sábado, 27 de novembro de 2010

ABSOLUTIZAÇÃO


Absolutização

Lendo Platão, nos deparamos com a suposta filosofia socrática, já que está sendo explicada não por Sócrates, embora este não tenha deixado nada escrito, mas enfim, frase célebre que pensamos a respeito da maiêutica socrática seria: "sei que nada sei".

Pensando a respeito e sobre as armadilhas das setenças analisadas por uma lógica filosófica, podemos pensar na contradição dessa sentença, já que por eu dizer que "sei", mesmo sobre "não saber", me coloco na condição de sabedor, anulando a negação que foi afirmada.

Poderia ser mais apropriado quem sabe dizer: "Talvez nada saiba", ainda sendo condicionado pela certeza do "talvez". Mas "Sei que nada sei" é uma afirmação socrática de "saber" e logo, detentor de uma verdade. A quem pertence o conhecimento da verdade? Eu diria que a todos, ou seja, a ninguém, logo todos temos verdades e por assim ser, excluímos a absolutização das mesmas, levando em consideração que respeitando uma, deve-se por consequência respeitar as subsequentes.

Assim me reporto a outras absolutizações, exemplo, Heráclito: "Tudo muda, exceto a mudança". Parece-me que se a mudança não muda, algo então permanece, logo nem tudo muda.

Indo além pode-se chegar a absolutização maior, deus, pois se esse é "tudo", como afirmam os teólogos, logo, também é nada, pois abrange inclusive a contradição de si mesmo. Pois o próprio filósofo britânico David Hume expõe que toda afirmativa possui com igual veracidade uma antítese. Embora a Teologia se afirme sobre a ilogicidade, não se atendo a regras filosóficas, mas servindo-se delas.

E não devemos também absolutizar filosofando, pois trocar uma "regra" por outra é manter a permanência, assim, oscilamos entre os conceitos, procurando ter uma permanência e ao mesmo tempo fazendo alterações, acabamos no final atendendo ambos os aspectos, por fim existe a mudança e a conservação, por mais que os "radicais" de ambos os lados não queiram admitir.

A absolutização é uma armadilha que a todo momento aparece naquilo que dizemos ou escrevemos, observe como eu acebei de escrever "a todo momento", como foi mencionado, habituamos a conviver com ela, mas importante é observá-la como efêmera, assim como nossas outras concepções e que não deixemos que chegue ao ponto de nos conduzir, quando nos tornamos intolerantes e "atropelamos" outras formas de pensar, diferenciadas das nossas, embora fazendo nossas escolhas, estaremos "atropelando" também concepções alheias.

Qual a solução? Existe solução? Se existe, creio que elas irão se revelando e nem mesmo daremos conta, pois quando se apresentarem, aparecerão tantas outras perguntas, que preocupados em respondê-las, já nem mesmo daremos conta da outra resposta, como ao formulá-la, não damos conta das outras que antecederam a ela.

Somos absolutizadores desabsolutizantes.


Ao usar este artigo, mantenha os links e faça referência ao autor:
Absolutização publicado 16/11/2010 por Bruno Leonardo Galdino de Azevedo em http://www.webartigos.com

DA CRIAÇÂO DO MUNDO - TIMEU de PLATÃO


TIMEUde PLATÃO
Introdução
A intenção deste artigo é explicar o texto "Timeu" e mostrar suas importância não somente para o passado do homem mas para o próprio futuro de suas descobertas.
"Ainda neste caso, a fé que guiou o experimentador nascia de uma meditação quase iniciática sobre as antigas filosofias da natureza. 

As fontes a que Newton recorre estavam à mão, nos escritos eruditos dos místicos, cabalistas e platónicos de Cambridge como Ralph Cudworth e Henry More. Revivia aqui, através de riquíssimas citações, o mito renascentista da prisca sapientia, que atribuía a uma tradição filosófica remota, platónico-pitagórica ou hermética, o conhecimento exacto de todos os segredos da natureza.
Ou seja: os antigos conheciam a lei do inverso dos quadrados e haviam-na exposto sob a forma alegórica". (Casini, Paolo "As filosofias da natureza") 

Timeu
O modelo eterno começa a ser organizado pelo Demiurgo. Desejando a divindade (Demiurgo) que tudo fosse bom, tomou o conjunto das coisas visíveis, sempre em movimento, e fê-las passar da desordem para a ordem, esta superior àquela. "...o mal não procede do Bem ou, pelo menos, se proceder do Bem, não o é enquanto mal. Não compete ao fogo resfriar nem ao Bem produzir seu contrário. Se é verdade que todo ser procede do Bem (porque a natureza do Bem é produzir e conservar os seres, enquanto o mal os corrompe e os destrói), não há nada nos seres que proceda do mal, e não se poderia falar de mal absoluto, pois tal mal se autodestruiria. Se acontece de outro modo, é porque o mal não é inteiramente mal, mas participa de algum modo do Bem, e porque boa é a causa de todo aquele que possui ser. (Areopagita)

A gênese do Universo é o resultado da ação combinada da necessidade e da inteligência. A inteligência convenceu a necessidade a dirigir para o bem a maior parte das coisas que nascem. Dominando a necessidade, convenceu-a a inteligência a dirigir para o bem a maior parte das coisas que nascem. Por tal princípio foi que nosso universo se formou, com a vitória, pela persuasão, da sabedoria sobre a necessidade. "...se afirmarmos que a matéria é necessária para o acabamento de todo o Universo, como a matéria seria um mal? Uma coisa, com efeito, é o mal; outra, o necessário. Aliás, como o Bem usaria uma realidade má para gerar?" (Areopagita)

Baseado na sua teoria das idéias eternas, Platão pode explicar a natureza do Universo, da totalidade das coisas sensíveis. "A teoria das idéias é o nexo mais forte e mais decisivo a ligar as diferentes partes do Corpus Platonicum. Todo o platonismo funda-se principalmente nela e dela deriva". (Hildeberto Bitar) "...esta sabedoria é cognoscível a partir de toda a realidade. Porque ela própria é, segundo a escritura, a artífice universal". (Areopagita) 

O Demiurgo torna visível o mundo das idéias, sendo então esse mundo a representação daquelas. Ele é o mediador e artesão desse mundo, todavia, não é onipotente. Em primeiro lugar porque o modelo que utiliza não é de sua criação, porque o modelo é eterno, igualmente a matéria que recebe as imagens das formas inteligíveis já existe, e finalmente sua ação é limitada pela necessidade, fator de produção do Universo tanto quanto a razão. Como um artista, ele dá vida a obra. 

Tudo que nasce ou devém procede de uma causa, porque nada origina-se sem causa.
Teve princípio porque tudo o que está sujeito ao devir e ao nascimento. E tudo o que devém só nasce por efeito de alguma causa, ou seja, o mundo sensível teve início porque é sujeito ao devir.

Em que consiste o que sempre existiu e nunca teve princípio?
E em que consiste o que devem e nunce é?
O primeiro é apreendido pelo entendimento com a ajuda da razão, por se sempre igual a si mesmo, e o outro a opinião secundária pela sensação carecente de razão porque a todo instante nasce e perece, sem nunca ser verdadeiramente.

Deu inteligência ao mundo, mas a inteligência precisa de alma, também dando alma, dotando o mundo de alma e razão.

O construtor do divino foi ele mesmo; mas a tarefa da geração dos seres mortais ele confiou a seus filhos. Depois de receberem o princípio imortal, receberam outra espécie de alma, agora mortal, a que deram como veículo todo o corpo, cheia de paixões terríveis e fatais, segundo a lei da necessidade. Para não sofere influência da parte mortal, separaram a cabeça, a parte divina, do tronco, a parte inferior, pelo pescoço. Ao coração, fonte do sangue que circula com força pelos membros, atribuíram um posto de guarda, para que ao receber alguma ordem da razão de que algo injusto ocorre nos membros, possa rapidamente obedecê-la. O coração assim, seria como um órgão de harmonia entre razão e emoção, porque razão sem emoção e emoção sem razão são fadadas ao radicalismo, e portanto ao desequilíbrio.

A produção da alma do mundo, da alma humana, e da alma vegetativa, utiliza técnicas pertencentes a metalurgia, ressaltando o caráter de artesão do Demiurgo. "Penso que se poderia chamar a ciência de conhecimento do genérico, de saber obtido; a arte, ao contrário, seria ciência aplicada à ação; a ciência seria razão e a arte seu mecanis­mo, e por isso também se poderia denominá-la ciência prá­tica. Por fim, então, a ciência seria o teorema, e a arte, o problema". (Goethe)

Pôs a água, o ar entre o fogo e a terra, cuja transformação possibilita o receptáculo, ou "matriz de tudo que devém". Se a marca a ser cunhada tiver de apresentar toda variedade de figuras, o receptácu-lo em que essas impressões vão processar-se seria inadequado a semelhante fim, se não carecessem de todas formas que terá de receber. 

O que tem de receber devidamente muitas e muitas vezes e em toda a sua extensão, todas as semelhanças das coisas inteligíveis e eternas, terá de ser livre, em sua natureza, de todos os caracteres.
Deu forma esférica, a mais perfeita, a que abrange todas as formas existentes, por isso ele torneou o mundo em forma de esfera, por estarem todas as suas extremidades a igual distância do centro.
Copiando a forma redonda do universo, a cabeça, a porção mais divina de nós mesmos e que comanda o corpo (dádiva dos deuses).

«Platão, acolhendo a doutrina pitagórica, com a divina profundidade do seu génio... no seu Timeu compôs a alma do mundo mediante a composição de relações musicais, graças à inefável providência do deus artífice...» (Newton). Ritmo é um presente dos deuses, para levar o homem a harmonia de que a alma muitas vezes ressente-se. Encontramos também relação com Shakespeare na questão rítmica, da qual é constituída a música e os efeitos da desordem harmônica: "O homem que não gosta de música é dado ao roubo, a perfídia e a sordidez." (Shakespeare) 

A natureza desse ser vivo que é o Universo não podia ser atribuída em toda sua plenitude ao que é engendrado. Então compôs uma imagem móvel da eternidade, e enquanto organizou o céu, fez da eternidade que perdura na unidade essa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo. Quanto a Deus, é preciso celebrá-lo simultaneamente como Perpetuidade e como Temporalidade, porque é a causa de todo o tempo e de toda perpetuidade.

E para que o tempo nascesse, também nasceram a lua e os outros cinco astros, para definir e conservar os números do tempo. Depois de formar os corpos de todos eles, a divindade colocou-os nos circuitos em que se move a revolução do Outro, sete corpos em sete órbitas. No texto de Paolo Casini:«Os seis planetas principais rodam em torno do sol em círculos concêntricos com o próprio Sol, ma mesma direcção e no mesmo plano. Dez luas rodam em torno da Terra, de Júpiter e de Saturno em círculos concêntricos, na mesma direcção e nos planos das órbitas da Terra, de Júpiter e de Saturno. E Estes movimentos não provêm de causas mecânicas... Esta elegantíssima estrutura do Sol e dos planetas só pode ter origem na vontade e no desígnio de um Ente inteligente e poderoso...» (Scol. Gen.).

A harmonia «pitagórica» do universo adquiria uma prova imprevista graças ao sistema da atracção: era a manifestação de uma lei simplíssima, imposta a tudo por um Deus «matemático e mecânico». O homem, o «caniço pensante» da que falava Pascal, tinha agora penetrado profundamente no conhecimento da máquina cósmica e nos cálculos do criador. Newton aparecia alternativamente aos seus contemporâneos como um humilde servo do Senhor ou como o divus que intrepidamente havia revelado a própria face da verdade. Para si preferiu a imagem cândida e modesta de «uma criança que brinca na praia» e se diverte a «descobrir uma pedra mais polida e uma concha mais bela do que o habitual, enquanto o grande oceano da verdade se estende na sua frente, inexplorado».

Conclusão
Tanto as descobertas do passado como as do presente encontram-se separados apenas pelo tempo, mas atuais quanto às idéias, porque idéias não envelhecem.
Esse caráter de arte e de Ciência, e também como podem aparentemente divergir, embora estejam falando sobre a mesma questão, procurou ser mostrado.
Ou como dizia Goethe: A superação do sensorial pelo espírito é a meta da arte e da ciência. Esta supera o sensorial dissolvendo-o completamente em espírito; aquela, implantando-lhe o espírito. A ciência olha atra­vés do sensorial para a idéia; a arte enxerga a idéia no sensorial. (Goethe)

A esse respeito escreveu Tristão de Athayde: e não foi por acaso que Goethe, exemplo máximo com Pascal, da absoluta compatibilidade entre ciência e literatura, ligou para sempre Dichtung und Wahrheit, a poesia e a verdade, como síntese de sua própria personalidade universal e como símbolo das duas faces perenes do ser humano. Espírito científico e espírito literário não se opõem, completam-se. O espírito científico comunica ao espírito literário a precisão do pensamento, a concisão do estilo, a humildade e a honestidade. O espírito literário comunica ao espírito científico a liberdade e a largueza do pensamento, a criatividade, o senso do humor e a gratuidade da beleza. (ATHAYDE, 1976)


Timeu publicado 23/03/2009 por Daniel Feix 
Fonte: 

Timeu de Locres

Origem: Wikiquote, a coletânea de citações livre.




Timeu de Locros (Latim: Timaeus Locrus) era um filósofo grego pitagórico do século V a.C.
  • Timeu de Locres declarou que as penas da outra vida eram castigos infindos aplicados às sombras dos reprobos, e que a tradição lhes perpetuara a ideia a fim de purificar o espírito de vícios.
- citado em "A imortalidade, a morte e a vida: estudo ácerca do destino do homem" - página 91, Baguenault de Puchesse (Fernand, M.), Camilo Castelo Branco, Editora F. Gomes da Fonseca, 1868, 377 páginas
 
Origem: Wikiquote, a coletânea de citações livre.

Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres. 
Sejam abençoados todos os seres.

domingo, 21 de novembro de 2010

HIPERTEXTO E SUBJETIVIDADE - Celso Cândido

 
1 INTRODUÇÃO 

A arte de construir um problema é muito importante: inventamos um problema, uma posição de problema, antes de encontrar uma solução. Gilles Deleuze A emergência das redes cibernéticas interativas de comunicação e informação é um acontecimento relativamente recente na história da humanidade. Algo em torno de duas décadas, tomando a Internet como referência. Trata-se, em verdade, de um movimento tecno-social de grandes dimensões, constituído hoje por centenas de milhões de pessoas interconectadas no mundo todo. Esta interação humano-maquínica está atravessando importantes domínios da existência social e individual, produzindo diferentes formas de ação e pensamento, sob certos aspectos revolucionárias, mas, em todo caso, certamente, imprevisíveis e de importância crescente. 

O campo problemático o qual, então, a presente pesquisa procura investigar é o da produção da subjetividade contemporânea e suas mutações, atuais e virtuais, a partir da “emergência do ciberespaço”, em especial de sua dimensão comunicativa Web. Este teleespaço de interação comunicativa atravessa o campo social em diferentes direções do mundo da cultura, mas também da economia e do trabalho, da política e da ética, da ciência e do conhecimento. As implicações deste novo “espaço-informação” são de tal grandeza e complexidade que, sob certos aspectos, parecem extraordinárias. Em uma medida, se for considerado o conjunto dessas afetações humano-maquínicas emergentes, é a própria paidéia que é colocada em questão.

Este ciberespaço agora faz parte do mundo contemporâneo. É quase como o ar que se respira; sua presença é cada vez mais unívoca e imprescindível para a vida em sociedade; nas atividades profissionais, nos escritórios e laboratórios de pesquisa, nas instituições, empresas, bancos, universidades; nas comunicações pessoais, nas programações culturais, no universo das “diversões eletrônicas”, nas compras on line e movimentações bancárias, apenas para dar alguns exemplos. Nesse universo, os agenciamentos de enunciação estão implicados em uma produtividade ativa e criativa e em uma interatividade crescente de comunicação. 

Em maior ou menor escala, trata-se de uma comunicação autocriativa do tipo “todos com todos”, significando que os participantes da grande teia digital são agora virtualmente “agenciamentos coletivos de enunciação” de criação e resistência comunicativo reais. Diferentemente das “metanarrativas” precedentes encarnadas nos mass media eletrônicos como o rádio, o cinema e a televisão e impressos, como o livro e o jornal, o que estes novos agenciamentos anunciam são narrativas polifônicas encarnadas. Uma espécie de autonarrativa generalizada. Os agenciamentos humano-maquínicos cibernéticos formatam, fomentam, virtualizam subjetividades políticas, literárias, filosóficas, comunicativas, inauditas no contexto da cultura industrial precedente e seu modo de produção específico, serial de massas, e da hegemonia ‘tecnopedagógica’ de grandes meios de comunicação que predominaram no cenário político e cultural do recente século passado. 

Não há, evidentemente, um único modo de as subjetividades contemporâneas agirem e reagirem, produzirem-se e constituirem-se diante da nova mídia. De um lado, uma geração que, diante do computador, “totem e tabu”, se coloca na defensiva – mesmo quando é ofensiva – negando-o em todas as suas letras. Existe mesmo, no extremo desta visão, um movimento deliberado para “literalmente destruir” os tais “monstros diabólicos”. 

Em todo caso, no interior deste “campo defensivo”, a maioria simplesmente se sente intimidada e continua com seus velhos e bons métodos de agir, pensar, educar e interagir. Trata-se de uma geração que, tendo vivido a maior parte de suas vidas sem este atravessamento cibernético, pode, de certa forma, continuar sua vida “independentemente dos computadores e da Web”. O telefone, a televisão, o rádio, o cinema, as cartas, os livros constituem já, por
2
si mesmos, um mundo rico de interações comunicativas para o espírito. E, apesar da Web e junto com ela, não vão perder em nada seu encanto específico. De outro lado, porém, uma geração, sobretudo a que agora está nascendo e crescendo, que já está, desde o início de seus dias, mergulhada nos ambientes digitais eletrônicos. Para essa geração, um computador conectado à Web faz parte do seu design educativo e doméstico; ele é, como o rádio ou a televisão, uma interface eletrônica a mais em seu meio ambiente. Entre essas duas, uma outra, como aquela que deve ser capaz de semear o campo, uma geração de passagem, tentando, de modo nem sempre satisfatório, entender-se e inventar-se neste novo ambiente cognitivo. 

A tentativa de uma apreensão total e conclusiva dessa relação seria inglória e não está definitivamente no horizonte deste trabalho. O que interessa, sobretudo, é inventariar e problematizar os processos de subjetivação atravessados pelo acontecimento cibernético, sem pretensão de esgotá-los em si ou em alguma totalidade teórica ou programática. Antes, situar probabilidades teóricas, tendências virtuais, pragmáticas ecosóficas possíveis. Trata-se, então, sobretudo, de abrir pistas de investigação do acontecimento, antes de carimbar, enquadrar em formas muito delimitadas. 

Tenta-se captar antes o devir o qual em si é irrecuperável por uma teoria qualquer; pensar as implicações, não apenas decorrentes da emergência das tecnologias da inteligência, mas também as recorrências, as desestabilizações e os deslocamentos do social instituído e dos diferentes modos como se processa as interações humano-maquínicas aí; perceber as potencialidades e as “dobras” éticas, estéticas e políticas abertas por esta emergência, quer dizer, como tais tecnologias estão sendo e podem ser apropriadas pelas subjetividades contemporâneas. Problematizar, no entanto, as “subjetividades Web” é pensar um campo extremamente vasto e de grande complexidade, onde se cruza uma diversidade infinita de personagens reais e conceituais. Além disso, o esforço
3
de compreensão precisa ser capaz de circunscrever a análise ao caráter autoconstitutivo permanente e aberto da rede mundial. Uma das peculiaridades da análise das questões suscitadas pela emergência das novas tecnologias de comunicação é que, precisamente, sua auto-instituição social está “em construção”, porque faz parte do seu próprio modo de ser o caráter autopoiético processual heterogenético. Isso confere à análise uma recorrência permanente às tendências e sintomas, muitas vezes, distantes do grande público do mundo letrado contemporâneo; processos muitas vezes minúsculos, parciais, limitados que podem ou não desembocar em movimentos generalizados da subjetividade e do social contemporâneo. Os efeitos bolas de neve destes processos e movimentos sociais minúsculos, como diria Gabriel Tarde, são os verdadeiros agentes formadores do social. Em todo caso, interessa aqui, principalmente, cartografar e desenhar os devires das subjetividades contemporâneas em direção a práticas sociais ecosóficas inovadoras. Trata-se, portanto, de uma pesquisa-invenção. Por essa razão, mais que nunca, se reconhece o recorte necessariamente parcial da análise. 

Por mais extensa que ela possa ser, no contexto do pensamento eletrônico, ela nunca poderá deixar de ser um recorte transversal. Desse modo, a fim de problematizar as questões suscitadas neste contexto problemático, apresenta-se, a seguir, um ensaio teórico dividido em duas partes, composto, o primeiro, de um conjunto de três seções e o segundo, de seis seções; e uma conclusão como encerramento. Na primeira parte, visa-se ao desenvolvimento de uma elaboração mais propriamente conceitual de contextualização, cercamento e fundamentação das idéias elaboradas a partir da segunda parte. Assim, inicialmente procura-se apresentar o “lugar”, bem como a “sensação do presente” a partir dos quais se está falando. Em seguida, esboça-se a idéia da Web como um novo espaço antropológico. Por fim, procura-se elucidar a idéia de subjetividade e suas relações com a tecnologia.
4
Dessa maneira, na primeira seção da primeira parte, intitulada Heterogênese conceitual, procura-se, em grandes linhas, elaborar a “situação epistêmica” teórica e prática do lógos contemporâneo, a partir da problematização, primeiramente, do contexto epistemológico, situado em um referencial crítico-dialético e trágico-dionisíaco, na era do “fim das certezas” e, em seguida, do contexto ético-estético-político, situado em coordenadas e paradigmas ecosóficos. 

Na seção seguinte, A admirável Web humana, procura-se elucidar o nascimento e o lugar da Web na sociedade contemporânea, bem como suas características essenciais; e, na seção Uma subjetividade polifônica, elabora-se, primeiramente, o conceito de subjetividade e suas mutações, destacando, em seguida, a discussão em torno do problema do determinismo tecnológico. Na segunda parte, por sua vez, procura-se analisar um conjunto de importantes vetores de subjetivação contemporâneos. Elaboram-se esses vetores e seus deslocamentos fundamentais nos processos de comunicação, de relações cotidianas, de produção cultural, do trabalho humano, da dimensão política e, por fim, do próprio do pensamento.

Desse modo, na primeira seção da segunda parte, A trofolaxe digital, discute-se o papel fundamental da linguagem e da comunicação na psique e no mundo humano e, então, debatem-se as diferentes interfaces de comunicação constituídas historicamente, atentando, por fim, para a grande mutação operada no vetor de subjetivação comunicativo. Na seção seguinte, O cotidiano on line, problematiza-se a arquitetura do novo espaço cotidiano virtual e das vivências e interações humanas, constituídas no interior deste espaço. 

Na seção, A Alexandria digital, discutem-se a cultura na idade do computador e a emergência de um novo modo de produção, registro, consumo, distribuição e transação dos bens culturais; argumenta-se, ainda, em torno do papel estratégico político e ecológico desta hipercultura digital. Na seção, Adeus ao proletariado industrial, partindo-se do papel central do trabalho na existência humana, reflete-se sobre as transformações no modo de produção e no conceito de trabalho e intenta-se perceber o pano de fundo econômico e as relações de produção e reprodução entre capital e trabalho. 5

Nas duas últimas seções, respectivamente, O nascimento da Ágora virtual, trabalham-se a questão da liberdade como aspiração humana fundamental e da tecnologia como questão própria da civilização e da sociedade, elabora-se o surgimento de um novo espaço público eletrônico do agonismo e da colaboração humanas e, em O pensamento eletrônico, procura-se refletir a respeito do trabalho do pensamento neste ambiente emergente das novas redes neuro-eletrônicas interativas de comunicação, na medida em que o suporte, sobre o qual ele se movimenta e se constitui, encontra-se transformado de modo irreversível. Por fim, como conclusão, procura-se debater os destinos da geração WWW diante de seus grandes desafios éticos e políticos contemporâneos em vistas de uma estética ecosófica, bem como apontar algumas questões que ficaram em aberto no debate aqui proposto.

Além deste ensaio, dois estudos teóricos são apresentados entre os apêndices deste trabalho. No primeiro, Atualizando o virtual, visa-se elaborar o conceito de virtual e, no segundo, Os mitos de Hermes e Prometeu, procura-se, a partir da elucidação destes importantes mitos gregos antigos, abordar as grandes mutações antropológicas em curso contemporaneamente. Apresenta-se também, como ilustração e fundamentação deste trabalho teórico, sua versão digital na Web, que se encontra on line no seguinte endereço << http://www.agoravirtual.net/hipertexto/ >>. 

Cabe observar ainda o contexto a partir do qual este trabalho ganhou corpo. Ele atravessa quase uma década pelo menos de experimentações técnicas e sociais, teóricas e conceituais desde as cada vez mais frágeis fronteiras geopolíticas de um país como o Brasil, com suas centenárias contradições. Em todo caso, inúmeros são os contextos de uma narrativa possível, muito está acontecendo e ainda pode acontecer. Transformações e avanços tecnológicos e sociais inesperados a qualquer momento poderão surgir e, em questão de pouco tempo, mudar o panorama sobre o qual, por ora, se desenham estas outlines digitais.
6
Seja como for, diante de tais questões, é preciso, muitas vezes, reinventar o próprio pensamento, porque o certo é que o “dilúvio” não vai parar. O perigo de se afogar é real. O perigo de ficar à deriva é real. Mas não existe navegação sem perigos.

Fonte:
http://www.agoravirtual.net/hipertexto/