quarta-feira, 27 de julho de 2011

DA MÚSICA E DA HARMONIA




Um pequeno estudo sobre esse elo com o divino

A relação entre as notas musicais e os números, em virtude da qual a harmonia resulta de vibrações em tempos iguais, e a desarmonia do inverso, levou Pitágoras a aplicar a palavra “harmonia” à criação visível, querendo dizer com isso a justa adaptação das partes umas às outras. Esta é a idéia que Dryden expressa no começo de sua “Canção para o Dia de Santa Cecília”:

    Da celeste harmonia, da harmonia
    Originou-se esse sistema eterno.
    De harmonia em harmonia,
    Toda a escala das notas percorreu
    Até o Homem, suprema melodia.

No centro do universo, ensinava Pitágoras, havia um fogo central, o princípio da vida, que era cercado pela Terra, pela Lua, pelo Sol e pelos cinco planetas. As distâncias dos vários corpos celestes entre si eram concebidas para corresponder às proporções da escala musical. Os corpos celestes, com os deuses que os habitavam, executavam, segundo se supunha, uma dança coral em torno do ponto central, “não sem cantos”. É a essa doutrina que Shakespeare, em “O Mercador de Veneza” faz alusão, quando Lorenzo ensina astronomia a Jéssica, à sua moda:

    Olha Jéssica, como a superfície
    Do céu de ouro é toda revestida.
    Mesmo a menor esfera que contemplas
    Em seu rolar entoa, como os anjos,
    Um canto que acalenta o querubim,
    Essa harmonia as almas imortais
    Ouvem, porém ouvi-la não podemos
    Sem despirmos o invólucro mortal.
    ... Por isso disse o poeta que Orfeu
    Tinha o poder de atrair com seu canto
    As próprias pedras, as árvores e as ondas,
    Visto que não há nada insensível,
    Cruel e duro a que não possa a música,
    Com o tempo, mudar a natureza.

As esferas, segundo se concebia, eram de um material cristalino ou vítreo, dispostas umas sobre as outras como um conjunto de tigelas emborcadas. Supunha-se que, na substância de cada esfera, estava preso um, ou mais de um, corpo celeste, que se movia com ela. Como as esferas eram transparentes, os corpos celestes que continham e seu movimento podiam ser vistos pelo homem. Como, porém, essas esferas não podiam mover-se sem se atritarem umas nas outras, esse atrito produzia um som muito harmonioso, delicado demais para ser apreendido por ouvidos mortais. Milton, em seu 

Hino à Natividade”, 
assim alude à música das esferas:

    Soai, esferas de cristal, soai!
    Os ouvidos humanos deleitai
    (Se podeis os sentidos deleitar).
    Que soem vossos carrilhões de prata
    Com ritmo que encanta e que arrebata
    E que o órgão do Céu possa soar
    E com a vossa nônupla harmonia
    O concerto da Angélica harmonia.

Atribui-se a Pitágoras a invenção da lira. Longfellow, no poema 

“Versos a Uma Criança”, 

assim relata o episódio:

    Pitágoras, o sábio, certo dia,
    Ouvindo, junto à porta de um ferreiro,
    As diferentes notas produzidas
    Pelos malhos batendo na bigorna,
    Os variados sons com que vibrava
    Cada haste de ferro, ele o segredo
    Roubou das cordas de metal sonoras
    E a lira construiu de sete cordas.

~ Arnaldo Poesia ~

O mito de Orfeu

Esse mito vem ilustrar ainda mais 
o estudo sobre o tema

Na mitologia grega, Orfeu era poeta e músico, filho de Apolo, e da musa Calíope. Era o músico mais talentoso que já viveu. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Ganhou a lira de Apolo. Alguns dizem que Eagro, rei da Trácia, era seu pai.

Foi um dos cinquenta homens que atenderam ao chamado de Jasão, os argonautas, para buscar o Velocino de Ouro. Acalmava as brigas que aconteciam no navio com sua lira. Durante a viagem de volta, Orfeu salvou os outros tripulantes quando seu canto silenciou as sereias, responsáveis pelos naufrágios de inúmeras embarcações.

Orfeu apaixonou-se por Eurídice 
e casou-se com ela. 

Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela tropeçou em uma serpente que a picou e a matou. Por causa disso, as ninfas, companheiras de Eurídice, fizeram todas as suas abelhas morrerem.

Orfeu ficou muito transtornado. Levando sua lira, foi até o Mundo dos Mortos, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões. Seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados. Encontrou muitos monstros durante sua jornada, e os encantou com seu canto.

Finalmente Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse ao pedido de Orfeu.

Assim, Hades atendeu seu desejo. 
Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos.
Mas com uma única condição: 
que ele não olhasse para ela até que ela, 
outra vez, estivesse à luz do sol.

Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele não olhou nenhuma vez para trás, até atingir a luz do sol. Mas então se virou, para se certificar de que Eurídice o estava seguindo.

Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma (ou em outras versões uma estátua de sal), seu grito final de amor e tristeza não mais do que um suspiro na brisa que saía do Mundo dos Mortos. 

Ele a havia perdido para sempre. Em desespero total, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo lembrar-se da perda de sua amada. Posteriormente deu origem ao Orfismo, uma espécie de serviço de aconselhamento; ele ajudava muito os outros com seus conselhos, mas não conseguia resolver seus próprios problemas, até que um dia, furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas Mênades caiu sobre ele, loucas, atirando dardos. 

Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no rio Hebro, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice! Eurídice!"

Os ventos e as ondas levaram-na para a praia, na Ilha de Lesbos, onde os habitantes enterraram a cabeça e foi construído um santuário em sua honra perto de Antissa; lá seu oráculo profetizou durante algum tempo, até que foi substituído por Apolo.

Chorando, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no monte Olimpo. Dizem que, desde então, os rouxinóis das proximidades cantaram mais docemente que os outros. Pois Orfeu, na morte, se uniu à sua amada Eurídice.

A lira foi levada para o céu pelas Musas, 
e colocada entre as estrelas.

Quanto às Mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em carvalhos silenciosos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram ao chão.

Da história de Orfeu, Pope tirou um exemplo do poder da música, em sua "Ode ao Dia de Santa Cecília". A estrofe seguinte relata a conclusão da história:

    Muito cedo, porém, volve os olhos
    Orfeu e de novo Ela cai, e de novo morreu!
    Como conseguirás as três Parcas domar?
    Crime não houve teu, se não é crime amar.
    E, agora, debruçado sobre os montes,
    Junto à água das fontes
    Ou onde o Hebro abre seu caminho
    Orfeu chora sozinho
    E, em luto e em pranto, invoca a alma querida,
    Para sempre perdida!
    Agora, todo em fogo, clama, ardente,
    Sobre a neve do Ródope imponente,
    E ei-lo, furioso como o vento, voa
    E, em torno, o ardor da bacanal ressoa.
    Está morrendo, vede, e a amada canta,
    Seu nome vem-lhe aos lábios, à garganta.
    "Eurídice", a palavra derradeira.
    "Eurídice", dizem as matas,
    "Eurídice", as cascatas.
    Repete o nome a natureza inteira.

~ Arnaldo Poesia ~



Nota: Tanto Dryden na sua “Canção para o Dia de Santa Cecília” quanto Pope na “Ode ao Dia de Santa Cecília”, compuseram esses trabalhos, porque Santa Cecília é a padroeira da música.

Bibliografia: Thomas Bulfinch, A Idade da Fábula (The Age of Fable), Histórias de Deuses e Heróis, Ediouro, Rio de Janeiro, 2002. – Arnaldo Poesia, Duas Leituras sobre a Música e a Harmonia, Edição do Autor, Niterói, 1984. – Charles Seagal, Orpheus: The Myth of the Poet, John Hopkins University Press, Baltimore, 1989.

© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 2000/ 2011.
Tous droits de traduction, de reproduction et d'adaptation réservés pour tous pays.
Fonte:
Starnews2001
http://www.starnews2001.com.br/musica-e-harmonia.html
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

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