sexta-feira, 23 de outubro de 2009

ÓRION - O CAÇADOR




Órion, o caçador.







Órion (Grego Ωρίων ou Ωαρίων, Latin Órion), o gigante caçador que Zeus colocou entre as estrelas  como a constelação de Órion.
A mitologia grega está cheia de detalhes e versões sobre uma mesma lenda. Dependendo da época,  da região e do autor, as lendas gregas podem variar muito, ser ambíguas ou contraditórias. Alguns autores contam que Pégaso, o magnífico cavalo alado, foi usado por Perseu para salvar Andrômeda, e Belerofonte teria conseguido as sandálias aladas de Hermes, e com elas, vencido a quimera
Já em outras edições podem-se encontrar os heróis com seus "transportes alados" trocados. 
A lenda de Órion é um outro exemplo com várias versões. Há duas versões sobre sua origem, mas inúmeras versões diferentes sobre sua vida e morte e, principalmente, sobre quem o teria matado e como. 
 Zeus, Hermes e Poseidon  teriam vindo à terra disfarçados de viajantes, para testar a bondade dos homens. Para nossa sorte, foram bater à porta de um velho solitário chamado Hyrieus, que mesmo sendo muito pobre acolheu os deuses e, sem saber de sua real natureza, tratou-os muito bem, como mandavam as tradições de hospitalidade.  Hyrieus matou um boi e assou para os deuses, dando-lhes até a comida que lhe faria falta. Comovidos com a bondade do velho, os deuses revelaram-se e lhe concederam um pedido.
Já viúvo, o velho queria muito ter um filho. Então  Zeus mandou que fizesse uma bolsa com a bexiga do touro, que os gregos chamavam de úrion. Dentro dela, deveria colocar os órgãos do animal e enterrá-la.
Hyrieus fez como Zeus havia lhe dito e da bolsa nasceu um menino. Obviamente, não era um menino normal. Órion cresceu e tornou-se um gigante. Era tão alto que poderia atravessar os mares, ainda com a cabeça fora da água, como descreve o poeta latino Virgílio, na Eneida.
"Como Órion, de espáduas fora d’água,
Rasga a pés de Nereu o imenso lago"
Órion tornou-se um exímio caçador, e com isso, chamou a atenção de Ártemis, deusa grega da caça, que se apaixonou pelo caçador. O irmão gêmeo de Ártemis, Apolo, não aprovava o namoro dos dois e enviou um escorpião gigante para matar Órion. 

O caçador e o escorpião travaram uma violenta batalha, até que Zeus resolveu intervir e colocou os dois no céu como constelações. Para evitar que continuassem lutando, foram postos em lados opostos. Assim, quando um deles está nascendo no Leste, o outro esconde-se no Oeste.

No céu, Órion é visto rodeado por animais. Ele parece estar em batalha com o Touro. 
Os dois estão frente a frente e parece que estão prestes a colidirem violentamente.  Aos pés de Órion está  a lebre, Lepus. Ao lado, os dois cães de caça que o acompanhavam: o Cão Maior e o Cão Menor. É na constelação do Cão Maior que está a estrela Sírius, a mais brilhante do céu. Sírius seria também, o nome do cão.

Órion teria se casado com Merope, uma das Plêiades, ou perseguido Pleyone, mãe destas, até Zeus intervir e colocá-las no céu.  As Plêiades são um pequeno grupo na constelação do Touro, representando seu dorso. Outro grupo presente no Touro são as Hyades, que formam sua cabeça.
Na Eneida, Virgílio fala das constelações que rodeiam Órion:
"Nem inda a noite as horas conduziam:
Da cama esperta Palinuro; explora,
Cata os ventos, fareja e escuta os ares;
Fita as constelações que resvalavam
535
No mudo espaço; as Híadas chuvosas,
Os gêminos Triões, o Arcturo observa,
E Orion de alfanje de ouro. O céu sereno
Acha; e ao claro sinal que fez da popa,
Tentando a via, os arraiais movemos"
 
De fato, as Plêiades e as Hyades são aglomerados abertos, grupos de estrelas irmãs que se formaram numa mesma região do espaço, a partir da mesma nebulosa.
As constelações, no entanto, são figuras imaginárias que formamos usando regiões escuras ou ainda, ligando estrelas que, aparentemente, estão próximas no céu, mas que de fato, estão em regiões distantes entre si. Todas as estrelas parecem estar à mesma distância de nós, mas isso deve-se ao fato de que todas estão muito distantes, mesmo as mais próximas. Cada astro que vemos (ou não) no céu está a  distâncias diferentes de nós.

Notas:
gigantes: O autor Junito Brandão escreveu entre outros, três volumes sobre mitologia grega. No volume sobre os heróis, Brandão fala sobre o conceito de "gigantismo" para os gregos. Eles consideravam Héracles (Hércules para os romanos)  um gigante. Para nós, hoje, Héracles seria um homem comum. Possivelmente, um jogador de basquete atual fosse chamado de gigante pelos gregos antigos.
A Eneida é a obra escrita pelo poeta latino Virgilio (70 AC-19 AC) sobre os vencidos na guerra de Tróia. Depois da guerra, os troianos juntaram o que sobrou de seu povo e partiram em busca de uma nova terra para viver até chegar onde hoje é a Itália. A saga dos troianos é uma "outra Odisséia" assim como a de Ulisses / Odisseu  narrada por Homero.




 PabloPicasso
 Li-Sol-30
 Fonte: Desconheço - Você sabe?
Agradeço a informação

ASTRONOMIA : Grupo Local



Grupo Local

 
A Galáxia de Andrómeda (M31) e as suas companheiras M32 e M110 fazem todas parte do Grupo Local de galáxias. Crédito: Jason Ware.

  A matéria não se distribui ao acaso no Universo. Ela surge organizada em estruturas que parecem encaixar umas nas outras, tal como se fossem as peças de um puzzle.

 Estrelas que encaixam em galáxias, galáxias que encaixam em grupos de galáxias, grupos de galáxias que encaixam em super grupos de galáxias. É a força gravítica a responsável de toda esta arquitectura do Universo, surgindo como o factor de organização de sistemas dinâmicos e em equilíbrio relativo.

 É possível verificar a existência de grupos de galáxias, constituídos por algumas dezenas de membros, que orbitam em torno de um centro de massa comum. 

Estes grupos de galáxias podem-se agrupar em super grupos de galáxias, nos quais a troca de matéria entre eles é evidente e com um interesse de estudo substancial.

É consensual definir como Grupo Local de galáxias (GL) um conjunto restrito de galáxias, incluindo a Via Láctea, que orbitam em torno de um centro de massa comum. Ao longo dos próximos textos ir-se-á tentar transmitir a ideia de como surgem organizadas estas estruturas no Universo, na qual a Humanidade se insere.

De onde surgiu o termo Grupo Local?

Edwin Hubble (1889-1953).

Immanuel Kant definiu todas as estruturas observáveis no Universo como sendo "island universes". Mais tarde, Edwin Hubble utilizou a mesma expressão para definir as galáxias análogas à nossa galáxia, a Via Láctea. Em 1936, Hubble introduziu o termo "Local Group", na obra "The Realm of the Nebulae", referindo-se a um grupo restrito de galáxias que se encontravam mais próximas da nossa do que as restantes. Hubble referenciou 11 galáxias como sendo constituintes do Grupo Local. A lista, por ordem de luminosidade decrescente, incluía: M31, a Via Láctea, M33, a Grande Nuvem de Magalhães, a Pequena Nuvem de Magalhães, M32, NGC205, NGC6822, NGC185, IC1613, NGC147. Ele também realça a galáxia IC10 como sendo um possível membro do Grupo Local.

Recentemente, devido ao projecto pioneiro "Palomar Sky Survey", lançado nos anos 50, foi possível catalogar mais galáxias pertencentes ao Grupo Local. Actualmente conhecem-se cerca de 40 galáxias constituintes do Grupo Local, embora seja difícil definir com clareza se uma galáxia pertence ou não ao Grupo Local. Por um lado, é extremamente difícil medir a distância a galáxias locais, por outro lado, algumas galáxias que se encontram catalogadas no Grupo Local crê-se que estejam apenas a passar na vizinhança deste. Outro grande obstáculo é o facto de as galáxias anãs possuírem uma baixa luminosidade intrínseca. Se considerarmos, por exemplo, a luminosidade de uma galáxia de grandes dimensões e a de uma galáxia anã, será impossível detectar a galáxia anã se as duas se encontrarem muito próximas. Tal facto seria como tentar descobrir uma lâmpada de 100W, acesa, colocada perto do Sol.

Em 2011, a Agência Espacial Europeia irá lançar a missão espacial GAIA, que terá diversos objectivos, de entre os quais destacamos: a criação do maior e mais preciso mapa tridimensional da nossa galáxia, fornecendo com uma precisão nunca antes alcançada a posição e a velocidade de deslocação radial de cerca de mil milhões de estrelas na nossa galáxia; e estudar a órbita das galáxias do Grupo Local e a sua história cosmológica.


 

GAIA catalogando as estrelas da Via Láctea. Créditos: Medialab


Ao longo das próximas semanas vamos apresentar os seguintes temas:
  • Estrutura do Grupo Local

     O Grupo Local é constituído por cerca de 40 galáxias...Antes de abordarmos concretamente a constituição do Grupo Local é necessário compreender a distinção entre grupos de galáxias e enxames de galáxias. Os grupos de galáxias possuem tipicamente menos de 100 galáxias e um diâmetro típico que ronda os 2Mpc. A massa de um grupo médio é da ordem de 5x1013Mʘ. Os enxames de galáxias possuem mais de 100 membros, podendo mesmo chegar atingir mais de dez mil, distribuindo-se ao longo de uma região do espaço com cerca de 6Mpc de diâmetro. A massa de um enxame é da ordem de 1015 Mʘ. Os grupos de galáxias são habitualmente estruturas de forma irregular, sendo que ao invés, os enxames de galáxias possuem uma fracção significativa com forma regular e aproximadamente esférica.

     
    O Grupo Local. Créditos:Wikipédia

    O nosso Grupo Local estende-se ao longo de cerca de 1Mpc de diâmetro, sendo mesmo comparável a um quintal intergalático, se tivermos em consideração as dimensões do Universo. Os seus membros mais luminosos são a Via Láctea e a galáxia de Andrómeda (M31), sendo ambas responsáveis por cerca de 90% da luminosidade total do grupo. O Grupo Local possui uma massa total da ordem de 5x1012Mʘ, sendo que mais de noventa por cento desta massa se encontra sobre a forma de matéria escura.

    O Grupo Local é constituído por duas galáxias principais: a Via Láctea e a galáxia de Andrómeda (M31). Para além destas ainda se destacam, pelas suas dimensões, a galáxia do Triângulo (M33) e as duas Nuvens de Magalhães, sendo as galáxias mais luminosas do grupo a seguir à nossa galáxia e à M31. As galáxias anãs possuem uma reduzida luminosidade, encontram-se distribuídas num volume de cerca de 9,5 mil milhões de anos-luz de diâmetro, orbitando em torno das galáxias principais, ou estando isoladas no espaço. As nuvens de gás são outro dos constituintes do Grupo Local, sendo essencialmente constituídas por hidrogénio resultante da injecção de outras galáxias. Supõe-se que a matéria escura é a responsável pela estabilidade do grupo, embora ninguém saiba exactamente o que é esta matéria escura.

     O Grupo Local é constituído por cerca de 40 galáxias...

As galáxias e os seus subgrupos



Esquema dos subgrupos de galáxias do Grupo Local
 
É possível identificar no Grupo Local a existência de quatro subgrupos de galáxias. O Grupo Local é constituído por um grupo mais central, no qual se insere a Via Láctea como galáxia principal juntamente com as suas galáxias satélite. O segundo subgrupo que engloba a M31 e as suas galáxias satélite das quais se destaca a M33. O terceiro subgrupo é essencialmente uma nuvem extensa de anãs, na sua grande maioria irregulares (dIrr). No quarto e último subgrupo destaca-se a galáxia NGC3109 como sendo a mais luminosa.

É de referir que algumas galáxias pertencem a subgrupos ambíguos. São exemplo a IC1613 e a Phoenix que pertencem ao subgrupo da nossa galáxia ou ao da M31. Igualmente a galáxia Leo A encontra-se algures entre a NGC3109 e a Via Láctea. Apenas a galáxia GR 8 não se encontra em nenhum subgrupo específico.

A Via Láctea é a maior galáxia do seu subgrupo. O seu nome advém da mitologia grega. Quando a Deusa Hera se encontrava a amamentar Hércules percebeu que este não era seu filho mas filho ilegítimo de Zeus e de uma humana, empurrou-o para longe de si e o leite derramado, deu origem à Via Láctea.

A nossa galáxia é uma galáxia espiral barrada (SBbc) que se divide em três regiões principais: o disco, a região central e o halo.

O disco possui um diâmetro de aproximadamente 30kpc e uma espessura de 600pc. É no disco que se encontra quase todo o gás e poeiras da galáxia. O disco é ligeiramente encurvado nas pontas – fenómeno de "warping". Uma estrutura bem definida que se realça no disco são os braços em espiral, os quais são regiões de activa formação estelar. O nosso Sol situa-se no braço de Órion a cerca de 30.000 a.l. do centro da galáxia. O disco possui estrelas da Pop.I que se distribuem ao longo dos braços em espiral e estrelas da Pop.II que se distribuem um pouco por todo o disco, mas preferencialmente na direcção da região central.

A região central da galáxia é uma região aproximadamente esférica com cerca de 3kpc de diâmetro. É uma região com pouco gás e poeiras. Possui um conjunto de estrelas que parecem formar uma estrutura em forma de uma barra, daí a sua designação como espiral barrada. No seu centro observa-se uma grande quantidade de gás e poeiras que se precipitam rapidamente em direcção a um ponto central, o que levou a colocar a hipótese, já confirmada actualmente, que é a existência de um buraco negro supermassivo nessa região.

O halo é a região menos luminosa da galáxia e é constituído essencialmente por matéria escura bariónica. As estrelas do halo são estrelas envelhecidas (Pop.II) e encontram-se dispersas e isoladas ou enxames globulares muito luminosos. 



Grande Nuvem de Magalhães. Créditos: AURA/NOAO/NSF
 
À medida que nos vamos afastando da nossa galáxia vamo-nos deparando com outras galáxias mais pequenas, as galáxias anãs. As Nuvens de Magalhães foram descritas pela primeira vez por Fernão Magalhães, no século XVI. A Grande Nuvem de Magalhães e a Pequena Nuvem de Magalhães, também conhecidas como LMC e SMC que advém dos seus nomes em inglês, são duas galáxias irregulares pois não têm uma estrutura bem definida. São amorfas e possuem uma forte actividade de formação estelar.

A galáxia de Andrómeda é a galáxia que mais se destaca no segundo subgrupo, sendo a maior galáxia do Grupo Local. O seu nome, Andrómeda, advém da mitologia grega, sendo a filha de Cassiopeia e de Cefeu. É uma galáxia do tipo espiral e possui uma luminosidade L~3x1010Lʘ. A distribuição espacial da M31 é maioritariamente feita por duas componentes: um disco fino sobreposto aos braços em espiral e uma componente central, esférica e extremamente concentrada, com uma espessura de rácio axial de cerca de 0,6.


M33. Créditos: Paul Mortfield, Stefano Cancelli
 
A M33 é a segunda maior galáxia deste grupo. À semelhança da nossa galáxia e da M31 é uma galáxia do tipo espiral. Pensa-se que tenha sido inicialmente descoberta em 1654 por Giovanni Hodierna (1597-1660), tendo sido mais tarde inserida por Charles Messier no seu vasto catálogo.

A IC10 é uma das galáxias anãs deste subgrupo, sendo aquela que mais se aproxima do conceito de "Starbust Galaxy", o qual consiste numa produção estelar extremamente elevada. A M32 é uma galáxia anã do tipo elíptico, na qual os astrónomos acreditam existir um buraco negro supermassivo no seu centro, baseando-se em imagens obtidas pelo HST. Usualmente as galáxias elípticas são conhecidas pela presença de estrelas vermelhas envelhecidas, porém a M32 emite grandes quantidades de luz azul e ultravioleta. A chave da resposta a este enigma pode residir no facto de que estas estrelas azuis sejam igualmente estrelas velhas, atingindo altas temperaturas através de processos avançados da fusão do hélio nos seus núcleos.

Perspectivas futuras… (28/10/2009) 
Autoria:
Sérgio Batista
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP)
Referências:
  • Mateo, Mario L (2006). “Local Group”, from Encyclopedia of Astronomy & Astrophysics. Institute of Physics Publishing Bristol and Philadelphia, ISBN:0333750888. DOI: 10.1888/0333750888/1667
  • Barnes, Joshua E (2006). “Groups of Galaxies”, from Encyclopedia of Astronomy & Astrophysics. Institute of Physics Publishing Bristol and Philadelphia, ISBN:0333750888. DOI: 10.1888/0333750888/1671
  • Wikipedia
  • Lago, Teresa (2006). “Descobrir o Universo”, Gradiva. 1ªedição. ISBN:989-616-120-8.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

HENRI - LOUIS BERGSON


Henri-Louis Bergson- 1859 - 1941
-Prêmio Nobel  de Literatura - 1927

 " A essência da filosofia é o espírito de simplicidade.
Quer encaremos o espírito nele mesmo ou em suas obras, quer comparemos a filosofia à ciência ou uma filosofia às demais filosofias, sempre verificamos que a complicação é superficial, a construção um acessório, a síntese uma aparência : filosofar é um ato simples"
                                Bergson -  Paris,  1911
                                                             
 Última página do IV Capítulo do Livro:

AS DUAS FONTES DA MORAL E DA RELIGIÃO.

" A verdade é que há uma escolha a fazer entre os resultados que a ciência psíquica nos apresenta;ela mesma está longe de os colocar a todos na mesma categoria; ela distingue entre entre o que lhe parece certo e o quew é simplesmente provável ou pelo menos possível.Mas, mesmo que se retenha apenas parte do que ela declara como certo, resta muito para que adivinhemos a imensidade da 'terra incognita' cuja exploração ela mal começa. Supomnhamos que um lampejo desse mundo desconhecido (esquecido) nos
chegue, visível aos olhos do corpo. Que transformação não haveria numa humanidade em geral habituada,não importa o que diga, a só aceitar por existente o que se vê e toca! A informação que nos viesse assim talvez só se referisse ao que há de inferior nas almas, o último grau da espiritualidade. Mas não seria preciso muito mais espiritualidade para CONVERTER EM REALIDADE viva e atuante uma crença no além que parece encontrar-se na maioria dos homens, mas que permanece o mais das vezes verbal, abstrata,ineficaz. Para saber em que medida ela significa, basta considerar como nos arrojamos ao prazer: não ficaríamos nesse ponto se não víssemos nele tanto domínio sobre o nada, um meio de desafiar a morte. Na verdade, se estivéssemos certos, absolutamente certos de sobreviver, não mais poderíamos pensar em outra coisa. Os prazeres continuariam, mas pálidos e descoloridos, porque sua intensidade seria tão-somente a atenção que fixamos neles. Eles empalideceriam como a luz de nossas lâmpadas ao sol da manhã. O prazer seria eclipsado pelo gozo.

Gozo seria de fato a simplicidade de vida que uma intuição mística propagasse no mundo; gozo ainda o que acompanhasse automaticamente uma visão do além numa experiência científica ampliada. Na falta de uma reforma moral tão completa, será preciso recorrer a expedientes, submeter-se a uma " regulamentação" cada vez mais dominante, derrubar um por um os obstáculos que nossa natureza ergue contra nossa civilização. Mas, quer optemos pelos grandes meios ou pelos pequenos, uma decisão se impõe.

 A humanidade geme, meio esmagada sob o peso do progresso que conseguiu. Ela não sabe o suficiente que seu futuro depende dela. Cabe-lhe primeiro ver se quer continuar a viver. Cabe-lhe indagar depois se quer viver apenas, ou fazer um esforço a mais para que se realize, em nosso planeta refratário, a função essencial do universo, que é uma máquina de fazer deuses."
Henri Bergson

AS DUAS FONTES DA MORAL E DA RELIGIÃO - (CAP. IV )
Os Pensadores - 1979 - Editor: Victor Civita - Abril Cultural


      O Universo é uma máquina de fazer deuses!
 Pablo Picasso
 Li-Sol-30

                   AS DUAS FONTES DA MORAL E DA RELIGIÃO - (CAP. IV )
               Os Pensadores - 1979 - Editor: Victor Civita - Abril Cultural