sábado, 16 de março de 2013

DARWIN E DEUS - Reinaldo José Lopes




Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, 

ciência, religião e a terra de ninguém entre elas




Por que diabos juntar Darwin e Deus?




É um prazer estender o tapete vermelho e dar as boas-vindas a você, mui gentil leitor. Este é um blog que vai se dedicar a explorar a relação entre ciência e religião de modo geral, as conexões entre a teoria da evolução e a fé religiosa de modo mais específico, e — pelo bem da minha sanidade mental (hehehe) —, simplesmente celebrar a beleza e o poder explicativo da biologia evolutiva, às vezes (e espero que sejam muitas vezes).

Talvez você já tenha me visto enfiar a mão nessa cumbuca em outros carnavais. Quando era repórter do portal “G1″, eu tinha duas atribuições semanais (que pra mim eram complementares, mas talvez soassem contraditórias pra muita gente): mantinha o blog “Visões da Vida”, que acabaria dando origem ao meu livro, “Além de Darwin”, sobre evolução; e produzia reportagens para a seção “Ciência da Fé”, inventada por este seu criado e justamente destinada a lançar um olhar científico sobre o passado e o presente das religiões. 

Achei que estava na hora de juntar as coisas de forma mais coerente e, graças à boa vontade desta Folha, ei-las aqui — pra vocês verem que esse papo de “a vida ensina” nem sempre funciona.

Digo isso na base da brincadeira, assim como meus colegas da editoria de “Ciência+Saúde” brincaram dizendo que o presente blog ia virar o maior ímã de “hate mail” (e-mails raivosinhos e comentários vociferantes) da história do jornalismo científico brasileiro. Eu me acostumei a tomar muita porrada por lidar com esses temas no “G1″, e não vejo por que seria diferente aqui. As pessoas simplesmente não gostam de misturar essas estaçõesO que talvez seja a principal razão para misturá-las, diga-se de passagem.

OBJETIVIDADE?
Se existe alguma coisa a respeito da qual eu sou agnóstico tendendo a ateu, ela se chama objetividade jornalística. Não acho que seja possível assumir uma postura de distanciamento olímpico diante dos assuntos que realmente importam e, por isso, quero deixar meu ponto de vista claro antes de explicar por que diabos escolhi a temática desse blog. Tenha paciência comigo.

Sou católico, do tipo que só não entrou pro seminário porque queria ser marido e pai (beleza, ainda dá pra tentar ser diácono quando eu me aposentar). Minha compreensão dos artigos básicos da minha fé é basicamente ortodoxa. Ao mesmo tempo, desde que me entendo por gente, a complexidade e a beleza das coisas vivas e, em especial, da história delas, dos dinossauros aos australopitecos e neandertais, sempre me cativou. Cheguei a me matricular no curso de biologia da Universidade Federal de São Carlos antes de me decidir pelo jornalismo porque “dava mais dinheiro” (ingêêêênuo!).

Também sempre fui fascinado com o que a investigação científica independente era capaz de dizer sobre a história da minha religião e a de outras (embora, claro, ache escavações arqueológicas em Israel mais interessantes do que as que acontecem num antigo centro do budismo, digamos). Tive a sorte de ser criado numa tradição religiosa que — por mais problemas que tenha — nunca me pediu para escolher entre o “Livro de Deus” e o “Livro do Mundo”.

Mas uma série de outras tradições religiosas não são tão generosas (ou “permissivas”, “degeneradas” etc. dependendo da sua perspectiva), e esse é um problema que, na minha modesta opinião, tem de ser enfrentado o quanto antes. Deixe-me tentar explicar o porquê.

“A VERDADE VOS LIBERTARÁ”
Em primeiro lugar porque, deixando o tucanês de lado, a teoria da evolução é simplesmente… verdadeira. Tão apoiada em fatos e observações quanto a gravidade, embora não seja uma lei (nem poderia, já que descreve e explica fenômenos multifacetados demais para serem resumidos numa equação). Deal with it – chupa essa manga (sem conotações obscenas, por favor, este é um blog de família). Quem se nega a entender ao menos o mínimo da biologia evolutiva — pior, simplesmente cobre o canal auricular e fica dizendo “eu não estou ouvindo, eu não estou ouvindo” — está perdendo um pedaço crucial do quebra-cabeças do Cosmos por medo. Está se recusando a apreciar Mozart, ou os Beatles, ou Camões — porque poucas coisas são mais elegantes, mais ferozmente bonitas, na sinfonia da natureza, do que a evolução.

É preciso reconhecer, também, a seriedade do desafio trazido pela biologia evolutiva a algumas concepções religiosas tradicionais. Não dá para se agarrar a cada vírgula da Bíblia como a verdade literal (até aí, todos os pensadores mais sofisticados da história do cristianismo concordariam, isso desde os primeiros séculos, de Orígenes a Santo Agostinho). Não é sem alguma criatividade teológica que se consegue acomodar o acaso e o sofrimento inerentes à seleção natural com as visões tradicionais sobre a centralidade do homem na “Criação” ou o significado da morte e do mal no mundo. As respostas fáceis rareiam.

Ao mesmo tempo, toda vez que Darwin é representado popularmente como “o homem que matou Deus”, dá vontade de enfiar a cara numa almofada de tanta vergonha alheia. E não é nem porque esse assassinato por encomenda não estivesse nos planos do nosso ícone barbudo (não estava), mas porque, para quem acredita numa divindade transcendente, “além dos círculos do Mundo” (só para citar Tolkien), os mecanismos que regem a natureza  não revelam grande coisa a respeito de quem é, por definição, sobrenatural.

A última razão é pragmática, mas importante. Entre religiosos e não religiosos, devotos de Cristo ou sequazes de Darwin, é preciso achar um “modus vivendi” — ou, ao menos, um “modus non moriendi”, se não um jeito de viver juntos, ao menos um jeito de não morrer juntos.

Se continuar sendo honesta com os fatos, a ciência não vai abandonar a teoria da evolução. Ao mesmo tempo, a religião não vai ser varrida do mapa. Uma sociedade polarizada e incapaz de dialogar sobre os temas fundamentais é ruim para todo mundo. É melhor aprender a ouvir e, no mínimo, tentarmos nos concentrar no que nos une, e não no que nos separa.

PROGRAMA DE GOVERNO
Dito isso, nobre leitor, que temas você pode esperar encontrar neste blog?

1)Estudos sobre como a evolução moldou nossas propensões para a religião — ou mesmo para o ateísmo, por que não?

2)Estudos sobre arqueologia, história, psicologia, neurobiologia etc. das religiões e do fenômeno religioso;

3)A velha mas sempre atual discussão política sobre ensino de criacionismo nas escolas, diálogo entre cientistas e líderes religiosos, temas (como a bioética) que levantam reações acaloradas de ambas as partes etc.;

4)E pura e simplesmente o que há de melhor e mais atual na pesquisa sobre evolução.

E acho que já passou da hora de me despedir. Obrigado a quem chegou até aqui. Até breve,

Reinaldo.



Perfil Reinaldo José Lopes 
é jornalista de ciência e autor do livro Além de Darwin
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  1.  
    Olhodehorus comentou em 07/03/13 at 9:50 pm Responder
    1) Não concordo com o que você na primeira alternativa. A religião está no sangue do ser humano, da mesma forma que acontece com a comunicação por exemplo. Pesquise e veja que em todo canto da terra ou do universo onde existam seres inteligentes eles estão sempre se comunicando e buscando uma religação com um algo maior… Tudo que Chomsky diz sobre a origem da linguagem também é perfeitamente válido para religião ou para a espiritualidade.

    Mas, claro, a comunicação vem se desenvolvendo muito ao longo dos tempos, a religião não, está estagnada… Jung teve perfeita consciência desse fenômeno. E se a natureza teve uma razão para criar a comunicação, também deve ter tido alguma para criar a religião, como disse Jesus: “até os seus fios de cabelo são contados.”

    Duvida de mim? Me diga então, porque motivo lógico alguma criatura inteligente iria perder tempo se preocupando com algo que NÃO existe? Por que os ateus tem sempre um tão imenso problema com deus? Deus não existe! se preocupar com algo que não é existe é desperdício de energia, sinceramente! Se existe algo ligado a deus, e que atrapalhe a sociedade, no caso, a religião, aí sim, vou me preocupar com esse algo… mas veja que não é o caso dos ateus, a palavra não é “irreligiosidade” mas “ateísmo”. Eles são quase velhas encalhadas que ficam virando o santo de ponta cabeça até que ele atenda o seu pedido de casamento.

    Pretendem ficar lutando contra deus todos os dias de suas vida até que ele venha e se revele pro mundo. É mais do que simples ceticismo, um verdadeiro cético jamais acreditaria em TUDO quanto é oferecido pela ciência ou pela religião, o certo é sempre se utilizar a sua capacidade de discernimento. Acreditar em tudo é tão estúpido quanto duvidar de tudo, de qualquer forma a necessidade de pensar é dispensada. E fora que é perfeitamente possível se usar a ciência pra mentir, Hitler usou e abusou desse poder.

    • Jorge Luiz Sperandio comentou em 08/03/13 at 11:56 am Responder
      A “sorte” de Deus foi que Jesus o salvou. Não fosse o Salvador, teríamos que pensar em Deus como uma ” teoria”.

      • Olho de Hórus comentou em 08/03/13 at 8:23 pm Responder
        Será que Jesus foi visitar os povos indígenas da austrália e da áfrica também? E existe uma tribo na amazônia que até hoje jamais ouviu falar do homem branco, não teve qualquer contato com os homens civilizados mesmo nos dias de hoje, é a única tribo no mundo nessa condição… mas, será que Jesus foi lá reavivar a fé deles também?
        Religião é igual a comunicação, só muda o lado do cérebro em que cada processo ocorre. E não limite seu ateísmo apenas a deus não, o mundo espiritual em que nós acreditamos é bem mais amplo do que só isso.

  2. Jorge Luiz Sperandio comentou em 09/03/13 at 10:41 am Responder
    Ok. Quando digo Deus, Jesus e Salvador, me refiro a um segmento da religiosidade e não a ela como um todo.
    E, se a pergunta for, como este segmento trata o todo (?), talvez a melhor reposta seja a de que o Salvador atribua esta tarefa ao homem: a de compartilhar o conteúdo que apresenta a todos os povos.
    Não haveria sentido qualquer comunicação de religiosidade se quem ouve não tivesse propensão para entender aquele que fala. E se Deus fala ao homem é porque ele (o homem) sabe do que Ele (Deus) quer falar.


  3. Arkis comentou em 09/03/13 at 4:47 pm Responder

    Cientistas ainda vão pesquisar por muito tempo a hipotese da evolução. Ainda vão esculpir muitos elos perdidos, vão datar muitos fosseis baseados em rochas em rochas que são datadas pelos fosseis que são encontradas nelas, muita mas muitas histórias serão escritas.
    Mas a verdade é que Darwin está errado desde o princípio quando ele disse que o registro fossil mostraria a evolução. Não mostra, ja sabemos disso.
    Alem disso, meu cerebro não consegue acreditar em:
    NADA + TEMPO + ACASO = TUDO QUE EXISTE!
    Um dia o design inteligente de todo universo vai mostrar a eles que nada existiu, existe ou existirá sem um proposito. Leis e ordem dependem de intelecto, que não pode surgir expontaneamente.
* Segue....mais outros virão...


(meu comentário)
Uma brinc-adeir-a repentista 
 E o peixe sabido 
faminto de novidade engole Darwin
O peixe faminto engole Darwin
cria pernas e dana andar
na cabeça do pobre diabo de olho travado
ouvido entupido de rasas lições
 - medonhos ditos, falácias
enganosas andejas - nas cavernosas patenas
do sacro ofício alheio dos sangrentos  rituais
 de cordeiros, óstias e bestas 
tudo aromátizado na letra de muito incenso.

 O peixsabido engole Darwin
cria pés e dana andar  - e perna para quem tem...
na cabeça ora pensante
que duma tacada só
vai pôr no mesmo sem fundo balaio 
palavras enigmáticas
escrituras impositivas,
  histórias do arco-da-velha
com tramas de santidade
justificadas nas guerras
-  insanas desde a origem.

Impositivas  tramóias eternas   
forjadoras de reis e reinados
de súditos já calejados 
- obedientes revoltados
na luta do sobreviver
assim ou assado . 
E o milagre acontece:
Terra e Mar de mãos dadas
debaixo de raivosos ventos
de nuvens turbilhonantes
regidos na maestria
da luminária de quinta - categoria do Sol
- comandante amoroso
faz rolar manto de nuvens
no compasso destemidas
trombam em muitos raios
estrondos de acordar
multidão cega e surda
amontoada em cavernas, sítios e cidades
fincadas de qualquer jeito
sobre áreas movediças
réplicas de  mentes afoitas
apregoadas suportes
doadoras do passaporte 
de livre penetração
no reino do bem viver.
Sai pra lá satanás
enganador de inocentes
 de pobres desavisados
metidos em tantos coitos 
- coitados de vez e de fato 
nesse mundo de Deus.
Falta pro peixe de pernas
um detalhezinho maneiro
- um par de asas bem fortes
dinâmicas e libertárias.
E o peixinho dançante
sai do abismo, avista o sol
deita na praia quente
já com o rabo  quarado
ardente e fogoso sai
busca sombra disparado
nas florestas do mundo.
O resto da história sobrou pra Darwin:
adentrar nos detalhes
da correntes de mil enígmas
nos filos de toda espécie.
 O novo barbudo emplumado
mira-se  no seu espelho
 entra de cara na audácia
no pensar que seu escrito fecha
toda e qualquer questão nascida
nesse mundo aonde, ele, Darwin ,
se elege
ser único e o próprio autor. 

 
E o milagre acontece ?
 ou vai nessa lenga-lenga arrebanhar mais guerreiros
sedentos da vera verdade? 
Ade

 Fontes:
 http://darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/2013/03/06/por-que-diabos-juntar-darwin-e-deus/#comments
 

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