domingo, 14 de agosto de 2011

AVANÇO CIENTÍFICO, ÉTICA E RELIGIÃO



Fernando Altemeyer Júnior
Professor Ouvidor Público da PUC-SP

Na verdade, 
a ciência faz parte da procura do transcendental 
que é comum a outras tantas atividades culturais:
arte, música, literatura1.

É verdade que a Igreja não pode ser alheia à atividade científifica. Ela não teme o progresso científifico, mas o estimula, o honra e favorece a melhor utilização do mesmo em benefício da humanidade. 

Toda conquista da ciência 
constitui uma maior possibilidade de aproximação
entre os dois termos: Deus e o homem.

Por onde começar?

Se o colóquio for centrado no pólo científico, devemos enfrentar questões epistemológicas e metodológicas. Falaremos dos limites da ciência, sua natureza específica e as potencialidades reais desta lógica.

Se estiver centrado na ética, vamos tratar de objetos, de discursos e dos meios utilizados. Essa é outra lógica, em favor de um mesmo sujeito. As duas vertentes prometem uma farta colheita para pensadores desarmados.

No fecundo campo do saber humano, as ciências e a ética religiosa, no vasto universo da Teologia, produzem conhecimentos que pertencem a diferentes ordens ou lógicas. Uma deve reconhecer o estatuto cognitivo da outra. Afinal, este nosso pequeno mundo planetário e pluralista precisa valorizar o humano e a criação, e não apenas uma das partes da equação. É necessário superar a ignorância existente nesses dois campos do saber.

Não há avanço científico que esteja acima de um ethos cultural e social, e, a fortiori, toda ética deve falar à totalidade da existência humana; portanto, também à ciência e às suas conquistas, particularmente as tecnológicas. A ética estimula os cientistas em sua árdua missão, especialmente em seus momentos de genialidade, e pede aos cientistas que a ajudem a superar categorias morais obsoletas e inumanas.

As ciências constróem seu saber a partir do experimento e a ética, como discurso articulado da moral religiosa, faz seu caminho bebendo no poço da Revelação. Esta distinção de naturezas, de objetos e de método, sufi cientemente evidente em nossos dias, não foi sequer compreendida no alvorecer da ciência moderna.

Acreditava-se – erroneamente – que todas as narrativas bíblicas deviam ser tomadas ao pé da letra: criação do mundo em seis dias, Eva tirada da costela de Adão, Josué parando o sol em sua trajetória ao redor da terra, e, enfi m, a refutação de evidências ancestrais, ainda que incompreendidas, quanto ao heliocentrismo, que resultaram na condenação infame de Galileu Galilei (1564-1642) e, em termos diabólicos, na consumação do divórcio entre cientistas e teólogos.

O próprio Galileu procurou manter as narrativas dentro de seu apropriado universo lógico, e qualifi cou o avanço científi co como digno de credibilidade, por conta das vozes que o produziam. Não se pode considerar algo como errôneo por um julgamento apriorístico.
Vêmo-lo dizendo em famosa carta: 

Tal doutrina (heliocêntrica) não é,
portanto, ridícula, visto ser sustentada
por grandíssimos homens e, embora
o número destes seja pequeno,
em comparação com os seguidores
da opinião comum, isto é prova, antes,
da dificuldade de ser compreendida
do que de sua futilidade3.

Trágicos erros de interpretação como esses foram fontes de graves conflitos, como podemos ver, ainda, contra Charles Darwin, e mais recentemente, contra Pierre Teilhard de Chardin. Pouco a pouco, vamos resolvendo os impasses.

A autonomia da ciência, conquistada a duras penas na cristandade frente a certo obscurantismo cristão, é hoje perfeitamente reconhecida pela Igreja (“É certo que a investigação científi ca tem suas próprias leis às quais deve ater-se”4.), tanto no universo laico e civil, quanto nas universidades católicas.
A Igreja cristã reconhece que a ciência goza de verdadeira autonomia em sua pesquisa e produção de conhecimento, mas que não pode situar-se em uma racionalidade científica neutral, que normalmente quer destruir aquilo que não pode ou não quer compreender. É preciso, como diz Prigogine, construir uma nova aliança, entre os homens, mulheres, seus sonhos, conhecimentos e atividades científicas.

A ética religiosa cristã insiste em que a ciência deve estar a serviço de toda a humanidade e da busca comum da verdade. E que, entre elas, não deve haver oposição, mas sim uma relação mútua e complementar. O divórcio entre ciência e moral é um dos riscos mais graves aos quais está exposta a nossa época. A Congregação para a Doutrina da fé afi rma que: 

“ciência sem consciência, 
somente conduz à ruína do homem."

Método científico e suas descobertas incômodas
O emprego contínuo, fi el e paradigmático do método científico desenvolveu, ao menos no Ocidente, um espírito de crítica e de dúvida sistemática. O pesquisador científico somente acredita naquilo que pode verifi car pela experiência. O credo do cientista sempre tem três dogmas primordiais: objetividade, estrutura matemática do objeto e verificabilidade. Tal atitude d’ésprit, perfeitamente legítima nas ciências exatas, torna, muitas vezes, difícil o ato de fé no campo religioso e a conseqüente crítica de qualquer ética religiosa, pois são ouvidas como inverossímeis ou fantasiosas.

A matemática se converteu na única chave interpretativa de todo o cosmos, que perde seu caráter numinoso, sagrado e teológico. O silêncio da ética e dos teólogos (dizem!) faria surgir o esplendor da ciência, a qual superaria a síndrome de medo do homem diante da ideologia religiosa. Johann Kepler (1571-1630) já dizia que a compreensão geométrica do mundo é a que mais se aproxima da mente de Deus.

Para Kepler, a geometria “existiu antes da criação, é eterna como a mente de Deus, é o próprio Deus”6. A parcialidade e o mecanicismo da atual ciência moderna substituíram o modelo organicista e contemplativo do homem medieval. Ter-se-ia vencido a era das trevas. 

A dúvida cartesiana, 
o ceticismo de Hume 
e certo abuso da ciência estabeleceram 
uma ojeriza em relação à ética.

 O pensamento matematizado corresponde
ao físico mensurável, a lógica
relacional desloca a ontologia,
e a extensão à essência é captada intuitivamente.
A inter-relação entre a
filosofia cartesiana e a revolução científica é permanente. 
O mecanicismo,
centrado até o século XVII no movimento
local, é a base da física com
claras conotações desontologizadoras,
antifinalistas e antiessencialistas7.

Habituado por profi ssão a “deixar Deus às portas do laboratório”, os cientistas são tentados a eliminá-lo do mundo. Alguns deles, de grande e renomada autoridade na comunidade acadêmica, afirmam, sem poder, entretanto, prová-lo, que tudo se reduz à matéria e que o seu surgimento, quer do acaso ou da necessidade, nunca poderia ser fruto da criação ou de qualquer Criador. 

Essas afirmações “não-científicas” penetraram em muitos ambientes e tornaram-se um discurso comum, com raízes no nominalismo do século XIV. É como se, no laboratório, não penetrasse a ética e todo avanço científico fosse imediatamente bom, por ser avanço e por ser científico.

A fala ética cristã, nestes tempos de globalização e direitos humanos, não se funda nem navega nas águas do “oceano cientíco”, mas é salutar dizer que existem outros oceanos onde o humano pode morar, navegar e quiçá, por desejo ou sedução, mergulhar. 

Um desses inúmeros mares é o das artes; 
outro, o da Teologia; outro ainda, o da ética.

São mares que se tocam, águas que se confrontam. Cores distintas de suas águas, mas moléculas similares de um mesmo planeta. Lembramos Santo Tomás de Aquino: “a nossa fé não termina na formulação verbal, mas na realidade formulada.” É essa realidade humana que exige de nós uma outra aproximação entre ciência e ética, entre ciência e fé.

Será preciso estabelecer com rigor o método, a pertinência e o vocabulário próprios do diálogo. A ética a partir da Revelação e a ciência a partir de seus fundamentos autocríticos. Maravilhados pelos brilhantes e freqüentes avanços das ciências, e de sua fi lha bem-amada que é a tecnologia aplicada, muitos cientistas, no fi nal do século XIX e princípios do século XX, acreditaram que as ciências resolveriam todos os enigmas e mistérios humanos. 

O cientismo e o racionalismo 
pensaram e propuseram a eliminação
do espírito religioso e, a fortiori, 
da ética religiosa como lugar de conhecimento
e paradigma de humanidade.

Comte versus Bachelard e Kuhn
As ciências foram marcadas pelo pensamento positivista e as idéias de Augusto Comte (1798-1857). Além do método, ele propôs a lei dos três estados pelos quais os diferentes ramos do conhecimento passariam: o teológico, o metafísico e o positivo ou científi co, sendo este terceiro estado o clímax de todo o conhecer. Negar a teologia e a metafísica eram seus pressupostos essenciais. Para muitos, isto ainda permanece, mesmo que de forma velada e inconsciente.

Surgiram, depois, dois críticos dessa posição: Gaston Bachelard (1884-1962) e Karl Popper (1902-1994).
Bachelard problematiza a epistemologia, e a presença da poética, do imaginário e do devaneio para a formação do espírito científi co. Ciência é feita de método, mas também de dúvidas e devaneios.
Popper, por sua vez, crê que, quanto mais se puser à prova uma teoria, tanto melhor e frutífera ela será. O científi co é aquele que pode ser testado e refutado, e assim todo avanço científi co é uma freqüente superação de erros cometidos. Erros constróem a ciência, eis o paradoxo popperiano.
Dois outros críticos devem ser lembrados: Imre Lakatos (1922-1974) e Th omas Kuhn (1922).
Lakatos fala de um necessário “cinto de proteção”, de algumas coisas que podem e de outras que não podem ser refutadas, por serem postulados pré-aceitos por decisão metodológica.

Kuhn fala da ciência normal e da revolucionária, como dois estágios de comportamento dos cientistas e de sua comunidade epistemológica. A primeira vai até a crise de paradigmas; na segunda, ocorre o avanço da ciência, no momento que podemos chamar de “turning point”. Ele nos recorda a força comportamental dos membros da comunidade científi ca como um condicionante importante de todo empreendimento científi co.
Lemos em T. S. Kuhn:

 A violação ou distorção de uma linguagem
científica que previamente
não era problemática é a pedra de
toque do câmbio revolucionário8.

Durante este processo de construção da ciência moderna, alguns poucos se mantiveram vigilantes e humildes, como Niels Bohr, que afi rma ser fundamental ampliar o quadro conceptual, quer dos cientistas, quer de religiosos, pois:

... pontos de partida essencialmente
diferentes são adotados pela ciência,
que visa ao desenvolvimento de métodos
gerais de ordenação da experiência
humana comum, e pelas religiões,
que se originaram nos esforços
de promover uma harmonia de visão
e comportamento nas comunidades.

É claro que, em qualquer religião,
todos os conhecimentos compartilhados
pelos membros da comunidade
foram incluídos no arcabouço
geral, que tem como um de seus
conteúdos primordiais os valores e
ideais enfatizados no culto e na fé.
Por conseguinte, a relação inerente
entre conteúdo e forma mal chegou
a requerer atenção, até que o progresso
posterior da ciência acarretou
uma nova lição cosmológica ou
epistemológica. 

O curso da história
fornece muitas ilustrações quanto a
esses aspectos. Podemos nos referir,
em especial, ao verdadeiro cisma
entre ciência e religião que acompanhou
o desenvolvimento da concepção
mecanicista da natureza, na
época do Renascimento europeu.9

E termina a conferência:
...reconhecendo que nenhuma experiência
é definível sem um arcabouço
lógico, e que qualquer
aparente desarmonia só pode ser
eliminada por uma ampliação do
quadro conceptual.10
Atualmente, os cientistas são bem mais modestos, pois em seus próprios domínios e territórios demarcados se defrontam com interrogações muitas vezes insolúveis. Ouçamos Hawking falando de Deus ou sobre as perguntas essenciais:
A abordagem usual da ciência da
construção de um modelo matemático
não pode responder a questões
como por que deveria haver um
universo para o modelo descrever.
Por que o universo chega a todas as
preocupações do existir? 

A teoria unificada é tão constrangedora que
traz à tona sua própria existência?
Ou ela precisa de um criador, e, se
for assim, teria ele qualquer outro
efeito no universo? E quem o teria criado?

Até então, a maior parte dos cientistas
tem estado muito ocupada com
o desenvolvimento de novas teorias
que descrevam o que é o universo
para se fazer a pergunta por quê.

Por outro lado, as pessoas cuja tarefa
é fazer a pergunta porque, os filósofos,
não são capazes de se manter
atualizadas com as mais avançadas
teorias científicas.11

Surpresas científicas
Ampliar horizontes entre ciência e ética é tarefa difícil. Existem cicatrizes nos dois corpos. Há, no entanto, gente buscando novas palavras, lugares e desafi os para fecundar o encontro. Muitos dos cientistas envolvidos em debates interdisciplinares sabem que, por sua natureza própria, as ciências, todas e cada uma delas em particular, não podem propor, nem resolver a questão essencial do sentido da existência e da condição humana. O que não os impede de continuar a pesquisar, a se perguntar e a se extasiar com as surpresas do conhecimento. 

Aos olhos dos teólogos cristãos, as ciências e a ética religiosa tocam, cada uma à sua maneira, aspectos da verdade: longe de se opor, elas oferecem juntas, ao ser humano, possibilidades de compreender a criação em sua totalidade, isto é, em seus “comos” e em seus “por quês”.

As ciências podem, e muito, benefi ciar e purifi car a refl exão religiosa e sua práxis moral por meio de seu método rigoroso e de suas conclusões específi cas, como se evidenciou nos últimos séculos, quer na antropologia, quer na lingüística, ou ainda nas freqüentes propostas de modelos astrofísicos e cosmológicos. Isso se evidencia, também, na superação dos erros grosseiros, crenças supersticiosas e lugares-comuns existentes em muitas comunidades religiosas. Um exemplo foi a declaração do Papa Leão XII contra o uso da vacina da varíola, que ele qualifi ca de bestial, feita em 1829:

Quem quer que recorra à vacina
deixa de ser filho de Deus ... a varíola
é um juízo de Deus ... A vacina
é um desafio lançado ao céu.12

Por sua parte, a ética religiosa, vivida no universo da Teologia, supera o concordismo e o discordismo inócuos, buscando uma sadia articulação com a ciência. Ultrapassando o God of the gaps (deus das lacunas), poderemos chegar, outra vez, a experimentar o Deus absconditus (Deus escondido) por meio da teologia apofática. O deus dos matemáticos não é o Deus cristão. O físico e professor Marcelo Gleiser diz que é preciso ir ao campo das motivações mais profundas para estabelecer esta conversa, pois:

Se queremos encontrar um lugar
para a religião na ciência moderna,
devemos examinar as motivações
subjetivas de cada cientista, e não
o produto fifi nal de suas pesquisas.
Ao assumir essa posição, estou me
aliando a Einstein, que escreveu
que ‘religião sem ciência é cega, e
ciência sem religião é aleijada.13

O mesmo professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), pensa que:
Não iremos (e não devemos) encontrar
as palavras Deus ou religião num
manuscrito científifi co; contudo, acredito
que um componente essencialmente
religioso atua ainda hoje como
inspiração na pesquisa científica de
vários cientistas, do mesmo modo
que atuou, talvez de modo mais explícito,
na obra de Kepler e Newton.
Tudo depende de quão abrangente é
a nossa definição de religião.14

Podemos, com o uso da moral e da ética, quer na física nuclear, quer na biogenética, ou ainda na Internet, colocar questões quanto ao dever e à liceidade de certos procedimentos científi cos, experimentais e tecnológicos. Nem tudo que pode tecnicamente, o cientista deve fazer moralmente. Mesmo na era dó Genoma, símbolo da panacéia das ciências. O discernimento sobre os valores em jogo, sobre os resultados e meios usados, e a legítima autonomia dos sujeitos e dos povos, ainda hoje tratados como cobaias por laboratórios multinacionais, irrompem como três exigências impostergáveis.

Como exemplo, devemos enunciar aqui a Lei estadual número 10.241, de 17 de março de 1999, de autoria do médico sanitarista e deputado estadual (eleito federal) do PT, que dispõe sobre os direitos dos usuários de serviços de saúde no estado de S. Paulo. 

A lei reconhece a autodeterminação das pessoas frente ao mundo dos médicos e dos hospitais e, de maneira clara, assegura que o usuário seja identifi cado por seu nome ou sobrenome, extinguindo números ou códigos clínicos. Garante ainda que as receitas venham datilografadas ou em caligrafi a legível, e sem a utilização de códigos ou abreviaturas do esotérico mundo médico-científi co (cf. artigo 2).15 Os participantes da “Conferência Mundial sobre a Ciência para o Século Vinte e Um: Um Novo Compromisso”, reunidos em Budapeste, Hungria, de 26 de junho a 1 de julho de 1999, sob a égide da UNESCO e do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU), em seu documento fi nal, buscam respostas semelhantes, em nível mundial:
Grande parte dos benefícios 

Grande parte dos benefícios da ciência
estão distribuídos de forma desigual,
como resultado de assimetrias estruturais
entre países, regiões, grupos sociais
e sexos. 

Na mesma medida em que
o conhecimento científifi co tornou-se
um fator crucial para a produção de
riquezas, a distribuição dessa riqueza
tornou-se ainda mais desigual. O que
distingue os pobres dos ricos (seja país
ou pessoa) não é apenas o fato de possuírem
menos recursos, como também
o fato de que estão largamente excluídos
da criação e dos benefícios do conhecimento
científifico (número 5).

Ainda de maneira inovadora, tal como exposto no número 87 deste documento:

Os governos devem apoiar a cooperação
entre os detentores do conhecimento
tradicional e os cientistas,
de forma a explorar as relações entre
os diferentes sistemas de conhecimento,
e de modo a promover
vinculações de benefício mútuo.

Questionar patentes, discutir e participar de comitês de ética na pesquisa, comprometer- se com as grandes multidões de excluídos, suscitar práticas solidárias de cientistas cidadãos são algumas das questões que vêm do mundo teológico e que, em geral, são bem recebidas pelos cientistas. Entre estes, citamos Willian Saad Hossne, diretor da Faculdade de Medicina da UNESP, e Sônia Vieira, professora de bioestatística da Unicamp, quando concluem seu livro dizendo que:

Afinal, não tem sentido usar pacientes
e despender recursos para produzir pesquisas
inúteis, porque não têm padrão
de qualidade, ou pesquisas abusivas, que
provocam o repúdio da sociedade.16

E a presidente eleita do ICSU – Conselho Internacional para a Ciência:
A ciência não tem todas as respostas,
mas pode e deve ajudar mais do
que tem feito.17

Concluindo, ou melhor, iniciando...
Será preciso ouvir as ciências com mansidão e respeito, e selar um novo pacto em favor da humanidade para vencer as carcomidas certezas e os mortíferos discursos dos “donos de verdades”. Quanto mais espessa é a ignorância, mais acredita ser possuidora da verdade (Henri de Lubac). Ciências exatas e teológicas mais responsáveis e coloquiais iniciarão, nesta nova Ágora, um discurso que seja uma porta transparente do transcendente. A atividade científica, exata ou teológica, terá em conta a norma moral e a totalidade da pessoa humana. Ética e fé cristãs não serão lesivas à atividade científi ca, mas este colóquio pode ser momento propedêutico no decifrar o enigma humano e o mistério de Deus. 

A ciência, como outrora a fi losofi a, não será escrava da ética. Como nos lembra Henri de Lubac: “non ancilla nisi libera.” Deste diálogo de iguais, podem nascer homens e mulheres livres e responsáveis. Como nos convida o padre e doutor Márcio Fabri dos Anjos: “uma posição simpática para os interlocutores”.18 E assim poderemos, um dia, chegar à síntese pascaliana:
Pensar faz a grandeza do homem.

O homem não é mais que um caniço,o mais frágil da natureza, mas é
um caniço pensante. um caniço pensante. Dois excessos:excluir a razão e não admitir nada além dela. Se nós submetermos tudo à razão, nossa religião não terá nada de misterioso ou de sobrenatural.

Mas, se nós formos contra os princípios da razão, 
nossa religião será absurda e ridícula.
Fonte:
APROPUC-SP
http://www.apropucsp.org.br/revista/r27_r08.htm
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

AS “REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES”



– Uma compreensão da Sociologia da Religião e do Racionalismo sob o ponto de vista Weberiano

 
Paula Ignacio

Resumo:           
O texto propõe uma análise do pensamento Weberiano de uma Sociologia do Racionalismo, calcado na gênese da razão a partir da subjetividade humana, capazes de gerar éticas religiosas, e consequentemente pensamentos que desencadeiam em reações práticas pela necessidade de coerência da própria razão humana, gerando modos de vida a partir destas. 

A utilização da religiosidade indiana como exemplo da gênese do processo que leva à racionalização da fé que nega o mundo através do ascetismo foi uma das escolhas de Max Weber na demonstração de que não é possível analisar a História sem antes reaver os modos de pensar que geram fatos históricos.  

Modos de pensamento e de vida das principais religiões do mundo foram analisados e podem ser observados pelas consequências econômicas destes. Tomando como base a religiosidade indiana, e passando ao monasticismo cristão é possível avaliar o início da racionalização da fé e do pensamento religioso e como se dão suas consequências éticas, históricas e econômicas para vários povos.

REJEIÇÕES RELIGIOSAS DO MUNDO E SUAS DIREÇÕES

            No texto “Rejeições Religiosas do Mundo e suas Direções”, provavelmente escrito entre o final do século XIX e início do século XX, e publicado pela primeira vez em 1920, Max Weber, considerado um dos fundadores da Sociologia, utiliza como exemplo uma análise da religiosidade indiana, afim de compreender melhor a gênese das éticas religiosas, principalmente daquelas que “negam o mundo”. A negação do mundo a qual ele se refere diz respeito a uma vida voltada principalmente para a religiosidade, uma vida dedicada a crença religiosa e que segue uma ética tão somente voltada para o eu espiritual, e não mais para o mundo externo.

            Segundo Weber, há “técnicas” correspondentes a essa negação, tais como a vida monástica, com suas manipulações ascéticas e contemplativas, e elas podem ser compreendidas como a racionalização da religiosidade e racionalização da negação do mundo. A Índia é um bom exemplo do desenvolvimento dessas “técnicas de ascetismo”, onde é muito provável que tenham iniciado e então se difundido pelo mundo.

        

            Diante dessa análise, podemos desenvolver e estudar melhor tanto o pensamento ético de um povo cuja cultura é quase totalmente voltada para a religiosidade, quanto observar e compreender as consequências dessa racionalização de negação do mundo através da análise histórica de diversos povos, como por exemplo, dos “literati”[1] na China e do monasticismo cristão. Weber propõe o pensamento do contraste entre os literati e sua ética religiosa contemplativa com a religiosidade indiana, que através do ascetismo cria a racionalização da sua fé, uma vez que o asceta têm suas ações voltadas para o sacrifício, afim de conseguir poderes mágicos capazes de evitar o sofrimento.

Grande parte dos religiosos do mundo
podem ser caracterizados principalmente
pela crença de que através da religião e
ao seguir a ética proposta por ela, 
será capaz de eliminar da sua vida o sofrimento.

            Além do aspecto religioso, convém lembrar que Weber, em seu pensamento de grande influência marxista e materialista originado pela revolução industrial e como consequência de crises econômicas da modernidade, tende para a finalidade de compreender, através de aspectos da subjetividade humana e seu processo de racionalização, as consequências econômicas destes, desde as implicações de sentidos interiores que impulsionam os indivíduos e que são capazes de estabelecer conexões com o social, até a formação de grupos sociais como reflexos dessa subjetividade, que geram valores a serem seguidos, e posteriormente caracterizam a economia.

            A Índia hoje é pouco analisada
e palco de misérias e 
grande desigualdade social. 

Esse cenário não surgiu de repente, ele é fruto do pensamento de um povo que, por aspectos subjetivos, optou por seguir uma ética que negava o mundo externo, negava o mundo material, voltando-se quase exclusivamente e vivendo religiosamente a ética de um mundo espiritual. Ética essa que negou radicalmente o espírito do capitalismo moderno.

            Porém, podemos nos perguntar primeiramente: Como se deu essa escolha subjetiva? Por quê o povo indiano optou pelo ascetismo, pela negação do mundo? Como se deu a racionalização da escolha subjetiva pela religiosidade, e como ela atua na esfera da realidade?

            Existem diferentes tipos de “ordens de vida”. São as chamadas esferas de valor, e por isso, necessariamente conflitam com valores que lhe sejam contrários. No caso dos indianos ascetas,esses conflitos se dão internamente e subjetivamente, e em muitos casos, são até mesmo necessários e frutos de uma possível adaptação a realidade. Daí a necessidade de construir logicamente meios para essa adaptação.

            É possível avaliar e tentar perceber como as teorias criadas racionalmente se apresentam na realidade, ou como os fenômenos sociais podem corresponder a nossas construções subjetivas. Os fenômenos históricos podem ser comparados com as teorias que surgiram antes deles, e essas teorias são frutos do pensamento que está por trás de todo e qualquer fato histórico.

            Para os indianos, o ascetismo atua como a intermediação entre conflitos internos e necessidade de contrastá-los com a realidade.
Essa intermediação surge da necessidade da coerência entre o que se pensa e faz, e isso sempre fez parte do pensamento racional e de toda ética religiosa.

            Por essas razões, o estudo Weberiano se valeu primeiramente dos meios de vida e reações práticas a essa ética religiosa, e à coerência das ações destes, que procuram se aproximar ao máximo das teorias e experiências internas, tão subjetivas. É dessa racionalização da fé indiana que ele tira a base para uma sociologia do racionalismo, a partir da pesquisa detalhada e do pensamento da sua sociologia da religião, que oferece uma base Histórica importante para essa compreensão. 

Segundo Weber, 
a História é um mecanismo da razão, 
pois por trás de todo e qualquer fato histórico
está implícito um modo de pensar coletivo
que fora gerado a princípio individualmente.

            Modos de pensar individuais, que depois de racionalizados se ligam a ações coletivas e sociais, gerando fatos históricos. Portanto, a subjetividade humana contém um processo de racionalização importante e que explica a gênese da História (em especial da História Econômica) e da construção teórica a partir desta. “É um ensaio que parte das formas mais racionais que a realidade pode assumir.”[2]

            Assim, caracterizada por uma espécie de “proteção íntima contra o sofrimento”, alguns aspectos da religiosidade exacerbada contrastam e ao mesmo tempo têm uma relação direta com interesses materiais de grupos sociais. Weber, de maneira geral, procura esclarecer de que maneira implicações de orientações religiosas podem e de fato afetam a conduta econômica dos homens.

            A religião, além da fé e seu aspecto individual, também comporta características de fenômenos sociais, como a adesão daquele que tem fé a determinados grupos. No texto são tratadas diferenças e muitas aproximações e até mesmo as consequências do pensamento religioso de negação do mundo, que resultaram em características específicas das esferas econômicas, políticas, estéticas, intelectuais e até mesmo eróticas, partindo do estudo sociológico das religiões.

            Torna-se possível, assim, compreender
como as diferenças de comportamento estimuladas
principalmente pelo ascetismo e pelo misticismo
contém conjuntos de valores e se transformam
em sentidos da ação social.

            No caso da Índia, a religiosidade inibiu o crescimento da economia capitalista, enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, a religiosidade e o crescimento da ética protestante estimularam o crescimento dessa economia. Esses são exemplos de fatos históricos e de como é possível pensar esferas econômicas a partir do pensamento religioso. Além disso, podemos refletir sobre as consequências da racionalização partida da religiosidade na estrutura de algumas sociedades, bem como de alguns fatos históricos.

Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os nazistas se valeram do “carisma” como forma de manter o poder, tal como acontece no hinduísmo, se analisarmos os Brâmanes. Estes, considerados os mais “evoluídos” e participantes de uma casta superior, através do sacrifício e do ascetismo podem “tomar posse” de uma espécie de “carisma mágico”, e a partir dele divulgar formas de sistematização da vida para outras pessoas, que só aceitam suas ideias por desejarem o fim do sofrimento individual.

            Além disso, durante a Segunda Guerra, houve a tentativa de preservação da “raça ariana”, considerada descendente dos indo-europeus, invasores da Índia e instituidores do sistema de castas, que subjugava as populações locais. Esse pensamento foi usado como discurso para que os alemães sentissem que poderiam resgatar uma parte da própria história e que eram capazes de se manterem no poder.

            Assim, a leitura de Weber nos oferece a oportunidade de avaliar os processos de racionalização a partir da ética religiosa, bem como dos conjuntos sociais que se formam através dela. Esse estudo é fundamental para compreender de que maneira, para ele, podemos pensar a história econômica, através da construção do pensamento racional, ponto de partida para a sua Sociologia da Religião e Sociologia do Racionalismo.

[1]    Literati é um termo utilizado para designar os homens de confiança dos imperadores chineses, que durante os séculos IV a VI  fugiram das cortes imperiais, afim de manterem distância dos assuntos mundanos, pois a época foi uma das mais corruptas do Império Chinês. Assim, esses homens faziam longos retiros nas montanhas e optavam por uma vida contemplativa. Socialmente, o círculo era restrito a poucos eruditos, tais como poetas, artistas, calígrafos.

[2]    WEBER, Max. Rejeições Religiosas do Mundo e Suas Direções. In: Ensaios de Sociologia, 5a.ed, Ed. Guanabara, Rio de Janeiro, 1982.  pg. 372.



Fonte:
CONSCIÊNCIA:.ORG
http://www.consciencia.org/max-weber-e-as-rejeicoes-religiosas-do-mundo-e-suas-direcoes
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

DIFICULDADES DA IGREJA NO MUNDO ACTUAL


opiniao
por
Anselmo Borges


Tudo começa com um equívoco. Hoje, quando se fala da Igreja, é numa gigantesca instituição e nos seus altos e médios hierarcas que de facto se pensa: Papa, bispos, padres. Já se esqueceu que, no princípio, não era assim, pois Igreja significava a reunião das Igrejas, entendidas como assembleias dos cristãos congregados em nome de Jesus.

Foi com Constantino e Teodósio que tudo se modificou, quando o cristianismo se tornou religião oficial do Estado e a Igreja acabou por transformar-se numa instituição de poder.

Desde então, de um modo ou outro, espreitou o perigo de esquecer a Igreja enquanto comunidade dos fiéis a Cristo, que caminha na fé e na tentativa de actualizar no mundo o reinado de Deus a favor de todos os homens e mulheres, sobretudo dos mais pobres e abandonados, para sublinhar sobretudo uma Igreja-instituição, hierarquizada e poderosa.

Quem congrega é menos Jesus 
do que a hierarquia, e a fé está mais dirigida 
ao dogma do que à pessoa de Jesus 
e ao Deus salvador. 

Depois, tenta-se o diálogo da Igreja com o mundo. Mas que pode entender-se por isso? Também a Igreja não é de facto mundo, embora mundo a partir de uma determinada visão? Pertencemos todos ao mesmo mundo, ainda que a partir de visões múltiplas e diversas. Mas, mesmo no pressuposto do diálogo, ele torna-se difícil, já que houve rupturas quase insanáveis.

Pense-se, por exemplo, que até à década de 60 do século passado se manteve o Índex, isto é, o catálogo dos livros cuja leitura era proibida aos católicos. Aí figuravam não só muitos teólogos, mas também os pais da ciência e da filosofia modernas, figuras eminentes da história, da literatura e do direito: Copérnico e Galileu, Descartes e Pascal, Bayle, Malebranche e Espinosa, Hobbes, Locke e Hume, também Kant, evidentemente Rousseau e Voltaire, mais tarde, John Stuart Mill, Comte, os historiadores Condorcet, Ranke, Taine, igualmente Diderot e D'Alembert com a Encyclopédie e até o Dictionnaire Larousse, os juristas e filósofos do Direito Grotius, Von Pufendorf, Montesquieu, a nata da literatura moderna, de Heine, Vítor Hugo, Lamartine, Dumas pai e filho, Balzac, Flaubert, Zola, a Leopardi e D'Annunzio, entre os mais recentes, Bergson, Sartre e Simone de Beauvoir, Unamuno, Gide. Com o fim do Índex, não terminaram as censuras a dezenas de teólogos, entre os quais Hans Küng, Leonardo Boff, J. Masiá, Jon Sobrino. Como se a Igreja vivesse sob o reflexo do medo de quem ousa pensar.

As dificuldades são diversas, tanto ao nível da doutrina como da própria organização. O mundo moderno pôs em causa o princípio da simples autoridade vertical, mas a Igreja tem dificuldade em aceitar a dúvida e argumentar. Ao princípio da democracia a Igreja contrapõe uma monarquia absoluta. Na sociedade civil, aos dirigentes aplicam-se denominações funcionais: ministros, reitores, directores, mas, na Igreja, o Código de Direito Canónico continua com categorias quase ontológicas: são "superiores" e até "superiores maiores", o que implica que os outros são "inferiores". Jesus tinha dito: "sois todos irmãos". Mal um padre é nomeado bispo fica o seu nome próprio precedido de "Dom", abreviatura de "Dominus" (senhor), título senhorial antiquado. Dificuldade maior é a reconciliação com o corpo, com a sexualidade e com as mulheres na sua igualdade com os homens.

Do ponto de vista doutrinal ainda hoje causa espanto que o padre Teilhard de Chardin, o cientista que tentou conciliar a fé com uma concepção evolucionista do mundo, continue sob suspeita. Mas como se pode proclamar ainda, no quadro da evolução, a visão tradicional de Adão e Eva e do pecado original? Como é concebível que dois seres apenas semiconscientes tenham cometido um pecado que estaria na origem de todo o mal do mundo?

Como é possível continuar a transmitir a ideia perversa de que Deus descarregou sobre o seu Filho na cruz toda a sua cólera, reconciliando-se desse modo com a Humanidade? Este é o nervo da questão: acredita-se, sinceramente, por palavras e obras, que Deus é Amor?
Fonte:
Diário de Notícias
Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia 22 Setembro 2007
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O MITO DA SERPENTE





O mito da serpente

A Cabala explica que, da mesma forma que Abel e Cain são a mesma pessoa, símbolos que são da dupla natureza humana. Jeová e a Serpente tentadora também são a mesma entidade em sua dupla forma.A Cabala é uma doutrina essencialmente dualística que vê o bem e o mal como forças antagônicas e contrárias, mas imprescindíveis uma à outra, o que quer dizer que uma não existiria sem a outra. Doutra forma, o demônio é o lado negro de Deus, ou seja, Demos est Deus Inversus, fórmula freqüentemente invocada por algumas seitas gnósticas. 

E Adão pôs a culpa na mulher pelo pecado que cometeu, (a aquisição do conhecimento),que por sua vez, se justificou com a sedução da serpente. E, em conseqüência, o casal terrestre foi condenado a “ganhar o pão de cada dia com o suor do rosto” e a mulher a “sofrer dores por ocasião dos seus partos.” (1)

Mito grandioso, mas freqüentemente (e injustificadamente) invocado para justificar as mais espúrias concepções sobre sexo e supremacia do homem sobre a mulher, essa descrição do “pecado original” nada mais é do que uma inspiração magistral do cronista bíblico para explicar como o homem teve o seu primeiro “insight”, isto é, como ele deu o primeiro passo no caminho da reflexão. 

Evidentemente, tal passo só poderia vir através da “sedução da serpente”, pois esse é o caminho que a energia (a serpente kundalini) percorre no corpo humano, desde os centros de manifestação prânica do indivíduo (a mente) até sua consciência externa (nervos e músculos), resultando nos atos que ele pratica no mundo dos fenômenos visíveis. 

As tradições envolvendo a iconografia da serpente como associação necessária para o aparecimento dos fenômenos mentais estão presentes na mitologia de todos os povos. 

E sua associação com a atividade sexual não é menos invocada em todas essas tradições. Verluis, explicando a relação existente entre os mistérios da iniciação egípcia e as tradições da cultura vedanta, escreve: “Prosseguindo no conjunto, no centro-terra chamado o Muladhara-chackra, a Kundalini Shakti se manifesta como uma serpente enrodilhada em torno de um falo auto-produzido (Svayaambhulinga); com efeito, a palavra kundali, significa “enrodilhado” ou in potentia, dizendo-se que ela produz o mundo fenomenal por meio do “velamento”(maya) da pura consciência de si mesma como Consciência “brotando em espiral”, espontaneamente, criando assim os “Ovos de Brahma” (Brahmanda) ao dar uma volta sobre si mesma para formar uma espiral ou laço.No simbolismo grego, derivado do egípcio, essa forma era denominada “Ovo Órfico”. Quando ela se volta sobre si mesma pela terceira vez, diz-se que é formada a estrutura piramidal (Srngataka). Tal como Isis, ela é um receptáculo daquela torrente continua de ambrósia que flui da Bemaventurança Eterna” (2)

A interpretação do simbolismo da serpente nos parece mais apropriada na obra de Madame Blavatsky. Ali ela aparece como centração de energia, como uma força que alimenta a si mesma promovendo a elevação espiritual do homem através da atividade reflexiva, formando, individualmente o espírito humano, e coletivamente uma camada energética que envolve a própria terra, semelhante à que Teilhard de Chardin chama de Noosfera. Essa camada, que constitui a soma das reflexões produzidas na humanidade, pode ser associada à chamada “consciência coletiva” de que falava Jung, pois fornece os arquétipos que alimentam o mundo sutil do espírito humano. (3)

A associação da serpente com o demônio e suas tentativas de desencaminhar o homem foi uma intuição dos teólogos fundamentalistas cristãos, que em seu cego dogmatismo, não conseguiam admitir a presença de qualquer influência pagã na doutrina de Cristo, como se ela não fosse o desenvolvimento de uma sabedoria que já tinha sido pregada anteriormente por Zoroastro, Buda, os essênios e outros fundadores de religiões. 

Com isso baniram do Cristianismo algumas de suas concepções mais originais e no lugar introduziram a estranha idéia do pecado original. Essa idéia sugere que todo homem nasce pecador pelo simples motivo de ser originário de um ato sexual, que, segundo a doutrina por eles desenvolvida, foi o pecado cometido por Adão e Eva. 

Essa é, sem dúvida, uma das concepções mais estapafúrdias extraídas desse mito grandioso. A serpente sempre foi um símbolo dos mais significativos nas antigas culturas. No Egito ela aparece em conexão com as dificuldades que a alma do morto deveria enfrentar para atravessar a Tuat e entrar no reino de Rá, mas também como símbolo do poder, representada pelas uraeus, serpentes que se alimentavam de si mesmas, significando que o cosmo gera a própria energia e com ela constantemente se renova. 

Nas antigas tradições, a serpente, tanto quanto o dragão, são símbolos da sabedoria e do conhecimento oculto. Na iconografia chinesa, temos o Fohi, dragão celeste que é composto de doze rostos e corpos de dragão, simbolizando os doze signos do Zodíaco. Segundo a lenda, esse dragão de doze rostos seriam os criadores dos homens terrestres.

Os cultos ofitas

O culto á serpente também prosperou entre os gregos. Nos Mistérios Dionisíacos, ela era representativa do poder regenerador da terra, simbolizada pelas suas trocas constantes de pele, renovando-se periodicamente. Esse poder regenerador do réptil assumia uma conotação de potência, que logo foi associada ao vigor sexual.

Clemente de Alexandria, teólogo fundamentalista cristão, fala do simbolismo fálico da serpente ao descrever as obscenidades praticantes por cultos ofistas do seu tempo. Segundo aquele filósofo, os iniciados nos Mistérios de Démeter simulavam contatos sexuais com aquele réptil para simbolizar sua união com Zeus.(4) 

Foram os gnósticos, no entanto, que procuraram harmonizar as duas formas de interpretação do simbolismo da serpente, desenvolvendo a idéia de uma serpente mística que representava tanto o tempo infinito que se escorre e se encerra em si mesmo, quanto às trevas que se seguem ao dia e recomeçam sem nunca terminar. 

Esse simbolismo era representado pelo ícone de uma serpente que morde a própria cauda, á semelhança da uraeus egípcia. Esse símbolo era chamado de Ouroboros. Mais tarde os al-quimistas adotaram a Ouroboros como símbolo da dissolução da matéria, representando os seus múltiplos estágios de transformação da matéria, sem nunca desaparecer do universo das realidades materiais. 

A esse respeito ensina ainda a Doutrina Secreta:
 
“como símbolos do Ser Imortal, 
a árvore e a serpente eram imagens divinas. 
A árvore era representada invertida 
e suas raízes nasciam do céu (...).
 
A serpente sempre foi o símbolo 
da renovação consecutiva, 
da imortalidade e do tempo. 
 
Como símbolo , tinha tantos aspectos e significados ocultos quanto a Árvore da Vida com a qual estava ligada de modo emblemático e quase indissolúvel. 
 
(...) A Árvore da Vida, 
aliás,
é uma serpente que se eleva  
(...) (5)

Assim, podemos dizer que os cultos ofitas estão relacionados com o inconsciente humano e representam a fase do réptil, que segundo reconhece a moderna antropologia psicológica, foi a primeira fase da mente humana a se desenvolver na terra.
João Anatalino
´RESENHA DO CAPÍTULO XX DO LIVRO "CONSTRUTORES DO UNIVERSO, NO PRELO.
João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 22/03/2010
Reeditado em 22/03/2010
Código do texto: T2153276

Fonte:
Recanto das Letras
http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2153276
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