contemplação das Formas eternas, antes mesmo do nascimento (ou encarnação) para esta vida, ou seja, ele é a priori, como está apontado no Fédon (Platão, 1979a, passo 100a-b).

Ora, se o conhecimento é obtido pela contemplação das Formas eternas, existe a possibilidade de que ele brote na intimidade do homem, desde que este se lembre do que viu, ou seja, desde que rememore o passado. A rememoração é uma instância modelar da narrativa mítica, tendo participação decisiva na cultura helênica (Siqueira-Batista, 2003a; Vernant, 1973, pp. 305-7). No caso dos aedos gregos, a recordação está relacionada à participação das Musas . Sem embargo, no pensamento de Platão, a perspectiva é deslocada de uma instância extrínseca — a revelação das musas — para a intimidade daquele que conhece, ou seja, consiste em um atributo da alma imortal. Uma passagem exemplar acerca desta questão é encontrada no Mênon, conforme o excerto a seguir:
Sendo então a alma imortal e tendo nascido muitas vezes, e tendo visto tanto as coisas [que estão] aqui quanto as [que estão] no Hades, enfim, todas as coisas, não há o que não tenha aprendido; de modo que não é nada de admirar, tanto com respeito à virtude quanto ao demais, ser possível a ela rememorar aquelas coisas justamente que já antes conhecia (Platão, 2001, passo 81c).
Neste diálogo, Sócrates procura convencer Mênon de que realmente o conhecimento já se encontra na alma imortal. Para isso, utiliza um dos escravos de seu interlocutor, submetendo-o a um interrogatório sobre um problema geométrico.5 O escravo, após chegar a algumas conclusões equivocadas, é novamente argüido, até que finalmente alcança a solução do problema. Com isso é demonstrado que, a despeito de não ter sido submetido a um aprendizado formal, um homem — no caso um escravo — pode ser capaz de resolver problemas complexos, desde que seja 'orientado' por um repertório correto de indagações. Essas perguntas permitem que a resposta correta seja 'parida', em concordância à analogia estabelecida no Teeteto entre o método socrático e a atividade de uma 'parteira' — 'daí maiêutica'. De onde viria tal conhecimento? Da própria alma,6 seria a resposta platônica, sendo evocado a partir da
No Ménon a teoria da Anamnesis foi apresentada para fugir ao dilema sofístico: ou conhecemos uma coisa, e então não há necessidade de a procurar; ou não a conhecemos, e então não podemos saber o que procuramos. O dilema pressupunha uma única alternativa, ou o conhecimento completo ou a ignorância total. A Anamnesis fornece graus de conhecimento entre estes dois extremos (Cornford, 1989, p. 82).
Além da possibilidade de conhecimento, a contemplação das Idéias por parte da alma platônica encerra um genuíno conteúdo moral. Sócrates pontuava que se os homens fossem libertados dos preconceitos e das falsas convicções poderiam vislumbrar a verdadeira finalidade da vida. Assim, pois, aquele que atingisse o Bem não poderia deixar de fazê-lo. Exatamente esta apreensão dependia da contemplação das Idéias eternas pela alma imortal, propiciando um incontornável esteio moral, como analisa F. M. Cornford (idem, ibidem, p. 74):
... tratava-se antes de uma Teoria das Idéias para regular a conduta moral. ... Constituem, sim, um mundo comum a todos nós, mas que é independente de todos nós. São [as Idéias], afinal, os objetos absolutos do conhecimento socrático de que toda a virtude depende (grifo nosso).
A alma é, pois, a instância imortal e mais importante do ser humano, representando a sede do verdadeiro conhecimento e da conduta moral — isso atrelado à contemplação das Idéias perfeitas (Cherniss, 1990, pp. 109-10; Frias, 2001, p. 108).
Para Platão, uma alma saudável é aquela que se compraz na justiça (Platão, 1987, passo 444d), tal como discutido em A República. Sem embargo, há circunstâncias nas quais a alma pode se tornar enferma — por influência de distúrbios do corpo, afinal a alma imortal é o que o homem tem de divino; assim sendo, não seria factível que na própria alma imortal tivessem origem suas moléstias —, como se apresenta a seguir.

A medicina: relações e digressões corpo-alma
A filosofia platônica demarca uma nítida preeminência da alma sobre o corpo. Entretanto, este não foi negligenciado pelo ateniense — por exemplo, a ginástica era uma das atividades importantes da Academia —, merecendo destaque em alguns dos diálogos, marcadamente no Timeu. Corpo e alma — assim como tudo que existe no cosmo — são constituídos por quatro elementos: fogo, água, ar e terra. Estes, em última instância, podem ser decompostos em figuras geométricas: o fogo em tetraedros, a terra em cubos hexagonais, o ar em octaedros e a água em icosaedros. Estas formas podem ser ainda reduzidas a triângulos retângulos isósceles e retângulos escalenos. Pelo rearranjo dos triângulos seriam compreendidas as transformações dos corpos, com grandes implicações sobre sua durabilidade e desagregação.

No entanto, as relações entre corpo e alma não se limitam à identidade constitutiva — triângulos. Platão explica no Timeu o funcionamento de diferentes órgãos — como o coração, o fígado, o baço e os intestinos —, os quais têm suas fisiologias atreladas à função da alma — ou seja, cada segmento anatômico refere-se à finalidade da alma que lhe corresponde —, talhando aquilo que I. M. Frias (2002, p; 107) chama de "organicismo psicológico".7 

Ademais, o filósofo esclarece que a ligação da alma com o corpo é feita pela medula , como o estabelecido por L. Brisson (1988, p. 429): "Na medula cervical está fixada a espécie imortal da alma humana e na medula espinhal a espécie mortal e, por conseqüência, suas duas subespécies."
Com base nestes aspectos anatomo-fisiológicos, Platão constrói sua fisiopatologia, distinguindo as doenças do corpo e da alma. As enfermidades somáticas podem ocorrer por 

(1) desequilíbrio dos seus elementos constitutivos — fogo, terra, ar e água; 

(2) por corrupção dos tecidos do corpo — a carne, os nervos, o sangue, os ossos e a medula; e 

(3) pelo ar e por humores — bile e flegma. É digno de nota que a teoria humoral empregada por Platão no Timeu tem inspiração na doutrina hipocrática (Siqueira-Batista, 2003a). 

Há contudo importante diferença entre uma e outra concepções. No tratado Da natureza do homem são descritos quatro humores constitutivos de todos os indivíduos — sangue, flegma, bile amarela e bile negra —, que, mantidos em equilíbrio, preservam o estado de saúde. Para o filósofo tais humores surgem a partir da decomposição dos tecidos, o que os torna nocivos, implicando portanto a necessidade de que sejam eliminados para a perpetuação da sanidade.

As doenças da alma podem ser apreendidas como genuínas doenças morais (Frias, 2001, pp. 35-7), sendo genericamente chamadas de 'demência', situações nas quais há um bloqueio na ação da alma racional, a qual não consegue mais exercer domínio sobre a alma mortal. A demência pode ser de dois tipos: ignorância e loucura, as quais têm diferentes causas, conforme o apresentado no Timeu:
Por conseguinte, toda afecção que provoca em alguém uma dessas perturbações deve ser chamada doença, sendo forçoso reconhecer que os prazeres excessivos e as dores fortes são as mais graves doenças da alma. ... Contudo, quando a semente se acumula em excesso na medula, a ponto de transbordar, à maneira de uma árvore carregada de frutos, então seus desejos e suas conseqüências lhes ensejam, em cada ocasião, não apenas prazeres como também sofrimentos em grande cópia, e muito embora se comporte como um louco quase toda a vida, por causa das dores e dos prazeres excessivos, vindo a adoecer e embotar-se-lhe a alma por causa do corpo, ninguém o considera doente, mas vicioso por própria deliberação (Platão, 1977, passo 73b; grifo nosso).
Aqui sobressaem alguns elementos da maior importância. Os excessos são deletérios à saúde da alma, promovendo a loucura — como na intemperança sexual, secundária ao aumento da produção de sêmen na medula (Platão, 1956, passo 86b-e) —, doença passível de tratamento, mas não de censura para aquele que sofre. Esta idéia está de acordo com o conceito, defendido por Sócrates em vários diálogos platônicos, de que ninguém é mau deliberadamente, por força de sua própria vontade. Assim, pois, no Sofista, Platão (1979b, passo 230a) afirma que: "... toda ignorância é involuntária, e aquele que se acredita sábio se recusará sempre a aprender qualquer coisa de que se imagine experto."

De modo similar, se lê nas Leis: "... ninguém é intemperante por deliberação própria, pois é sempre por ignorância ou por não saber dominar-se ou por ambas as causas ao mesmo tempo, que a grande maioria dos homens não pratica a temperança" (Platão, 1980, passo 734b).
Isso abre a perspectiva para que uma conduta moral tenha como substrato um distúrbio fisiológico (Joubaud, 1991, p. 183). Uma outra origem para a loucura reside na produção de humores deletérios — bile e flegma — secundários à decomposição do corpo, os quais mesclam seus vapores aos movimentos da alma, produzindo tristeza, audácia, covardia e esquecimento, entre outros (Platão, 1977, passo 86e-87a).

A ignorância tem sua origem em dois aspectos — má constituição corporal e educação ruim —, os quais poderiam ser vistos na medicina contemporânea como caráter genotípico (constitutivo) e participação ambiental. Assim, homens somaticamente defeituosos e expostos a uma educação imprópria são propensos à ignorância; se, no entanto, o processo educativo é adequado, é possível que tais homens superem sua má constituição, tornando-se justos (Frias, 2002, p. 127). Nesse sentido, o homem é também um produto da sociedade na qual vive, de tal modo que uma enfermidade social se torna capaz de promover o adoecimento individual (Brisson, op. cit., p. 454).

Há de se mencionar, em relação à ignorância, a possibilidade de que esta ocorra por uma "queda da alma no corpo" (Platão, 1977, passo 43b). Esta situação decorre de problemas ocasionados na alma à época do nascimento, uma vez que, ao 'cair no corpo', a alma passa por um processo anárquico, que paulatinamente é substituído pela harmonia de suas revoluções. Distúrbios desses primevos momentos geram alterações nos círculos da alma — bem como nas revoluções do Mesmo e do Outro —, os quais se manifestam clinicamente por troca de nomes de alguns objetos e abalos corpóreos.

Jacques Pigeaud (1981, p. 47) traz como elementos importantes para a compreensão da 'doença da alma' platônica, os seguintes aspectos: (1) as enfermidades da alma têm origem somática; (2) a ignorância é também de origem orgânica; (3) a causa física da loucura já era conhecida dos médicos hipocráticos antes mesmo de Platão; (4) medicina e moral devem ser pressupostos uníssonos para o tratamento do homem, em uma medicina da relação corpo-alma. Veja-se o alcance da terapêutica no pensamento platônico.

A terapêutica e seus limites
Platão se preocupou com o tratamento das mais diferentes moléstias do homem. Neste aspecto, o Timeu traz informações sobre vários métodos de tratamento empregados na Grécia do século IV a.C., explicitando para quais doenças eles devem ser indicados. Sob uma perspectiva mais ampla, a terapêutica platônica funda-se no princípio de proporção, a exata medida nas relações entre corpo e alma. O importante é a perpetuação de uma harmonia entre as partes que compõem este binômio. Uma vez mais, o que está em jogo para o restabelecimento da saúde é a harmonia do todo — ou seja, entre as porções do corpo e da alma. 

Deste modo, no Cármides e nas Leis, o ateniense critica a postura dos médicos hipocráticos ao priorizar o corpo em detrimento da alma (Coolidge Jr., 1993, pp. 23-6). Ou seja, é questionada a conduta de se tratar apenas a 'parte' — o corpo. Platão, ao contrário, ressalta a importância de se buscar a compreensão do todo:
... como talvez já tenhas ouvido, os bons médicos, quando alguém os consulta e se queixa da vista, respondem, naturalmente, que não é possível cuidar dos olhos isoladamente, mas que é necessário tratar simultaneamente da cabeça, se se quiser passar bem os olhos. De igual modo, julgar, enfim, que a cabeça se cura em si mesma, separadamente de todo o corpo, é uma grande insensatez. Partindo deste princípio, debruçando-se sobre todo o corpo, as suas prescrições procuram, através do todo, tratar e curar a parte (Platão, 1988, passo 156b-c).
As prescrições arroladas para o tratamento das enfermidades são as mais diversas: ginástica, prática da música, dietas, estudo da astronomia e filosofia, sobre a qual há também importante referência no Cármides: a utilização de "belas conversas" (Platão, 1988, passo 157a) é capaz de engendrar na alma a temperança, a prudência e a sabedoria (Frias, 2002, p. 103). As palavras são (phármakon), no duplo sentido que o termo encerra: 'veneno' e 'remédio'. Nas mãos do sofista são um tóxico mortal; mas quando usadas pelo filósofo, podem constituir um profícuo bálsamo terapêutico — como o estabelecido no passo 270b do Fedro.

É exatamente nesse sentido que Platão qualifica a filosofia como uma genuína medicina da alma, havendo múltiplas referências à terapia anímica nos diálogos platônicos. De acordo com o filósofo, em A República (Platão, 1987, passo 444d), uma alma saudável é aquela que se compraz na justiça, possuindo equilíbrio. A enfermidade da alma é comparável à injustiça; deste modo, a medicina estaria para o corpo assim como a justiça estaria para a alma (Platão, 1992, passo 464b-c), no sentido que aquela adquire de therapeía para a alma. 

Há um nítido caráter ético (Gomperz, 1969, p. 610) e político nesta formulação, uma vez que toda a cosmogonia platônica (no Timeu) visa, em última análise, a deslindar a 'harmonia' intrínseca ao cosmo, que é da mesma ordem da harmonia que rege a alma humana e que deverá fundar a ideal. Assim, restabelecer a saúde da alma tem uma finalidade ética primaz, o que engendra toda a discussão sobre a excelsa (Cambiano, 1981) que o filósofo almejava (Cornford, 1937, p. 6). Tratar a alma é promover a sua reordenação e o retorno de sua harmonia — restabelecendo a justiça —, tal qual apontado no Górgias (Platão, 1992, passo 504d-e):
... fala às almas dos seus ouvintes em todas as circunstâncias. E, se dá ou tira aos cidadãos alguma coisa, é sempre com a intenção de fazer nascer a justiça na sua alma, de expulsar dela a injustiça, de implantar nela a moderação e dela afastar a intemperança.
Com base nessas premissas, o escopo da atividade filosófica seria manter a saúde da alma, o que é mister para que a atinja seu máximo grau de excelência.
É interessante notar que o alcance curativo da medicina é, para Platão, intimamente relacionado às 'causas' e à história natural das enfermidades, bem como à constituição daquele que adoece. Em relação a esses aspectos tem importância capital o repertório de triângulos que compoem a intimidade do corpo humano, consoante as discussões presentes no Timeu

Cada pessoa ao nascer detém uma quantidade e arranjo de seus triângulos, os quais facultam um tempo de vida 'esperado' e que não tem como ser prorrogado. Assim também são as doenças: elas têm um curso próprio — uma 'história natural' —, segundo o qual o tempo de sua duração e o desenlace encontram-se preestabelecidos. De acordo com as palavras do próprio filósofo (Platão, 1977, passo 89b-c):
De regra, a constituição das doenças apresenta alguma semelhança com a dos seres vivos, pois a composição destas condiciona uma duração regulada para a espécie em geral, nascendo cada pessoa com o tempo de vida fixado pelo destino, exceção feita para os acidentes inevitáveis de origem externa, pois desde o nascimento os triângulos de qualquer ser vivo se conglutinam de maneira que possam resistir até um determinado limite, além do qual ninguém consegue prolongar a vida. O mesmo se passa com a constituição das doenças.
Há um determinismo inerente à constituição humana e ao desenrolar da moléstia, o qual torna limitados os tratamentos prescritos. Na continuação do mesmo passo do Timeu, Platão critica o uso de medicamentos para a contenção de doenças leves — as quais devem ser deixadas livres para seguir seu próprio curso —, enfatizando que os fármacos devem ser empregados apenas nos casos "mais graves", ou seja, naqueles em que há "grande perigo" para o doente (Platão, 1977, passo 89b-d).

As moléstias não devem, assim, ser irritadas com o uso de remédios, o que traz mais prejuízos que benefícios para aquele que sofre. Ainda mais: se a moléstia for incurável — ou seja, mortal (exceção feita às condições traumáticas) —, não deve ser prolongada a vida 'artificialmente' por meio de modalidades terapêuticas — aqui não restritas aos fármacos, mas também às práticas como a dieta e a ginástica —, de acordo com o que está exposto em A República (Platão, 1987, passo 406a-b):
— ... Heródico, que era mestre de ginástica, tornou-se enfermeiro, e, misturando o exercício básico com a medicina, atormentou-se primeiro e acima de tudo a si mesmo, e depois a muitos outros.
— Como assim? — Perguntou ele.
Dilatando a sua própria morte — respondi eu. Acompanhando passo a passo a sua doença, que era mortal, sem ser, ao que parece, capaz de se curar, atravessou a vida a tratar-se, sem se ocupar de mais nada, estafando-se a ver que não se desviasse da dieta habitual, custando-lhe a morrer, devido ao seu saber, até que atingiu a velhice (grifo nosso).
Nesta passagem Platão renega a atuação de Heródico, o qual adotou um 'combinado' de ginástica e dieta para protelar sua moléstia incurável. Sua prática, que "atormentou" a si mesmo e a outros, propiciou que vagasse pela vida doente — subentendendo-se aqui que tenha sofrido e feito sofrer com isto. Neste sentido, seria muito mais pertinente se declinar em buscar de forma 'ensandecida' o tratamento da enfermidade, uma vez que a morte, no caso de doenças incuráveis, pode ser muito mais redentora que algoz: "... se o corpo [do homem atingido por enfermidade mortal] não é capaz de resistir, a morte liberta-o de dificuldades" (Platão, 1987, passo 406e, grifo nosso).

A opção pela morte parece ser mais razoável nessas circunstâncias, as quais se referem a moléstias não passíveis de cura. Assim, Platão elabora uma censura aberta ao emprego da arte médica como forma de prolongar a vida, caso o enfermo esteja acometido por moléstia incurável. Para isso utiliza uma bela e coesa argumentação, a qual se mantém ainda extremamente atual, sobretudo no contexto dos debates bioéticos sobre o fim da vida, como foi possível se discutir em outras oportunidades (Schramm, 2001; Siqueira-Batista et al., 2002; Siqueira-Batista et al., 2003 a e b).

Ponderações finais
A cultura ocidental representa, nos seus mais distintos matizes, um genuíno legado da Grécia antiga. Diferentes campos do saber se estruturaram e alcançaram grande maturidade na sociedade helênica, imprimindo profundas marcas na sua 'evolução' histórica e conceitual subseqüente. Inserem-se neste âmbito a medicina hipocrática — cujo método em grande parte continua presente na prática clínica hodierna — e a filosofia — um 'produto' intrín-seco ao espírito grego, provavelmente a mais original e decisiva herança daquele povo.

Filosofia e medicina são contemporâneas — o 'registro civil' de uma e de outra dista pouco mais de cem anos: séculos VI e V a.C., respectivamente —, o que permitiu a emergência de uma marcante cumplicidade entre ambas (Siqueira-Batista, 2003a, p. 232). Esta constatação se torna mais diáfana à medida que: 

(1) identificam-se homens que se dedicavam, simultaneamente, aos dois misteres — como Alcmeón de Crótona e Empédocles de Agrigento; 

(2) percebe-se uma nítida influência da filosofia pré-socrática nas doutrinas médicas da Escola de Cós — como no equilíbrio (pitagórico) dos quatro humores e no conceito de , visto anteriormente;

(3) na presença de idéias médicas nos textos filosóficos, cujo divisor de águas foi, indubitavelmente, o filósofo Platão.

Como se tentou demarcar neste breve ensaio, o pensador ateniense manifestou grande interesse por diferentes aspectos da medicina. Suas concepções médicas se articulam intimamente a todo manancial teórico de sua obra, representando preocupações com as relações entre o cosmo e o homem — e entre este a e pólis —, o corpo e a alma e, de um certo modo, com o próprio binômio vida e morte, uma vez que todo o seu esforço se dirige à idéia de uma alma tripartida que possui uma porção imortal — divina — 'habitando' o corpo mortal e perecível.

Há uma fecunda confluência de teorias médicas e filosóficas nos diálogos platônicos, como na idéia de saúde relacionada ao equilíbrio entre parte e todo — e entre corpo e alma —, cabendo ao tratamento um papel relevante no sentido de restabelecer a 'crase' perdida, tal como se pode perceber nos fragmentos filosóficos (como em Alcméon) e nos tratados hipocráticos — Dos humores e Da natureza do homem, entre outros (Hippocrates, 1992, pp. 10-1). Entretanto, o campo de atuação das condutas terapêuticas é restrito: as moléstias têm uma história natural — quiçá um 'prognóstico', tal como ensinado pelos médicos de Cós —, de modo que é passível de crítica a utilização de medidas corretivas para as enfermidades brandas — as quais não devem ser 'irritadas' pelos remédios —, bem como para as incuráveis, pois o tratamento destas últimas possibilita o prolongamento artificial e 'sofrido' da vida.

Eis o panorama: na complexidade e abrangência de suas especulações, Platão realiza uma leitura da medicina de sua época que se mantém extremamente atual, no contexto de seus problemas mais recônditos. Questões como: a relação entre homem e meio ambiente; a possibilidade de adoecimento psíquico por causas orgânicas; a explicação 'fisiológica' para a inexorabilidade de determinados estados nosológicos; e a conseqüente crítica aos tratamentos "desproporcionais" — que beirariam a 'obstinação terapêutica' — podem ser retomados hoje, como frutífero pano de fundo teórico para uma atitude mais reflexiva em relação à medicina.

Refletir sobre o fazer médico — eis uma perspectiva da maior importância em uma sociedade laica e plural. Procedendo assim, à moda platônica, abre-se um caminho para a construção de uma prática médica mais condizente com as necessidades humanas, voltada para a amplidão das suas possibilidades, mas também ciosa em relação aos limites de suas próprias mãos e dos meios por elas utilizados e aperfeiçoados, representados pela arte de curar e cuidar.

NOTAS
* Trabalho realizado no Departamento de Ciências Sociais/Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)/Fundação Oswaldo Cruz e no Núcleo de Estudos em Filosofia e Saúde (NEFISA)/Fundação Educacional Serra dos Órgãos.

1 A palavra grega (physis) é traduzida, de forma muito simplista e rudimentar, como natureza. Etimologicamente, physis é formada pelo sufixo sis e pela raiz verbal phy. Na voz ativa a palavra significa 'produzir' e na voz média, 'crescer'. Acredita-se que o termo se origina a partir de características do reino vegetal, estendendo-se mais tarde o significado do verbo a ponto de assumir uma amplidão máxima. Para W. Jaeger (1995), em Paidéia, "a palavra abarca também a fonte originária de todas as coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; em outras palavras, a realidade subjacente às coisas de nossa experiência". Deste modo, a palavra physis indica aquilo que por si brota, emerge, surge de si próprio e se manifesta neste desdobramento, pondo-se no manifesto. A physis é tudo o que existe, nada existe que não seja . Para aprofundamento dessa discussão ver Bornheim (1999, p. 7).

2 No século XVI os textos platônicos foram traduzidos (para o latim) e publicados por H. Estienne, o qual dispôs a versão grega em duas colunas, cada uma delas divididas em letras a, b, c e d, precedidas por um número. Esta menção tem relevância porque as traduções subseqüentes mantiveram tal disposição, sendo bastante comum a referência a determinado 'passo' de um diálogo ao se comentar sobre um excerto específico.

3 A existência de dois mundos — sensível e inteligível — é uma das teses mais famosas do pensamento platônico. O mundo inteligível é constituído pelas Formas (ou Idéias) eternas e detentoras do ser, as quais são o modelo — paradigma incorruptível — para o mundo sensível (cópia do primeiro), e que detém as 'coisas' sujeitas ao devir: "O Demiurgo de que nos fala Platão no Timeu não é o mero artesão, o que simplesmente trabalha com as mãos, mas aquele que produz contemplando um modelo, transferindo para a cópia as virtudes desse modelo. O Demiurgo contempla e produz: há nele uma atividade teórica e uma prática, inseparáveis" (Platão, 1977, 'Introdução', p. 14). Sem embargo, é importante demarcar que as Idéias eternas não representam leis da natureza — algo imanente ao mundo sensível (como a alma nos milésios): "Os objetos que descobriu [Platão] não eram leis da natureza, se por estas entendermos fórmulas que descrevem a seqüência de fenômenos sensíveis, ou coisas desse gênero. Nas suas mãos, a teoria transformou-se numa doutrina da inteligível 'natureza das coisas' em oposição consciente ao materialismo que identificava a realidade com os componentes elementares dos corpos tangíveis" (Cornford, 1989, p. 74).

4 No Livro V de A República, Platão comenta que se estes objetos — as Idéias — podem ser conhecidos, eles têm de ser reais, uma vez que o perfeitamente real tem de ser necessariamente idêntico ao perfeitamente cognoscível. (Platão, 1987, passo 477a).

5 Na verdade o problema versa sobre a construção de um quadrado que deve ser o dobro de um dado quadrado, o que implica no teorema do quadrado da hipotenusa (este, uma provável descoberta de Pitágoras).

6 Apesar de, no Mênon, a questão do conhecimento já estar centrada na alma, não há alusão explícita à Teoria das Formas, consoante o discutido por M. Iglésias (Platão, 2001. p. 12): "O Mênon entretanto não faz nenhuma menção clara à teoria das Idéias transcendentes, nem mesmo na passagem sobre a reminiscência, onde é esperado que ela faria sua aparição."

7 Para Ivan M. Frias (2001, p. 108), "Vê-se que a alma é primeira. A estrutura corporal é um simples abrigo e meio de locomoção para a alma. O corpo encontra sua razão de ser na alma. Cada segmento anatômico tem uma finalidade derivada da função que é desempenhada pela parte da alma que lhe corresponde. Há, portanto, um finalismo em cada passagem da anátomo-fisiologia do Timeu que também está presente na descrição das estruturas onde efetivamente ocorre a ligação da alma com o corpo".

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Rodrigo Siqueira-BatistaI
IProfessor de clínica médica e filosofia da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (FESO) Av. Alberto Torres, 111, Alto 25964-000 Teresópolis 
 

Fermin Roland SchrammII
IIPesquisador do Departamento de Ciências Sociais, Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) Rua Leopoldo Bulhões, 1480, sala 914 21041-210 
Rio de Janeiro — RJ roland@ensp.fiocruz.br