quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PLATÃO E A MEDICINA - FIOCRUZ

Platão e a medicina*

Plato and medicine

Rodrigo Siqueira-BatistaI;
Fermin Roland SchrammII


RESUMO
A medicina e a filosofia são saberes que experimentaram influência mútua na Grécia Antiga, a qual foi decisiva para a constituição e o desenvolvimento de ambas. Um dos pontos altos desta interrelação tomou forma no pensamento do filósofo Platão (427-347 a.C.), considerado o maior pensador da tradição ocidental. Discutir o alcance da reflexão platônica sobre os mais diferentes aspectos da medicina de seu tempo é o escopo do presente artigo.
Palavras-chave: medicina, filosofia, Platão.

ABSTRACT
Medicine and philosophy are branches of knowledge that had decisive influence on each other in the time of Ancient Greece, shaping the development of both. A landmark of this interrelationship was the thought of the philosopher Plato (427-347 A.C.), considered the greatest thinker in Western tradition. The text discusses how Platonic reflection reached into the most varied aspects of medicine in the philosopher's days.
Keywords: medicine, philosophy, Plato.


Introdução
As relações entre filosofia e medicina na Grécia Antiga são muito íntimas e fecundas, remontando aos séculos VI ao IV antes de Cristo (Cornford, 1989, pp. 3-16), quando ambos os saberes se influenciaram mutuamente, em uma autêntica via dupla. Nesse contexto, podem ser encontrados vários elementos do pensamento pré-socrático (séculos VI e V a.C.) no repertório das doutrinas médicas hipocráticas, como por exemplo o conceito de natureza 1 dos pensadores originários, cujas implicações foram abrangentes e radicais nas concepções de uma 'natureza do homem' — (Siqueira-Batista, 2003b, pp. 145-6). Por outro lado, a medicina também imprimiu sua marca profunda no pensamento filosófico, ganhando este fato grande amplitude na obra de Platão, cujas reflexões tocaram muitos aspectos do fazer médico grego no período clássico.

Do erudito ateniense provém o testemunho antigo mais famoso sobre o Hipócrates histórico — no diálogo Fedro (Platão, 1950, passo 270c-d) —, em excerto que contém uma explanação sobre o método empregado pelos médicos da Escola de Cós (Frias, 2001, p. 87-110). Ademais, em várias obras platônicas há referências à constituição humana — uma questão que interessava simultaneamente a médicos e filósofos —, como em A República e no Timeu, diálogos nos quais são apresentadas idéias sobre o corpo e a alma do homem, enfatizando seus estados de saúde, doença e a própria morte e seu processo (idem, 2002, p. 84). 

São também dignas de menção as preocupações terapêuticas em relação ao corpo e à alma, como as "belas conversas" citadas no Cármides (Platão, 1988, passo 157a), a educação mencionada como curativa e reparadora no Timeu (Frias, 2002, p. 127) e a crítica aos métodos de tratamento empregados por Heródico de Mégara no Livro III de A República (Siqueira-Batista et al., 2004).
Nesse aspecto, um breve sobrevôo sobre as 'preocupações médicas' da filosofia platônica poderia contribuir para as reflexões sobre os problemas inerentes às relações entre medicina e filosofia. Este caminho é precisamente o escopo do presente artigo.

Platão: vida, obra e questões filosóficas
Platão é, indubitavelmente, um dos filósofos mais importantes da história do Ocidente. Nascido na pólis de Atenas em 427 a.C., Platão era filho de Aristo e Perictona, sendo descendente do grande reformador Sólon por parte de mãe e do rei Codro, fundador da cidade, pelo lado paterno (Chauí, 2002, p. 212). O filósofo foi um escritor prolífico e de grande elegância; sua obra se distribui em diálogos — um 'estilo' de expressão filosófica — nos quais se articula seu pensamento conhecido em textos de grande beleza.2 Sem embargo, em uma de suas obras, a Carta sétima, Platão comenta que seu verdadeiro pensamento — ensinado dentro dos muros da Academia — não se encontrava presente em seus escritos, os quais trariam informações de 'menor' relevância em relação à totalidade de sua obra (idem, ibidem, p. 219).

Desde o fim do século XVIII admite-se que todo o maravilhoso conjunto da obra platônica possui uma intrínseca perspectiva evolutiva de sua filosofia, sobretudo após os trabalhos de Schleiermacher (Jaeger, op. cit., pp. 582-4). A partir de então uma série de estudos foi desenvolvida neste âmbito, como é o caso da estilometria de L. Campbell, na qual características de estilo foram identificadas ao se compararem as Leis com outros diálogos da obra platônica. Foram então reunidos os textos do 'fim da vida' de Platão, constituindo os chamados diálogos da velhice. Assim, pois, que uma das formas para se organizar a obra do ateniense — inspirada na estilometria — distingue os diálogos da juventude — ainda sobre influência de Sócrates — daqueles da maturidade e da velhice, conforme apresentado a seguir (em ordem alfabética dentro de cada categoria):

Juventude: Apologia de Sócrates — defesa de Sócrates (em relação ao seu julgamento no tribunal de Atenas); Críton — elogio à moral socrática; Cármides — sobre a prudência; Crátilo — sobre a lin-guagem; Eutidemo — contra a erística; Eutifron — sobre a piedade; Górgias — sobre a retórica como falácia; Hípias menor — sobre a falsidade; Hípias maior — sobre a beleza; Ion — sobre a Ilíada ou os poetas; Laques — sobre a coragem; Lisis — sobre a amizade; Menexeno — sátira contra a retórica; Mênon — sobre a virtude e o saber (este diálogo é considerado o primeiro a abordar a doutrina da anamnesis, ou seja, da reminiscência); Protágoras — sobre o ensino da virtude.

Maturidade: Banquete — sobre o amor; Fédon — sobre a imortalidade da alma; Fedro — sobre a linguagem e a retórica; A República — sobre a justiça (neste diálogo Platão constrói sua idéia de pólis perfeita); Parmênides — sobre o ser; Teeteto — sobre o conhecimento.

Velhice: Crítias — considerada uma obra inacabada, delineia um estado agrário como ideal (figurado como Atlântida); Filebo — sobre o prazer; Leis — sobre o ideal político; Político — sobre a monarquia; Sofista — contra os sofistas; Timeu — sobre a natureza (física e cosmologia platônicas).

São também consideradas como pertencentes ao corpus platônico três cartas: a Terceira, a Sétima (a mais conhecida) e a Oitava. Diálogos como Alcibíades I e II, Anterestai, Clítofon, Hiparco, O filósofo, Mino e Teages, bem como outras dez cartas que permanecem como obras de autenticidade duvidosa.

A filosofia platônica, em seu cerne, emerge de um esforço do ateniense para compor duas grandes influências por ele experimentadas: a socrática (sobretudo na primeira fase de sua obra; veja-se diálogos como Apologia, Críton, Eutífron, Laques, Cármides, Lísis, Protágoras e Górgias) e a pitagórica, presente desde os 'primórdios' da maturidade (textos como A República, Mênon, O Banquete, Fédon e Fedro. Pode-se dizer que o conceito de alma apresenta um papel central no pensamento de Platão: ela é a causa geral da vida (Platão, 1956, Notice, p. 39) e o centro da moralidade (Cornford, 2001, p. 54), além de nela estar centrada toda a possibilidade de conhecimento (Platão, 1977, passo 30c), tal como o apresentado em vários diálogos (Cornford, 1989, pp. 71-99). Ademais, são as questões relativas à alma humana — e a sua relação com o corpo — que se tornam capitais nos aspectos da filosofia platônica referentes à medicina. Assim ocorre, pois, no Timeu, texto no qual são apresentados aspectos da constituição da alma e do corpo humanos, ou seja, em que é investigada a natureza do homem em sua íntima ligação com a totalidade cósmica. Assim, para H. Bittar (1977, p10):
...o Timeu nos fala da ordem do mundo, mostrando-nos que os princípios dessa ordem regem também o homem. Toda a organização da pólis descrita na República, que vai ser agora colocada em ação, constituindo tal projeto o objeto geral da trilogia, foi fundada na natureza do homem. Mas esta, por sua vez, funda-se na própria natureza do Universo, pelo que se impõe começar pela origem do Universo, investigando-se as causas de sua harmonia e passando, daí, para a origem do homem e a harmonia que deve reger sua alma.
O diálogo se inicia com uma referência ao mito de Atlântida e, em seguida, passa à explanação sobre a origem do cosmo — o qual teria sido fabricado por um demiurgo, por meio da contemplação de Idéias Eternas —, sendo perscrutadas suas leis e sua organicidade.3 À semelhança do homem, o cosmo é vivo — concepção presente também no Filebo (Platão, 1941, passo 29a-30a) — e racional (Platão, 1977, passo 30c), sendo constituído por um corpo e uma alma. Todavia, uma importante distinção a ser feita refere-se à inexorabilidade da ligação do cosmo à sua alma — ambos se mantêm unidos de forma perene —, em contraposição ao humano, no qual a coalizão corpo-alma é efêmera, ocorrendo sua dissolução quando sobrevém a morte.

A alma humana foi construída com as 'sobras' utilizadas na preparação da alma do mundo, sendo composta por duas porções: uma imortal e outra mortal. A primeira é a sede da vida, sendo aquilo que anima e mantém o corpo — assim como a alma do mundo é a mantenedora do cosmo —, localizando-se na cabeça (Frias, 2002, p. 103). A alma mortal é repleta de paixões terríveis e fatais (Platão, 1956, passo 69c-d), sendo subdivida em "irascível" — situada no tórax, relacionada à coragem mas também à cólera — e 'concupiscente' — alocada na região umbilical, sendo relativa aos apetites, desejos, prazeres e dor. A alma humana é assim tripartida: racional (imortal), irascível e apetitiva (as duas últimas mortais).

À alma imortal pertence à possibilidade de conhecer, de acordo com o que é discutido no Mênon. Aquilo que é o real — as Formas ou Idéias — é o verdadeiro objeto do conhecimento, apreensível pela alma imortal, conforme explicitado em A República.4 As Formas eternas — ingênitas, indestrutíveis, intangíveis e paradigmáticas — compõem o mundo genuinamente real e transcendente que, se contemplado por uma alma capaz, pode proporcionar um conhecimento verdadeiro e duradouro. É com essa articulação que Platão funda uma genuína cognoscibilidade. A alma imortal conhece o real pela contemplação das Formas eternas, antes mesmo do nascimento (ou encarnação) para esta vida, ou seja, ele é a priori, como está apontado no Fédon (Platão, 1979a, passo 100a-b).

Ora, se o conhecimento é obtido pela contemplação das Formas eternas, existe a possibilidade de que ele brote na intimidade do homem, desde que este se lembre do que viu, ou seja, desde que rememore o passado. A rememoração é uma instância modelar da narrativa mítica, tendo participação decisiva na cultura helênica (Siqueira-Batista, 2003a; Vernant, 1973, pp. 305-7). No caso dos aedos gregos, a recordação está relacionada à participação das Musas . Sem embargo, no pensamento de Platão, a perspectiva é deslocada de uma instância extrínseca — a revelação das musas — para a intimidade daquele que conhece, ou seja, consiste em um atributo da alma imortal. Uma passagem exemplar acerca desta questão é encontrada no Mênon, conforme o excerto a seguir:
Sendo então a alma imortal e tendo nascido muitas vezes, e tendo visto tanto as coisas [que estão] aqui quanto as [que estão] no Hades, enfim, todas as coisas, não há o que não tenha aprendido; de modo que não é nada de admirar, tanto com respeito à virtude quanto ao demais, ser possível a ela rememorar aquelas coisas justamente que já antes conhecia (Platão, 2001, passo 81c).
Neste diálogo, Sócrates procura convencer Mênon de que realmente o conhecimento já se encontra na alma imortal. Para isso, utiliza um dos escravos de seu interlocutor, submetendo-o a um interrogatório sobre um problema geométrico.5 O escravo, após chegar a algumas conclusões equivocadas, é novamente argüido, até que finalmente alcança a solução do problema. Com isso é demonstrado que, a despeito de não ter sido submetido a um aprendizado formal, um homem — no caso um escravo — pode ser capaz de resolver problemas complexos, desde que seja 'orientado' por um repertório correto de indagações. Essas perguntas permitem que a resposta correta seja 'parida', em concordância à analogia estabelecida no Teeteto entre o método socrático e a atividade de uma 'parteira' — 'daí maiêutica'. De onde viria tal conhecimento? Da própria alma,6 seria a resposta platônica, sendo evocado a partir da
No Ménon a teoria da Anamnesis foi apresentada para fugir ao dilema sofístico: ou conhecemos uma coisa, e então não há necessidade de a procurar; ou não a conhecemos, e então não podemos saber o que procuramos. O dilema pressupunha uma única alternativa, ou o conhecimento completo ou a ignorância total. A Anamnesis fornece graus de conhecimento entre estes dois extremos (Cornford, 1989, p. 82).
Além da possibilidade de conhecimento, a contemplação das Idéias por parte da alma platônica encerra um genuíno conteúdo moral. Sócrates pontuava que se os homens fossem libertados dos preconceitos e das falsas convicções poderiam vislumbrar a verdadeira finalidade da vida. Assim, pois, aquele que atingisse o Bem não poderia deixar de fazê-lo. Exatamente esta apreensão dependia da contemplação das Idéias eternas pela alma imortal, propiciando um incontornável esteio moral, como analisa F. M. Cornford (idem, ibidem, p. 74):
... tratava-se antes de uma Teoria das Idéias para regular a conduta moral. ... Constituem, sim, um mundo comum a todos nós, mas que é independente de todos nós. São [as Idéias], afinal, os objetos absolutos do conhecimento socrático de que toda a virtude depende (grifo nosso).
A alma é, pois, a instância imortal e mais importante do ser humano, representando a sede do verdadeiro conhecimento e da conduta moral — isso atrelado à contemplação das Idéias perfeitas (Cherniss, 1990, pp. 109-10; Frias, 2001, p. 108).
Para Platão, uma alma saudável é aquela que se compraz na justiça (Platão, 1987, passo 444d), tal como discutido em A República. Sem embargo, há circunstâncias nas quais a alma pode se tornar enferma — por influência de distúrbios do corpo, afinal a alma imortal é o que o homem tem de divino; assim sendo, não seria factível que na própria alma imortal tivessem origem suas moléstias —, como se apresenta a seguir.

A medicina: relações e digressões corpo-alma
A filosofia platônica demarca uma nítida preeminência da alma sobre o corpo. Entretanto, este não foi negligenciado pelo ateniense — por exemplo, a ginástica era uma das atividades importantes da Academia —, merecendo destaque em alguns dos diálogos, marcadamente no Timeu. Corpo e alma — assim como tudo que existe no cosmo — são constituídos por quatro elementos: fogo, água, ar e terra. Estes, em última instância, podem ser decompostos em figuras geométricas: o fogo em tetraedros, a terra em cubos hexagonais, o ar em octaedros e a água em icosaedros. Estas formas podem ser ainda reduzidas a triângulos retângulos isósceles e retângulos escalenos. Pelo rearranjo dos triângulos seriam compreendidas as transformações dos corpos, com grandes implicações sobre sua durabilidade e desagregação.

No entanto, as relações entre corpo e alma não se limitam à identidade constitutiva — triângulos. Platão explica no Timeu o funcionamento de diferentes órgãos — como o coração, o fígado, o baço e os intestinos —, os quais têm suas fisiologias atreladas à função da alma — ou seja, cada segmento anatômico refere-se à finalidade da alma que lhe corresponde —, talhando aquilo que I. M. Frias (2002, p; 107) chama de "organicismo psicológico".7 

Ademais, o filósofo esclarece que a ligação da alma com o corpo é feita pela medula , como o estabelecido por L. Brisson (1988, p. 429): "Na medula cervical está fixada a espécie imortal da alma humana e na medula espinhal a espécie mortal e, por conseqüência, suas duas subespécies."
Com base nestes aspectos anatomo-fisiológicos, Platão constrói sua fisiopatologia, distinguindo as doenças do corpo e da alma. As enfermidades somáticas podem ocorrer por 

(1) desequilíbrio dos seus elementos constitutivos — fogo, terra, ar e água; 

(2) por corrupção dos tecidos do corpo — a carne, os nervos, o sangue, os ossos e a medula; e 

(3) pelo ar e por humores — bile e flegma. É digno de nota que a teoria humoral empregada por Platão no Timeu tem inspiração na doutrina hipocrática (Siqueira-Batista, 2003a). 

Há contudo importante diferença entre uma e outra concepções. No tratado Da natureza do homem são descritos quatro humores constitutivos de todos os indivíduos — sangue, flegma, bile amarela e bile negra —, que, mantidos em equilíbrio, preservam o estado de saúde. Para o filósofo tais humores surgem a partir da decomposição dos tecidos, o que os torna nocivos, implicando portanto a necessidade de que sejam eliminados para a perpetuação da sanidade.

As doenças da alma podem ser apreendidas como genuínas doenças morais (Frias, 2001, pp. 35-7), sendo genericamente chamadas de 'demência', situações nas quais há um bloqueio na ação da alma racional, a qual não consegue mais exercer domínio sobre a alma mortal. A demência pode ser de dois tipos: ignorância e loucura, as quais têm diferentes causas, conforme o apresentado no Timeu:
Por conseguinte, toda afecção que provoca em alguém uma dessas perturbações deve ser chamada doença, sendo forçoso reconhecer que os prazeres excessivos e as dores fortes são as mais graves doenças da alma. ... Contudo, quando a semente se acumula em excesso na medula, a ponto de transbordar, à maneira de uma árvore carregada de frutos, então seus desejos e suas conseqüências lhes ensejam, em cada ocasião, não apenas prazeres como também sofrimentos em grande cópia, e muito embora se comporte como um louco quase toda a vida, por causa das dores e dos prazeres excessivos, vindo a adoecer e embotar-se-lhe a alma por causa do corpo, ninguém o considera doente, mas vicioso por própria deliberação (Platão, 1977, passo 73b; grifo nosso).
Aqui sobressaem alguns elementos da maior importância. Os excessos são deletérios à saúde da alma, promovendo a loucura — como na intemperança sexual, secundária ao aumento da produção de sêmen na medula (Platão, 1956, passo 86b-e) —, doença passível de tratamento, mas não de censura para aquele que sofre. Esta idéia está de acordo com o conceito, defendido por Sócrates em vários diálogos platônicos, de que ninguém é mau deliberadamente, por força de sua própria vontade. Assim, pois, no Sofista, Platão (1979b, passo 230a) afirma que: "... toda ignorância é involuntária, e aquele que se acredita sábio se recusará sempre a aprender qualquer coisa de que se imagine experto."

De modo similar, se lê nas Leis: "... ninguém é intemperante por deliberação própria, pois é sempre por ignorância ou por não saber dominar-se ou por ambas as causas ao mesmo tempo, que a grande maioria dos homens não pratica a temperança" (Platão, 1980, passo 734b).
Isso abre a perspectiva para que uma conduta moral tenha como substrato um distúrbio fisiológico (Joubaud, 1991, p. 183). Uma outra origem para a loucura reside na produção de humores deletérios — bile e flegma — secundários à decomposição do corpo, os quais mesclam seus vapores aos movimentos da alma, produzindo tristeza, audácia, covardia e esquecimento, entre outros (Platão, 1977, passo 86e-87a).

A ignorância tem sua origem em dois aspectos — má constituição corporal e educação ruim —, os quais poderiam ser vistos na medicina contemporânea como caráter genotípico (constitutivo) e participação ambiental. Assim, homens somaticamente defeituosos e expostos a uma educação imprópria são propensos à ignorância; se, no entanto, o processo educativo é adequado, é possível que tais homens superem sua má constituição, tornando-se justos (Frias, 2002, p. 127). Nesse sentido, o homem é também um produto da sociedade na qual vive, de tal modo que uma enfermidade social se torna capaz de promover o adoecimento individual (Brisson, op. cit., p. 454).

Há de se mencionar, em relação à ignorância, a possibilidade de que esta ocorra por uma "queda da alma no corpo" (Platão, 1977, passo 43b). Esta situação decorre de problemas ocasionados na alma à época do nascimento, uma vez que, ao 'cair no corpo', a alma passa por um processo anárquico, que paulatinamente é substituído pela harmonia de suas revoluções. Distúrbios desses primevos momentos geram alterações nos círculos da alma — bem como nas revoluções do Mesmo e do Outro —, os quais se manifestam clinicamente por troca de nomes de alguns objetos e abalos corpóreos.

Jacques Pigeaud (1981, p. 47) traz como elementos importantes para a compreensão da 'doença da alma' platônica, os seguintes aspectos: (1) as enfermidades da alma têm origem somática; (2) a ignorância é também de origem orgânica; (3) a causa física da loucura já era conhecida dos médicos hipocráticos antes mesmo de Platão; (4) medicina e moral devem ser pressupostos uníssonos para o tratamento do homem, em uma medicina da relação corpo-alma. Veja-se o alcance da terapêutica no pensamento platônico.

A terapêutica e seus limites
Platão se preocupou com o tratamento das mais diferentes moléstias do homem. Neste aspecto, o Timeu traz informações sobre vários métodos de tratamento empregados na Grécia do século IV a.C., explicitando para quais doenças eles devem ser indicados. Sob uma perspectiva mais ampla, a terapêutica platônica funda-se no princípio de proporção, a exata medida nas relações entre corpo e alma. O importante é a perpetuação de uma harmonia entre as partes que compõem este binômio. Uma vez mais, o que está em jogo para o restabelecimento da saúde é a harmonia do todo — ou seja, entre as porções do corpo e da alma. 

Deste modo, no Cármides e nas Leis, o ateniense critica a postura dos médicos hipocráticos ao priorizar o corpo em detrimento da alma (Coolidge Jr., 1993, pp. 23-6). Ou seja, é questionada a conduta de se tratar apenas a 'parte' — o corpo. Platão, ao contrário, ressalta a importância de se buscar a compreensão do todo:
... como talvez já tenhas ouvido, os bons médicos, quando alguém os consulta e se queixa da vista, respondem, naturalmente, que não é possível cuidar dos olhos isoladamente, mas que é necessário tratar simultaneamente da cabeça, se se quiser passar bem os olhos. De igual modo, julgar, enfim, que a cabeça se cura em si mesma, separadamente de todo o corpo, é uma grande insensatez. Partindo deste princípio, debruçando-se sobre todo o corpo, as suas prescrições procuram, através do todo, tratar e curar a parte (Platão, 1988, passo 156b-c).
As prescrições arroladas para o tratamento das enfermidades são as mais diversas: ginástica, prática da música, dietas, estudo da astronomia e filosofia, sobre a qual há também importante referência no Cármides: a utilização de "belas conversas" (Platão, 1988, passo 157a) é capaz de engendrar na alma a temperança, a prudência e a sabedoria (Frias, 2002, p. 103). As palavras são (phármakon), no duplo sentido que o termo encerra: 'veneno' e 'remédio'. Nas mãos do sofista são um tóxico mortal; mas quando usadas pelo filósofo, podem constituir um profícuo bálsamo terapêutico — como o estabelecido no passo 270b do Fedro.

É exatamente nesse sentido que Platão qualifica a filosofia como uma genuína medicina da alma, havendo múltiplas referências à terapia anímica nos diálogos platônicos. De acordo com o filósofo, em A República (Platão, 1987, passo 444d), uma alma saudável é aquela que se compraz na justiça, possuindo equilíbrio. A enfermidade da alma é comparável à injustiça; deste modo, a medicina estaria para o corpo assim como a justiça estaria para a alma (Platão, 1992, passo 464b-c), no sentido que aquela adquire de therapeía para a alma. 

Há um nítido caráter ético (Gomperz, 1969, p. 610) e político nesta formulação, uma vez que toda a cosmogonia platônica (no Timeu) visa, em última análise, a deslindar a 'harmonia' intrínseca ao cosmo, que é da mesma ordem da harmonia que rege a alma humana e que deverá fundar a ideal. Assim, restabelecer a saúde da alma tem uma finalidade ética primaz, o que engendra toda a discussão sobre a excelsa (Cambiano, 1981) que o filósofo almejava (Cornford, 1937, p. 6). Tratar a alma é promover a sua reordenação e o retorno de sua harmonia — restabelecendo a justiça —, tal qual apontado no Górgias (Platão, 1992, passo 504d-e):
... fala às almas dos seus ouvintes em todas as circunstâncias. E, se dá ou tira aos cidadãos alguma coisa, é sempre com a intenção de fazer nascer a justiça na sua alma, de expulsar dela a injustiça, de implantar nela a moderação e dela afastar a intemperança.
Com base nessas premissas, o escopo da atividade filosófica seria manter a saúde da alma, o que é mister para que a atinja seu máximo grau de excelência.
É interessante notar que o alcance curativo da medicina é, para Platão, intimamente relacionado às 'causas' e à história natural das enfermidades, bem como à constituição daquele que adoece. Em relação a esses aspectos tem importância capital o repertório de triângulos que compoem a intimidade do corpo humano, consoante as discussões presentes no Timeu. 

Cada pessoa ao nascer detém uma quantidade e arranjo de seus triângulos, os quais facultam um tempo de vida 'esperado' e que não tem como ser prorrogado. Assim também são as doenças: elas têm um curso próprio — uma 'história natural' —, segundo o qual o tempo de sua duração e o desenlace encontram-se preestabelecidos. De acordo com as palavras do próprio filósofo (Platão, 1977, passo 89b-c):
De regra, a constituição das doenças apresenta alguma semelhança com a dos seres vivos, pois a composição destas condiciona uma duração regulada para a espécie em geral, nascendo cada pessoa com o tempo de vida fixado pelo destino, exceção feita para os acidentes inevitáveis de origem externa, pois desde o nascimento os triângulos de qualquer ser vivo se conglutinam de maneira que possam resistir até um determinado limite, além do qual ninguém consegue prolongar a vida. O mesmo se passa com a constituição das doenças.
Há um determinismo inerente à constituição humana e ao desenrolar da moléstia, o qual torna limitados os tratamentos prescritos. Na continuação do mesmo passo do Timeu, Platão critica o uso de medicamentos para a contenção de doenças leves — as quais devem ser deixadas livres para seguir seu próprio curso —, enfatizando que os fármacos devem ser empregados apenas nos casos "mais graves", ou seja, naqueles em que há "grande perigo" para o doente (Platão, 1977, passo 89b-d).

As moléstias não devem, assim, ser irritadas com o uso de remédios, o que traz mais prejuízos que benefícios para aquele que sofre. Ainda mais: se a moléstia for incurável — ou seja, mortal (exceção feita às condições traumáticas) —, não deve ser prolongada a vida 'artificialmente' por meio de modalidades terapêuticas — aqui não restritas aos fármacos, mas também às práticas como a dieta e a ginástica —, de acordo com o que está exposto em A República (Platão, 1987, passo 406a-b):
— ... Heródico, que era mestre de ginástica, tornou-se enfermeiro, e, misturando o exercício básico com a medicina, atormentou-se primeiro e acima de tudo a si mesmo, e depois a muitos outros.
— Como assim? — Perguntou ele.
— Dilatando a sua própria morte — respondi eu. Acompanhando passo a passo a sua doença, que era mortal, sem ser, ao que parece, capaz de se curar, atravessou a vida a tratar-se, sem se ocupar de mais nada, estafando-se a ver que não se desviasse da dieta habitual, custando-lhe a morrer, devido ao seu saber, até que atingiu a velhice (grifo nosso).
Nesta passagem Platão renega a atuação de Heródico, o qual adotou um 'combinado' de ginástica e dieta para protelar sua moléstia incurável. Sua prática, que "atormentou" a si mesmo e a outros, propiciou que vagasse pela vida doente — subentendendo-se aqui que tenha sofrido e feito sofrer com isto. Neste sentido, seria muito mais pertinente se declinar em buscar de forma 'ensandecida' o tratamento da enfermidade, uma vez que a morte, no caso de doenças incuráveis, pode ser muito mais redentora que algoz: "... se o corpo [do homem atingido por enfermidade mortal] não é capaz de resistir, a morte liberta-o de dificuldades" (Platão, 1987, passo 406e, grifo nosso).

A opção pela morte parece ser mais razoável nessas circunstâncias, as quais se referem a moléstias não passíveis de cura. Assim, Platão elabora uma censura aberta ao emprego da arte médica como forma de prolongar a vida, caso o enfermo esteja acometido por moléstia incurável. Para isso utiliza uma bela e coesa argumentação, a qual se mantém ainda extremamente atual, sobretudo no contexto dos debates bioéticos sobre o fim da vida, como foi possível se discutir em outras oportunidades (Schramm, 2001; Siqueira-Batista et al., 2002; Siqueira-Batista et al., 2003 a e b).

Ponderações finais
A cultura ocidental representa, nos seus mais distintos matizes, um genuíno legado da Grécia antiga. Diferentes campos do saber se estruturaram e alcançaram grande maturidade na sociedade helênica, imprimindo profundas marcas na sua 'evolução' histórica e conceitual subseqüente. Inserem-se neste âmbito a medicina hipocrática — cujo método em grande parte continua presente na prática clínica hodierna — e a filosofia — um 'produto' intrín-seco ao espírito grego, provavelmente a mais original e decisiva herança daquele povo.

Filosofia e medicina são contemporâneas — o 'registro civil' de uma e de outra dista pouco mais de cem anos: séculos VI e V a.C., respectivamente —, o que permitiu a emergência de uma marcante cumplicidade entre ambas (Siqueira-Batista, 2003a, p. 232). Esta constatação se torna mais diáfana à medida que: 

(1) identificam-se homens que se dedicavam, simultaneamente, aos dois misteres — como Alcmeón de Crótona e Empédocles de Agrigento; 

(2) percebe-se uma nítida influência da filosofia pré-socrática nas doutrinas médicas da Escola de Cós — como no equilíbrio (pitagórico) dos quatro humores e no conceito de , visto anteriormente;

(3) na presença de idéias médicas nos textos filosóficos, cujo divisor de águas foi, indubitavelmente, o filósofo Platão.

Como se tentou demarcar neste breve ensaio, o pensador ateniense manifestou grande interesse por diferentes aspectos da medicina. Suas concepções médicas se articulam intimamente a todo manancial teórico de sua obra, representando preocupações com as relações entre o cosmo e o homem — e entre este a e pólis —, o corpo e a alma e, de um certo modo, com o próprio binômio vida e morte, uma vez que todo o seu esforço se dirige à idéia de uma alma tripartida que possui uma porção imortal — divina — 'habitando' o corpo mortal e perecível.

Há uma fecunda confluência de teorias médicas e filosóficas nos diálogos platônicos, como na idéia de saúde relacionada ao equilíbrio entre parte e todo — e entre corpo e alma —, cabendo ao tratamento um papel relevante no sentido de restabelecer a 'crase' perdida, tal como se pode perceber nos fragmentos filosóficos (como em Alcméon) e nos tratados hipocráticos — Dos humores e Da natureza do homem, entre outros (Hippocrates, 1992, pp. 10-1). Entretanto, o campo de atuação das condutas terapêuticas é restrito: as moléstias têm uma história natural — quiçá um 'prognóstico', tal como ensinado pelos médicos de Cós —, de modo que é passível de crítica a utilização de medidas corretivas para as enfermidades brandas — as quais não devem ser 'irritadas' pelos remédios —, bem como para as incuráveis, pois o tratamento destas últimas possibilita o prolongamento artificial e 'sofrido' da vida.

Eis o panorama: na complexidade e abrangência de suas especulações, Platão realiza uma leitura da medicina de sua época que se mantém extremamente atual, no contexto de seus problemas mais recônditos. Questões como: a relação entre homem e meio ambiente; a possibilidade de adoecimento psíquico por causas orgânicas; a explicação 'fisiológica' para a inexorabilidade de determinados estados nosológicos; e a conseqüente crítica aos tratamentos "desproporcionais" — que beirariam a 'obstinação terapêutica' — podem ser retomados hoje, como frutífero pano de fundo teórico para uma atitude mais reflexiva em relação à medicina.

Refletir sobre o fazer médico — eis uma perspectiva da maior importância em uma sociedade laica e plural. Procedendo assim, à moda platônica, abre-se um caminho para a construção de uma prática médica mais condizente com as necessidades humanas, voltada para a amplidão das suas possibilidades, mas também ciosa em relação aos limites de suas próprias mãos e dos meios por elas utilizados e aperfeiçoados, representados pela arte de curar e cuidar.

NOTAS
* Trabalho realizado no Departamento de Ciências Sociais/Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)/Fundação Oswaldo Cruz e no Núcleo de Estudos em Filosofia e Saúde (NEFISA)/Fundação Educacional Serra dos Órgãos.

1 A palavra grega (physis) é traduzida, de forma muito simplista e rudimentar, como natureza. Etimologicamente, physis é formada pelo sufixo sis e pela raiz verbal phy. Na voz ativa a palavra significa 'produzir' e na voz média, 'crescer'. Acredita-se que o termo se origina a partir de características do reino vegetal, estendendo-se mais tarde o significado do verbo a ponto de assumir uma amplidão máxima. Para W. Jaeger (1995), em Paidéia, "a palavra abarca também a fonte originária de todas as coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; em outras palavras, a realidade subjacente às coisas de nossa experiência". Deste modo, a palavra physis indica aquilo que por si brota, emerge, surge de si próprio e se manifesta neste desdobramento, pondo-se no manifesto. A physis é tudo o que existe, nada existe que não seja . Para aprofundamento dessa discussão ver Bornheim (1999, p. 7).

2 No século XVI os textos platônicos foram traduzidos (para o latim) e publicados por H. Estienne, o qual dispôs a versão grega em duas colunas, cada uma delas divididas em letras a, b, c e d, precedidas por um número. Esta menção tem relevância porque as traduções subseqüentes mantiveram tal disposição, sendo bastante comum a referência a determinado 'passo' de um diálogo ao se comentar sobre um excerto específico.

3 A existência de dois mundos — sensível e inteligível — é uma das teses mais famosas do pensamento platônico. O mundo inteligível é constituído pelas Formas (ou Idéias) eternas e detentoras do ser, as quais são o modelo — paradigma incorruptível — para o mundo sensível (cópia do primeiro), e que detém as 'coisas' sujeitas ao devir: "O Demiurgo de que nos fala Platão no Timeu não é o mero artesão, o que simplesmente trabalha com as mãos, mas aquele que produz contemplando um modelo, transferindo para a cópia as virtudes desse modelo. O Demiurgo contempla e produz: há nele uma atividade teórica e uma prática, inseparáveis" (Platão, 1977, 'Introdução', p. 14). Sem embargo, é importante demarcar que as Idéias eternas não representam leis da natureza — algo imanente ao mundo sensível (como a alma nos milésios): "Os objetos que descobriu [Platão] não eram leis da natureza, se por estas entendermos fórmulas que descrevem a seqüência de fenômenos sensíveis, ou coisas desse gênero. Nas suas mãos, a teoria transformou-se numa doutrina da inteligível 'natureza das coisas' em oposição consciente ao materialismo que identificava a realidade com os componentes elementares dos corpos tangíveis" (Cornford, 1989, p. 74).

4 No Livro V de A República, Platão comenta que se estes objetos — as Idéias — podem ser conhecidos, eles têm de ser reais, uma vez que o perfeitamente real tem de ser necessariamente idêntico ao perfeitamente cognoscível. (Platão, 1987, passo 477a).

5 Na verdade o problema versa sobre a construção de um quadrado que deve ser o dobro de um dado quadrado, o que implica no teorema do quadrado da hipotenusa (este, uma provável descoberta de Pitágoras).

6 Apesar de, no Mênon, a questão do conhecimento já estar centrada na alma, não há alusão explícita à Teoria das Formas, consoante o discutido por M. Iglésias (Platão, 2001. p. 12): "O Mênon entretanto não faz nenhuma menção clara à teoria das Idéias transcendentes, nem mesmo na passagem sobre a reminiscência, onde é esperado que ela faria sua aparição."

7 Para Ivan M. Frias (2001, p. 108), "Vê-se que a alma é primeira. A estrutura corporal é um simples abrigo e meio de locomoção para a alma. O corpo encontra sua razão de ser na alma. Cada segmento anatômico tem uma finalidade derivada da função que é desempenhada pela parte da alma que lhe corresponde. Há, portanto, um finalismo em cada passagem da anátomo-fisiologia do Timeu que também está presente na descrição das estruturas onde efetivamente ocorre a ligação da alma com o corpo".

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Rodrigo Siqueira-BatistaI; 
IProfessor de clínica médica e filosofia da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (FESO) Av. Alberto Torres, 111, Alto 25964-000 Teresópolis 
 

Fermin Roland SchrammII
IIPesquisador do Departamento de Ciências Sociais, Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) Rua Leopoldo Bulhões, 1480, sala 914 21041-210 
Rio de Janeiro — RJ roland@ensp.fiocruz.br
 

TEORIA DAS IDÉIAS EM PLATÃO - Marcio Soares

Construção e crítica da teoria das ideias na filosofia de Platão : dos diálogos intermediários à primeira parte do Parmênides

AUTOR

Marcio Soares

RESUMO

Platão é conhecido, sobretudo, entre outros aspectos de sua filosofia, pela sua teoria das Ideias. Tal teoria encontra-se, em sua melhor formulação, nos diálogos da fase intermediária da produção literária do Filósofo, sendo que os mais expoentes são: a República, o Fédon, o Fedro, o Banquete e o Timeu. 

Contudo, o Parmênides, diálogo que está no limiar entre as fases intermediária e tardia da obra de Platão, apresenta sérias críticas à teoria das Ideias, especialmente em sua primeira parte (127d6-135b4).

O problema que se levanta, a partir do Parmênides, e que divide intérpretes e estudiosos do pensamento de Platão, pode ser expresso em três questões: primeiro, as críticas, presentes na primeira parte do Parmênides, são internas ou externas à teoria das Ideias? 

Segundo, tais críticas são letais à teoria das Ideias, tal como ela se encontra formulada nos diálogos intermediários? Por fim, Platão teria ou não abandonado a teoria das Ideias após o Parmênides? 

No presente trabalho, partindo de uma reconstrução e análise da teoria das Ideias nos diálogos intermediários, especialmente no Fédon e na República (primeira parte de nosso texto), pretendemos demonstrar os princípios teóricos fundamentais que jazem na base da construção de tal teoria, a saber: a estrutura do um sobre o múltiplo, o princípio da homonímia, o dualismo ontológico e a hipótese da participação. 

Na segunda parte de nosso texto, reconstruímos e analisamos, detalhadamente, as seis objeções críticas apontadas à teoria das Ideias na primeira parte do Parmênides. Pretendemos demonstrar, assim, que as críticas almejam exatamente aqueles quatro princípios teóricos fundamentais, recém mencionados acima, presentes na base da construção da teoria das Ideias nos diálogos intermediários. Portanto, o escopo de nosso trabalho é a demonstração de que as críticas à teoria das Ideias, presentes na primeira parte do Parmênides, são internas à própria teoria, bem como letais à mesma, conforme sua formulação nos diálogos intermediários. 

Dessa forma, demonstrado que Platão é crítico de si mesmo no Parmênides (i.e., crítico de sua própria teoria das Ideias), abre-se a possibilidade de uma mudança substancial na ontologia platônica presente nos diálogos escritos posteriormente ao Parmênides, especialmente no Sofista e no Filebo frisamos que a demonstração positiva de uma nova ontologia platônica, nesses diálogos posteriores ao Parmênides, não será feita neste trabalho.

Dito de outra forma, é nossa hipótese que Platão abandona a teoria das Ideias tal como ela fora construída nos diálogos intermediários (especialmente no Fédon e na República), haja vista as aporias insolúveis que tal teoria comporta, sobretudo em relação à hipótese da participação e ao dualismo ontológico, conforme o próprio Filósofo nos faz ver na primeira parte do seu diálogo Parmênides. 

LINK PARA O TEXTO COMPLETO

http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2684

 

  Fonte:

Artigos,Teses e Dissertações 

 

http://www.radarciencia.org/doc/construcao-e-critica-da-teoria-das-ideias-na-filosofia-de-platao-dos-dialogos-intermediarios-a-primeira-parte-do-parmenides/o2ScYKO1L3WmYzWlYGV1ZGV=/

TEORIA DA ALMA E DA VIDA VIRTUOSA - ÉTICA EM PLATÃO


TEORIA DA ALMA (PSICOLOGIA) 
E DA VIDA VIRTUOSA (ÉTICA) EM PLATÃO

- Marilena Chauí -

A separação entre o sensível e o inteligível é metafísica (há dois mundos ou duas realidades diferentes) e é lógica (seus objetos são conhecidos de maneiras diferentes). Esta separação reaparece na teoria platônica da alma, psykhé.

Psykhé possui três sentidos principais:

· Vida ou princípio vital, o que anima um ser, o que lhe dá vida, e porque a vida é movimento ou mudança, psykhé é o princípio da autoatividade e da autoconservação de um ser; dá e conserva a vida. Neste sentido, todos os seres vivos (plantas, animais, astros ou seres celestes, os humanos) são dotados de psykhé,; o Kósmos é um ser vivo, animado pela Alma do Mundo.

· Consciência ou princípio da vida mental e espiritual. A psykhé ou alma é o princípio cognoscente ou o que, em nós, conhece e permite conhecer. Neste sentido, somente os homens são dotados de alma e a alma é diferente do corpo, sendo imaterial e princípio intelectual.

· A pessoa individualizada cujo espírito sobrevive após a morte. A psykhé é imortal, permanecendo após a morte do corpo. Neste sentido, a alma é o que "é semelhante ao divino" no homem, não só pela imortalidade, mas também pela racionalidade.

· Vida e atividade sensorial e motriz, consciência e atividade mental, imortalidade e racionalidade pessoal são os principais sentidos da psykhé. A alma humana possui uma origem supraterrestre e sua vocação ou destinação é o conhecimento da verdade e do bem, estando orientada para o divino, como seu fim (télos) ou finalidade. A alma, morada de Eros, deseja o divino e tende para ele; é nossa melhor parte e o corpo é para ela prisão, túmulo, risco de perdição nas coisas corporais que a afastam das coisas espirituais. Amar alguém ou alguma coisa é amar sua alma e não o envoltório grosseiro e mortal que é seu corpo. A alma ama as formas ou idéias. Ela deseja a formosura, diz Platão no Banquete, ama a perfeição.

No livro IV da República, Platão oferece a exposição mais completa de sua teoria da alma ou psicologia. Nossa alma, por suas relações com o corpo, não é uma unidade simples, mas é múltipla, conforme a função que realize. Seguindo a tradição médica, Platão irá situar cada função da alma numa região do corpo:

· A alma apetitiva ou concupiscente, que busca comidas, bebidas, sexo, prazeres, isto é, tudo o que é necessário para a conservação do corpo e para a geração de outros corpos; trata-se da faculdade apetitiva ou concupiscente, irracional, situada "entre o diafragma e o umbigo", ou no baixo-ventre. Esta alma ou faculdade termina com a morte do corpo, sendo, portanto, mortal; é nossa parte passional, sempre sequiosa e insatisfeita, sempre à procura de novos objetos de prazer.

· A alma colérica ou irascível, que se irrita contra tudo quanto possa ameaçar a segurança do corpo e da vida, tudo quanto cause dor e sofrimento; porque incita a combater perigos contra a vida, é a faculdade combativa, situada "acima do diafragma na cavidade do peito", isto é , no coração; também é mortal, pois existe para defender o corpo contra agressões á vida corporal e, como a alma concupiscente, é irracional.

· A alma racional, faculdade do conhecimento, parte espiritual e imortal, sede do pensamento e situada na cabeça; é a faculdade ativa e superior, o princípio divino em nós. Conhece o Bem e o Mal, a Verdade e as Idéias.

A relação entre a psicologia e a ética é exposta em dois diálogos: no livro IV da República e no Mito do Cocheiro, no Fedro.

Após apresentar, na República, a divisão da psykhé em dois princípios ou faculdades passionais, irracionais e mortais e um princípio ou faculdade ativo, racional e imortal, Platão indaga se é possível um homem ser virtuoso, isto e´, praticar o bem e as virtudes, se for comandado pela concupiscência ou pela cólera. Responde negativamente, uma vez que as paixões além de nos arrastarem para direções opostas, fazem com que os desejos e impulsos violentos de nosso corpo obscureçam nossa inteligência, impedindo-nos de conhecer e de exercer nossa atividade mais nobre, o conhecimento racional. E, como já dissera Sócrates, o vício é ignorância; portanto, quem não exerce a razão não conhece a virtude e não pode ser virtuoso. Assim sendo, a vida ética ou virtuosa dependerá exclusivamente da alma racional.

Qual a tarefa ética ou moral da alma racional? Dominar as outras duas faculdades, e harmonizá-las com a razão. O domínio da razão sobre a concupiscência é uma virtude e seu nome é temperança (sophrosýne) - a moderação. A alma temperante é aquela que não cede a todos os impulsos e prazeres, que modera seus apetites, impondo-lhes a media que lhe é oferecida pela razão. 

O domínio da razão sobre a alma irascível ou colérica é decisivo. De fato, a alma racional não age diretamente sobre a alma concupiscente, amas o faz por meio da alma colérica ou irascível. Por isso, sob o domínio da razão, a alma irascível saberá discernir o que é bom e mau para a vida de seu corpo, não só deixará de lançar-se indiscriminadamente a todo e qualquer combate que imagine importante para sua vida corporal (saberá quando e por que um combate deve ser travado e quando deve ser evitado), como ainda guiará a alma apetitiva ou concupiscente na escolha do que é bom para a vida. A virtude própria da alma irascível guiada pela razão é a coragem (thymós) ou prudência (phrónesis).

Finalmente, a alma racional será virtuosa se for mais forte e mais dominadora do que as outras duas, se não sucumbir aso apelos do apetite e da cólera, isto é, se não ceder aos apelos irracionais das paixões. Sua virtude própria é o conhecimento (nóesis, theoría).
Assim, um homem é virtuoso ou justo quando a alma racional domina a irascível e a faz corajosa, e quando a alma corajosa domina a concupiscente a faz temperante. A imoralidade, injustiça ou vício existem quando esta hierarquia de comandos não for obedecida.

No Fedro, essas idéias são retomadas no mito do cocheiro, cuja narrativa é suscitada pelo desacordo entre Sócrates e Fedro a propósito do discurso do sofista Lísias contra Eros. O desejo é louco e delirante, pontificara Lísias, acusando Eros pela desmedida das paixões e dos vícios.
Seria o delírio um mal?, indaga Sócrates. Existe apenas uma forma de delírio ou várias?
A loucura é delírio - em grego: manía. Ora, há delírios inspirados pelos deuses: o delírio profético, inspirado por Apolo Delfo, "que suplanta em perfeição e dignidade a arte humana dos augúrios"; o delírio purificador, inspirado por Dionisos, "que oferece remédios e refúgio contra o sofrimento"; o delírio poético, inspirado pelas musas, "que transporta a alma jovem e inocente a um mundo novo" oferecendo-lhe a dádiva da poesia; e há o delírio erótico, inspirado por Eros, "o deus alado", enviado pelos deuses "ao amante e ao amado, não para alguma utilidade material, mas para a felicidade de ambos", porque é o amor da sabedoria, a filosofia.

Pelos delírios, podemos conhecer a natureza da alma e, para compreendê-la, Platão recorre ao Mito do Cocheiro.

"A alma é como uma força ativa que unisse um carro puxado por uma parelha alada e conduzido por um cocheiro (...) pois, outrora, a alma possuía asas", assim inicia-se o mito.
Ser alado significa ter em si mesmo o princípio do movimento, isto é , da vida e por isso, alada, psykhé é imortal, pois é vida e causa de vida. Ser alado é participar da natureza imortal do divino, e a Natureza dotou as asas do poder de elevar o que é pesado rumo às alturas, onde habita o divino, que "é belo, sábio e bom", alimentando, desenvolvendo e fortalecendo os alados. Por isso a alma é atraída pelo delírio erótico: deseja alçar-se às alturas da verdade, porque somente ali encontra alimento para suas asas.

Qual a diferença entre a alma imortal dos deuses e a alma imortal dos homens:
"Os cavalos e cocheiros das almas divinas são bons e de boa raça. Os das almas humanas, mestiços. O cocheiro que os governa, conduz uma parelha na qual um dos cavalos é bom e de boa raça, enquanto o outro é de má raça e natureza contrária. Assim, conduzir o nosso carro é ofício difícil e penoso."

Qual a diferença entre a essência imortal dos deuses e a natureza mortal dos homens?

"Quando a alma é perfeita, governa a matéria inanimada, plana livre nos céus e dirige o Kósmos. Porém, quando perde as asas, rola pelos espaços infinitos até cair num sólido qualquer e aí pousar. Quando reveste a forma de um corpo terrestre, este começa mover-se, graças á força e vida que lhe comunica a alma. A este conjunto de alma e corpo damos o nome de mortal."

Somos mortais (embora a alma seja imortal) porque perdemos as asa. Como a perdemos?
No afã de elevar-se, o carro alado é puxado para cima por um dos corcéis, mas puxado para baixo pelo outros. A luta da parelha força o cocheiro a olhar os cavalos e não a região celeste onde habitam a Beleza e a Verdade. A parelha se machuca, o cocheiro tem as mãos feridas pelas rédeas que puxam em direções contrárias, carros alados chocam-se com outros e as asas vão perdendo a força, caindo, até que o carro, pesado, caia sobre a terra, deixando no cocheiro apenas a nostalgia e a saudade do vôo, a vaga lembrança do que vira e o desejo insaciável de retornar aos céus. O cocheiro é a alma racional, o corcel que sobe, a alma valorosa da coragem, o que puxa o carro para baixo, a alma concupiscente que, pelo prazer, troca a Verdade pela Opinião.

Por que o cocheiro se recorda do vôo e porque um dos cavalos deseja subir, nem tudo está perdido. O delírio erótico - desejo de filosofia - pode fortalecer o amante - a alma racional - na busca do amado - a Beleza e a Verdade -, auxiliando-a a dominar o cavalo do apetite e dos prazeres para que não impeça o novo vôo.

O Mito do Cocheiro reúne, numa nova versão, O Mito da Caverna e O Mito de Er ou da Reminiscência,
expondo com maior clareza a unidade entre conhecimento, psicologia e ética.
De fato, o cocheiro, como o prisioneiro da caverna, parte em busca da luz da verdade e, como no Mito de Er, realiza a viagem porque se lembra do que, uma vez, contemplou.(eu,Aurigae-Capella?)

A força da razão sobre a cólera - fazendo surgir a moderação e a temperança - é a mesma na República e no Fedro. Neste, porém uma nova idéia articula mais profundamente ética e filosofia: a alegoria do delírio erótico ou o amor da Beleza, quando amante e amado fundem-se na felicidade perfeita. Lembrando-se, vagamente, da beleza outrora contemplada, o filósofo a reconhece nas coisas belas (isto é, elevando-se da multiplicidade sensível à unidade perfeita das idéias )e, dela se lembrando cada vez mais vivamente, seu espírito recupera as asas.

Por que a filosofia é delírio?
Por que, à medida que aumenta em sabedoria e em virtude, o espírito do filósofo torna-se alado, mas, preso a um corpo (imagens e opiniões, apetites e paixões), não pode voar; por isso dirige o olhar para o alto, "esquecendo os negócios terrenos e dando a impressão de delirante".
Na República, a idéia de justiça (hierarquia de comando entre as almas) preside a exposição da psicologia e da ética. No Fedro , este lugar é ocupado pela idéia da beleza, sob o governo do desejo ou de Eros. A presença de Eros faz com que, no Fédon, Platão afirme que as três almas (ou três faculdades) são desejosas e desejantes.

A diferença entre elas encontra-se no objeto de seus desejos e no modo como desejam. A alma concupiscente deseja coisas perecíveis, que podem destruí-la sem que ela o perceba; e seu modo de desejar é o desejo de posse, imaginando que ficará saciada se possuir o objeto desejado, acabando, afinal, possuída por ele. A alma irascível deseja a fama, a honra e a glória, que também podem ser perecíveis e destruir a vida, se procuradas sem medida e sem conhecimento; seu modo de desejar é o desejo da boa opinião dos outros a nosso respeito, a alma irascível correndo o risco de, para obter a boa opinião alheia, perder seus próprios objetivos, caindo na infâmia, na desonra e na vangloria. 

A alma racional deseja o bem e a verdade, os bens imperecíveis; seu modo de desejar não é a posse (como na concupiscência) nem a busca da opinião alheia (como na cólera), mas é o desejo de participar da natureza ou da essência do objeto amado, as idéias, Por isso somente ela é capaz de oferecer e impor limites e medidas aos desejos das outras duas, tornando-as virtuosas. A moderação deve ser imposta aos desejos para que haja virtude e, agora, sophrosýne ocupe então o lugar que a Justiça tivera na República e a, Beleza, no Fedro.

Que significa dizer que todas as almas ou que todas as funções da alma são desejantes? Siginifica:

· afirmar que Eros (o amor ou o desejo) é o motor das almas, da vida apetecente, da vida corajosa e da vida intelectual (a filosofia não é amor à sabedoria?);

· afirmar que a virtude depende da qualidade dos objetos com os quais desejamos nos unir por amor, uma escolha entre os objetos perecíveis da paixão e os imperecíveis da razão;

· afirmar que a liberdade ou a autarcia reside no poder da razão para afastar as paixões ou dominá-las, dando às faculdades apetitiva e irascível bons objetos de desejo, enquanto o vício e a servidão residem no poder das paixões sobre a razão.

Embora a psicologia e a ética recebam exposições diversas, em todas elas Platão estabelece urna relação precisa entre areté, dýnamis, epistéme e téchne. A areté, vimos, é a excelência ética, o "ser bom". os mitos platônicos evidenciam que a areté é uma dýnamis, uma possibilidade ou potencialidade da alma que precisa ser atualizada. A atualização é feita pela téchne como terapia e paideía. Estas pressupõem a ciência, a epistéme, que indica qual é a areté de cada função da alma - qual a excelência de cada uma delas - e qual a hierarquia entre essas funções. A téchne, isto é, a paideía dialética desfaz os conflitos entre as funções da psykhé (sua desordem), fazendo com que cada uma realize sua função própria.

Platão afirma que a alma racional é imortal. As provas da imortalidade da alma variam de diálogo para diálogo, à medida que a influência de Sócrates vai diminuindo e a dos pitagóricos órficos vai aumentando sobre sua filosofia. Por isso, na Apologia, a questão de saber se há uma vida após a morte e que tipo de vida será, fica em suspenso. Sócrates não parece muito empenhado em discutir o assunto. Ao contrário, nos diálogos da velhice, Platão discute em profundidade essa questão, aceitando a teoria órfico-pitagórica da reencarnação ou transmigração das almas e a da filosofia como purificação ou ascese espiritual para vencer a "roda dos nascimentos"
As principais provas da imortalidade da alma são oferecidas no Mênon, no Fédon, no Fedro, na República e nas Leis, podendo ser assim resumidas:

1) prova pela reminiscência: vimos que, tanto no Mênon quanto na República e no Fedro, a alma pode conhecer a verdade porque se recorda ou se lembra dela, e a reminiscência da verdade pressupõe que esta tenha sido contemplada numa outra vida;

2) prova Pela simplicidade: o que é composto por natureza tende a separar-se, as partes dividindo-se e distanciando-se, de sorte que o composto morre ou desaparece; ora, a alma racional é imaterial e simples como as idéia s e,, por sua simplicidade, não pode desfazer-se, separar-se, desaparecer ou morrer;

3) prova pela participação da alma na idéia de vida: a alma é o sopro vital, o princípio de vida de todas as Coisas e, portanto, não pode receber nem Participar do que é contrário à sua idéia ou à sua essência, isto é, a morte.

4) prova pelo princípio do movimento daquilo que move a si mesmo' aquilo que é movido por outro deixa de se mover quando a causa do movimento cessa; a alma não é movida por nada, mas move todas as coisas e move a si mesma; o que move a si mesmo é inengendrado e o que é inengendrado é imortal;

5) prova pela imutabilidade do incorpóreo: somente os corpos aumentam ou diminuem, mudam-se nos seus contrários e podem ser destruídos pela ação de outros corpos, mas o que é imaterial ou incorpóreo não aumenta nem diminui e nada há que possa destruí-lo de fora; a alma, sendo imaterial, não sofre transformações em sua essência e por isso permanece, sempre; sendo eterna, é imortal.

Aparentemente, as provas da imortalidade da alma estariam em contradição com a teoria da transmigração ou da reencarnação, pois esta pressupõe que a alma seja afetada pelos vícios do corpo, pelas paixões da concupiscência da cólera, não sendo portanto imutável nem simples e não podendo ser imortal. Na verdade, porém, o peso do corpo e das paixões sobre a alma, que leva Platão a dizer que o corpo é prisão da alma, não destrói sua imortalidade. A essência da alma não é transformada pelo corpo, mas prejudicada por ele, isto é, o corpo pode criar obstáculos para que a alma realize plenamente sua natureza e é por este motivo que está submetida à "roda dos nascimentos", destinada a libertar-se cada vez mais dos elementos corpóreos para, finalmente, não mais precisar nascer.

 Fonte:
Área de Sociedade e Cultura 
http://www.cefetsp.br/edu/eso/filosofia/chauialmaplatao.html
(Do Livro: Introdução à História da Filosofia 
- dos pré-socráticos Aristóteles, 
Editora Brasiliense, 1994, SP,
pág. 21-219)

PLATÃO




 
Platão (428-347 a.C.)
Platão é com Aristóteles uma das referências fundamentais do pensamento ocidental. Platão, como diz François Châtelet inventou a Filosofia: "definiu o que a cultura daí em diante vai entender por Razão". Nasceu em Atenas, ou na ilha de Egina, em Maio -Junho do primeiro ano da 88ª. Olimpíada, ou seja, cerca de 428-27 a.C. Era originário de uma antiga família aristocrática ateniense, contando entre os seus antepassados, por parte da mãe o célebre legislador Sólon (c.639-559 a.C.), e do pai, o rei Codro.

O pai, Aríston deve ter morrido cedo, pois a mãe Perictíone, voltou a casar com o seu tio Pirilampo, de quem teve um filho, Antífion. O seu verdadeiro nome era Arístocles, mas devido à sua compleição física recebeu a alcunha de Platão (significa literalmente "ombros largos").

Frequentou com assiduídade os ginásios, obtendo prémios por duas vezes nos Jogos Istímicos. Começou por seguir as lições de Crátilo, discípulo de Heraclito, e as de Hermógenes, discípulo de Parménides. Em princípio, por tradição familiar deveria seguir a vida política. Contudo, a experiência do governo dos trinta tiranos que governaram Atenas por imposição de Esparta (404-403 a.C.), e da qual fazia parte dois dos seus tios Crístias e Cármides, distanciaram-no desta opção de vida, pelo menos do modo como a política era exercida.

O facto que mais o marcou foi a influência que sobre ele exerceu Sócrates, tendo-se feito seu discípulo por volta de 408, quando contava vinte anos. Nele encontrou o mestre, que veio a homenagear na sua obra, fazendo-o interlocutor principal da quase totalidade dos seus diálogos. A condenação de Sócrates (399), e a sua ação para o salvar, obrigaram-no a exilar-se nesse ano. Desiludido com o regime aristocrático, mas também com a democracia ateniense, passou a defender que as leis e os costumes dos povos deviam ser baseadas em concepções filosóficas.

Depois de 399 iniciou uma série de viagens durante cerca de doze anos, o que lhe abriu novos horizontes. Em Megara conviveu com o célebre Euclides e Terpsíon, discípulos de Sócrates. Regressou a Atenas para servir na cavalaria, como os seus irmãos. Voltou a viajar, desta vez foi ao Egipto onde teria sido iniciado nos mistérios de Isis Depois foi a Cirene onde estudou matemáticas com Teodoro, fazendo-o depois seu interlocutor no diálogo Teeteto. No sul da Grande Grécia (Itália), em Taranto, aprendeu a filosofia pitagórica através de Filolau, Arquitas e Timeu. Em Creta estudou legislação de Minos. Há quem afirme que terá estado na Judeia, onde contactou com a tradição dos profetas, e até nas margens do Ganges terá conhecido místicos hindus.

Em 388 visitou a Sicília, então governada por Dionísio, o Antigo, com o propósito de converter este tirano às suas ideias filosóficas. Não tendo êxito nesta primeira investida, regressou a Atenas, em 387, onde nos jardins de Academo, junto dum templo consagrado às Musas fundou uma escola, denominada, por este fato, Academia. Esta rapidamente se tornou no maior centro intelectual da Antiga Grécia, tendo por ela passado filósofos e políticos, como Aristóteles, Eudoxo de Cnido, Xenócrates, Fócion, Esquines, Demóstenes e outros. À entrada uma legenda proibia o acesso a todos aqueles que não soubessem geometria. A academia era um verdadeiro centro de investigação, tendo como centro aquilo que podíamos designar por uma "ciência da alma humana".

Ficou em Atenas, cerca de vinte anos, até que em 367, voltou à Sicília, com a ideia de converter o novo monarca - Dionísio, o Moço -, num filósofo-rei. Os resultados não foram brilhantes, o que não o impediu de voltar à ilha em 361, com idênticos propósitos. O resultado desta última viagem foi terrível: suspeito pelas suas ideias políticas, foi perseguido e feito escravo, sendo como tal vendido no mercado de Egina, acabando por ser comprado por um dos seus amigos.

Voltou a Atenas onde morreu em 347, numa altura que a cidade lutava contra Filipe da Macedónia, e cujo desfecho lhe foi fatal. A direcção da Academia foi inicialmente assumida pelo seu sobrinho Espeusito, por morte deste sucedeu-lhe Xenócrates. A Academia subsistiu até 529 da nossa era, quando foi mandada encerrar por Justiniano. A corrente filosófica conhecida por platonismo -originada do pensamento de Platão-, aparece constantemente na história do pensamento, influenciando não apenas filósofos, mas também artistas e cientistas até aos nossos dias.

Obras de Platão
Ao contrário das obras de Aristóteles que chegaram até nós, as de Platão foram escritas para o grande público. O conjunto das obras que lhe são atribuídas é constituido por 35 diálogos, algumas cartas, definições e 6 pequenos diálogos apócrifos: Axíoco, Da Justiça, Da Virtude, Demódoco, Sísifo, Eríxias. Os diálogos hoje considerados autênticos, reduzem-se todavia apenas a 24, sendo em geral dividos em quatro grupos, de acordo com a sua maior ou menor proximidade às ideias socráticas.

-  Diálogos de juventude, onde é nítida a influência socrática: Laques, Cármide, Eutrifrom, Hipias Menor, Apologia de Sócrates, Críton, Ion, Protágoras, Lísis;

- Diálogos dirigidos contra os sofistas: Górgias, Ménon, Eutidemo, Crítias, Teeteto;
 
  - Diálogos de maturidade, onde é desenvolvida de forma admirável a sua teoria das idéias: Fedro, Banquete, Fédon e República;

-  Diálogos onde realiza uma revisão crítica da sua filosofia: Parménides, Sofista, Político, Filebo, Timeu, e as Leis, esta obra não foi concluída.



Platão, pintado por Rafael (Escola de Atenas)
Platão -Introdução à sua Filosofia

Natureza da Alma :Na obra o Fédon, Platão expõe as suas idéias sobre a alma. A alma não se limita a ser entendida como o princípio da vida, mas é também vista como o princípio de conhecimento. A alma é uma substância independente do corpo, é eterna, unindo-se a ele de forma temporária e acidental.
As almas pertencem ao Mundo Inteligível ou Mundo das Idéias (real, imutável, eterno, etc). As idéias têm uma realidade objectiva, substancial, são o modelo ideal (arquétipos) de todas as coisas que existem no Mundo Sensível, com base nas quais as coisas foram criadas ou tendem a ser realizadas.
Os corpos pertencem ao Mundo Sensível ou Físico (mutável, ilusório, etc.). As coisas que existem neste Mundo são mais ou menos perfeitas conforme a sua semelhança com os respectivos modelos.
Mas as almas aspiram a libertar-se dos corpos e retornaram ao mundo das ideias. Só que para que isso aconteça é necessário que se libertem do ciclo reincarnações a que estão aprisionadas. Quando morre um corpo, a alma transmigra para outro, mas antes faz uma viagem pelo mundo das ideias. A viagem e a transmigração está contudo condicionada pelos actos praticados na vida anterior:
As almas dos indivíduos que tiveram uma vida virtuosa, são recompensadas de duas formas: a) na sua nova passagem pelo Mundo das Idéias tem um maior contacto com as Ideias; b) o novo corpo em que reincarnam pertence a uma pessoa com um estatuto social mais elevado que o anterior;
A união da alma com um corpo não faz desaparecer as idéias que nela existem. Pelo contrário, estas vão sendo recordadas à medida que as experiências e a educação as despertam através da educação e da experiência sensível.


Platão distingue três 3 almas ou partes de alma:

Alma Racional (razão) É a alma superior, destina-se ao conhecimento das idéias. Localiza-se na cabeça, e tem uma virtude principal, a Sabedoria.
Alma
irascível Esta alma está associada à vontade, dando ao Homem o ânimo necessário para enfrentar os problemas e os conflitos. Localiza-se no peito e tem uma virtude, a Força  
Alma concupiscente É a mais baixa de todas. É constituída pelos desejos e necessidades básicas. Está localizada no ventre, e tem como virtude, a Moderação.
Devido às 3 virtudes, se controla o corpo e a alma racional controla as outras duas, obtendo-se assim a justiça, a felicidade .

Conhecimento e Realidade
Platão elabora uma teoria segundo a qual o mundo foi criado por um arquiteto divino, o Demiurgo. Este deu forma ao Cosmos, atribuindo a cada coisa uma dada finalidade. A criação foi feita com base nas Idéias (modelos, formas) existentes no Mundo Inteligível.

O conhecimento através dos sentidos e da razão dão-nos resultados completamente diferentes, podendo no primeiro caso provocar graves ilusões.

Os dados dos sentidos apenas nos permitem conhecer cópias imperfeitas das Ideias, levando-nos a formular opiniões (doxa) contraditórias e superficiais sobre a realidade.

No entanto, a experiência sensível que nos é dada pelos sentidos é fundamental para desencadear o processo de conhecimento. O conhecimento ocorre quando nos recordamos imperfeitamente as Ideias que a alma contemplou  no Mundo Inteligível, denominando-se o processo por anamnesis (reminiscência). Trata-se do nível mais inferior do conhecimento.

O Mundo da Ideias só pode ser intuído através da razão, e implica um corte com os dados dos sentidos a que estamos aprisionados. O conhecimento da verdadeira realidade - as Idéias - passa por três níveis fundamentais:
Conhecimento sensível
Conhecimento discursivo.
Implica o conhecimento da matemática, a única ciência que possui uma natureza não corpórea. Através do estudo das formas geométricas o homem pode ascender a um conhecimento mais universal.
Conhecimento Intelectivo. Só a Filosofia permite o acesso a este nível de conhecimento, e implica uma ruptura completa com a experiência sensorial.
Através destes três níveis, a mente eleva-se do múltiplo, da aparência sensível até o Uno, Universal e Inteligível (Idéias).
O conhecimento implica sempre uma ascensão dialéctica, mediante a qual vamos subindo nas hierarquia das ideias, chegando aquelas que englobam todas as outras. No topo da pirâmide, Platão coloca a ideia de Bem, seguida de três ideias que a caracterizam: Beleza, Proporção e Verdade. Estas idéias proporcionam ao mundo ordem, medida e unidade. A compreensão destas idéias só é acessível aos Filósofos.

Principais Domínios de Investigação
Platão parte sempre do todo para as partes. Apreender a sua Filosofia é descobrir um sedutor modo de pensar em que tudo remete para tudo, e nada pode ser separado.

Teoria do Conhecimento
Recusou que se pudesse falar num conhecimento baseado no mundo sensível, pois este apenas nos pode dar opiniões mutáveis e ilusórias. Defendeu por isso que o verdadeiro conhecimento estava em ideias eternas que existiam num mundo separado das coisas sensíveis. Estas foram eram imitações, mais ou menos prefeitas das ideias. Sustentou ainda que todos os seres humanos, em graus variáveis, quando nascem já possuem muitas destas ideias. Neste sentido, conhecer ou aprender é recordar aquilo que está obscurecido na alma.

Moral
Combatendo o relativismo dos valores, defendido pelos sofistas, sustentou que o único dever do homem é procurar o Bem, que identifica com o Belo e o Uno. Para o atingir, a única via possível passa pelo desprendimento dos valores materiais e das necessidades corporais.

Política

A política é entendida como o estudo normativo dos príncípios teóricos do governo dos homens, encontrando o seu fundamento no estudo da alma humana.

Estética
A sua estética é indissociável da teoria das ideias. Como as idéias são imutáveis e eternas, se pretendemos apreciar as obras de arte devemos seguir estes príncípios, exigindo que elas se aproximem das idéias, o mesmo é dizer da perfeição. Neste sentido, Platão não pode admitir qualquer mudança ou inovação no campo artistíco. Um vez atingida a obra de arte ideal, isto é, perfeita, só resta aos artistas continuar a replicá-la eternamente.

Cosmologia
As suas ideias cosmológicas foram profundamente influenciadas pelo pitagorismo. Recusando as causas físicas para o que ocorre na natureza, sustentou que a única ciência possível estava na descoberta dos modelos eternos e perfeitos de todas as coisas. Concebeu por isso um universo hierarquizado segundo graus de perfeição: No alto estavam os astros, considerados divinos, sendo por isso eternos, imutáveis, tendo uma forma esférica que era a que mais se adequava a estes atributos. Em baixo, estava a terra, imperfeita.

  Fédon, de Platão

Considerações Gerais -Textos Provisórios

Antes de iniciar a leitura desta obra de Platão, sugiro que leia a sua biografia e algumas notas sobre a sua filosofia.Teorias Platónicas que devem ser previamente analisadas

    Teoria da idéias. 

 Platão parte do pressuposto que existem dois mundos. O primeiro é constituído por ideias eternas, invisiveis e dotadas de uma existência diferente das coisas concretas. O segundo é constituído por cópias das ideias (coisas sensíveis). Com base neste pressuposto afirmou que os sentidos estão permanentemente a enganar-nos. A verdadeira realidade não nos é dada pelos sentidos, mas só pode ser intuida através da razão, e está no mundo das ideias. Esta teoria surge em diálogos como Fédon, como um pressuposto aceite pelos vários interlocutores.

    Teoria das Ideias

    (Ideia e Cópias)


    Teoria da Participação. 

Esta teoria assenta no pressuposto que existe uma relação entre as coisas sensíveis e as ideias (eternas, belas, unas, imutáveis). As coisas sensíveis são belas porque participam da ideia de belo. Todas as coisas que existem no mundo sensível foram feitas à imagem das Ideias. Um única ideia tem uma multiplicidade de cópias-coisas. As provas desta participação, afirma Platão, podem reconhecer-se na harmonia e organização do mundo sensível.

    Teoria da Metempsicose. 

Esta teoria pressupõe a imortalidade da alma e as sucessivas reincarnações. Ao incarnar num corpo, a alma irá recordar o que outraora contemplou no mundo das ideias. Esta teoria serve de fundamento à da Reminiscência.

    Teoria da Reminiscência. 

Esta teoria pressupõe a existência de um saber inato que pode ser recordado.
 

Principais questões colocadas no Fédon

 Imortalidade da alma.
 

A questão central deste diálogo.Platão procura dar neste diálogo uma fundamentação filosófica da Psyké (princípio vital, alma) até então muito envolto em concepções mágico-religiosas (cfr.E.R.Dodds).Todas as provas que apresenta para a imortalidade da alma são apoiadas na sua teoria das ideias: a) O conhecimento como reminiscência das ideias contempladas; b) o conhecimento das ideias pela alma demonstra a semelhança desta com aquelas; c) As coisas são o que são devido à sua participação nas ideias.

Dualismo antropológico.  

O corpo é associado a um túmulo que aprisiona a alma e a impede de pensar-se a si própria e a toda a realidade. A alma só o poderá fazer separando-se das necessidades e fruições corporóreas, o que só acontecerá após a morte, na outra vida, mas para que isso aconteça é necessário que a alma esteja preparada.

Teoria do conhecimento. 

Platão começa por distinguir neste diálogo, o mundo sensível do mundo inteligível.O primeiro só nos permite um conhecimento aparente do mundo e portanto não um verdadeiro conhecimento. Os sentidos constituem verdadeiros obstáculos para a alma de atingir o verdadeiro conhecimento, o que só o poderá obter afastando-se ou libertando-se do corpo (sentidos).A fim de garantir a possibilidade do próprio conhecimento Platão sustentam que as coisas sensíveis são cópias (sombras) das ideias que a alma contemplou no mundo inteligível. Quando esta reincarna num corpo trás consigo recordações destas formas (ideias inatas), transformando deste modo toda a aprendizagem numa recordação.

Ideias Inatas.
O ciclo de reincarnações da alma fundamenta a teoria da reminiscência e a do conhecimento. Questão que emerge desta concepção: Qual o valor do conhecimento sensível e da aprendizagem ?.

Isomorfismo da Alma com o Cosmos (107d-114c). A concepção da alma em Platão, dividida em três partes (Alma Racional, Alma Irascível e Alma Concupiscente) tem um paralelismo na sua concepção de Estado (Polis), onde encontramos também três funções básicas (função económica, defensiva e legislativa), mas também na sua concepção do cosmos onde sustenta a existência de três terras (Fédon, Cap.VIII).

Política.A teoria política de Platão está intimamente relacionada com a sua teoria das ideias. Só um Estado governado por quem tem o conhecimento dos fundamentos da ordem e da justiça, pode ser ordenado e justo.


Moral.
O renascimento das almas após a morte, sob formas desiguais, fundamenta a justiça que transcende os homens e que os julga pelas escolhas que fizerem durante a vida.   


Teoria do Conhecimento

Nesta obra Platão desenvolve um conjunto de questões sobre o conhecimento com enormes repercussões na história do pensamento ocidental.

        O objecto da ciência não são as coisas sensíveis, mas as ideias (eternas, unas e imutáveis).  

        As ideias são o objecto visado pelo conhecimento racional

        Os sofistas não foram além das aparências, limitaram-se a emitir opiniões sobre as aparências sensíveis

        Os filósofos são os únicos que procuram o verdadeiro conhecimento ultrapassando o domínio das aparências sensíveis.

        A tarefa da filosofia é afastar a alma da investigação feita com o olhos, com os ouvidos e os outros sentidos, levando- a a concentrar-se em si própria para aí descobrir o Ser, aquilo que é.

        A alma deve assim separar-se o mais possível do corpo (mundo sensível), preparando-se para a morte (o regresso ao mundo das ideias).     

        As ideias são os critérios ou princípios  de julgamento das coisas sensíveis

        As ideias permitem-nos julgar as coisas, quer quanto à sua semelhança, perfeição ou imperfeição. Servem-nos igualmente para julgar do que é bom, justo, belo e outros valores que atribuímos ás coisas

        As ideias são as causas das coisas no mundo sensível

        As ideias são as causas das coisas do mundo sensível, a sua razão de ser (fim).

Isomormisfismo entre a Alma e o Cosmos

lmortalidade da Alma


        As "provas" da imortalidade da alma constituem o núcleo central do Fédon, para a fundamentação das quais serão evocadas as várias teorias (Teoria da Ideias, da Reminiscência e da Reincarnação).

        1º. Argumento:
O devir faz-se através da sucessão ciclica de coisas contrárias. Esta teoria que remonta a Heraclito. Os contrários sucedem-se alternadamente. Do pequeno se faz o grande e do grande o pequeno. O sonho sucede à vigilia, a decomposição à composição, como a morte se sucede à vida e esta àquela. De acordo com este princípio, a existência terrena seria precedida de uma vida anterior oposta à morte (teoria da metempsicose). Neste processo é contudo necessário, que algo permaneça através dos ciclos de vida e da morte: a alma, enquanto princípio da vida.

        2º. Argumento:
Reminisciência. Para que alguém recorde algo, é necessário que antes  tenha aprendido.Aquilo que recordamos aprendemos numa outra existência, na qual a lama contemplou as ideias. Platão afirma deste modo que a alma pré-existe ao corpo e sobrevive à sua morte.

        3º. Argumento:
Simplicidade da alma e sua afinidade com a Ideias . As coisas simples simples - as Ideias -, distinguem-se das compostas -os corpos -, por serem eternas, invisiveis e imutáveis. Num homem podemos distinguir a alma e o corpo. A alma é simples e o corpo é composto.Logo, temos que convir que à alma pertencem todas as características que são próprias das ideias, sendo portanto imortal.

        4º. Argumento:
Incompatiblidade dos Opostos. As coisas particulares do mundo sensível tem existência e realidade quando participam nas ideias. Mas uma coisa não pode participar da Ideia que lhe é oposta (par no impar, calor no frio, saúde no frio, bom no mau). Ora a vida e a morte são opostos. A alma participa na ideia de vida, logo exclui a sua ideia contrária, a morte. A alma ao aproximar-se da morte ( o seu contrário) afasta-se, libertando-se. Podemos pois concluir que a alma é imortal.

        
Fonte:
Carlos Fontes
Analise de Obras de Platão
Carlos Fontes
Navegando na Filosofia
http://afilosofia.no.sapo.pt/platao1.htm